Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 29 de março de 2026

Federico García Lorca - As seis cordas / A criança muda

Com aquele seu estilo típico, a mesclar elementos do folclore espanhol, surrealismo e uma profunda sensibilidade à dor humana, Lorca, recorrendo de resto a imagens naturais – tarântula, grilo, água –, explora, nos dois infratranscritos poemas, estados emocionais complexos, matizando-os com elementos ao mesmo tempo mágicos e melancólicos, na tentativa de capturar a essência do inexprimível, quer seja a vibração das cordas de uma guitarra, quer seja a busca incessante de uma voz perdida.

 

No primeiro deles – “As seis cordas” –, reforça-se a ideia de que a guitarra funciona como um meio de expressão para o sofrimento coletivo, ao emitir sons nos quais se evolam sentimentos que parecem emergir da própria alma humana, ecos de suas aspirações e desesperanças acomodados no “algibe” interno do instrumento musical.

 

No segundo – “A criança muda” –, não busca o infante tão apenas um simples som, mas uma parte essencial de si mesmo que, em princípio, passou a pertencer ao “rei dos grilos” – figurante metafórico que impregna os versos de uma certa atmosfera fantástica, sob cujo peso se arrebata a voz da criança, ressignificando-a.

 

A propósito, perceba-se o fato de que o sujeito lírico não reclama pela retomada de sua voz como uma ferramenta para a comunicação diária – algo essencial para expressar ideias, sentimentos e estabelecer relações com o mundo –, senão para transcender essa mera função prática, convertendo-a num objeto pessoal irresistível, um tributo ao silêncio e à intimidade do ser. Em outras palavras, a criança não procura a voz para dialogar com o mundo de maneira superficial; ela a demanda para cuidar, preservar e transformar esse núcleo emocional e silencioso em um símbolo fidedigno dos escaninhos mais privativos de sua interioridade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Federico García Lorca

(1898-1936)

 

Las seis cuerdas

 

La guitarra,

hace llorar a los sueños.

El sollozo de las almas

perdidas,

se escapa por su boca

redonda.

Y como la tarántula

teje una gran estrella

para cazar suspiros,

que flotan en su negro

aljibe de madera.

 

O tocador de banjo

(Thomas Eakins: pintor norte-americano)

 

As seis cordas

 

A guitarra

faz chorar os sonhos.

O soluço das almas

perdidas

escapa-lhe pela boca

redonda.

E como a tarântula,

tece uma grande estrela

para capturar suspiros

que flutuam em seu negro

algibe de madeira.

 

O rapazote mudo

(Andrej Barčík: pintor eslovaco)

 

El niño mudo

 

El niño busca su voz.

(La tenía el rey de los grillos.)

En una gota de agua

buscaba su voz el niño.

 

No la quiero para hablar;

me haré con ella un anillo

que llevará mi silencio

en su dedo pequeñito.

 

En una gota de agua

buscaba su voz el niño.

 

(La voz cautiva, a lo lejos,

se ponía un traje de grillo.)

 

Imagem sem créditos

 

A criança muda

 

A criança procura a sua voz.

(Tinha-a o rei dos grilos.)

Em uma gota de água

procurava a sua voz a criança.

 

Não a quero para falar;

com ela far-me-ei um anel

que levará o meu silêncio

em seu dedo mindinho.

 

Em uma gota de água

procurava a sua voz a criança.

 

(A voz cativa, ao longe,

vestia-se com um traje de grilo.)

 

Referência:

 

LORCA, Federico García. Las seis cuerdas / El niño mudo. In: __________. Obras completas. Prólogo de Jorge Guillén. 15. ed. Madrid, ES: Ediciones Aguilar, 1969. p. 314-315 / p. 403-404.

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