Com aquele seu estilo
típico, a mesclar elementos do folclore espanhol, surrealismo e uma profunda
sensibilidade à dor humana, Lorca, recorrendo de resto a imagens naturais –
tarântula, grilo, água –, explora, nos dois infratranscritos poemas, estados
emocionais complexos, matizando-os com elementos ao mesmo tempo mágicos e
melancólicos, na tentativa de capturar a essência do inexprimível, quer seja a
vibração das cordas de uma guitarra, quer seja a busca incessante de uma voz
perdida.
No primeiro deles – “As
seis cordas” –, reforça-se a ideia de que a guitarra funciona como um meio de expressão
para o sofrimento coletivo, ao emitir sons nos quais se evolam sentimentos que
parecem emergir da própria alma humana, ecos de suas aspirações e desesperanças
acomodados no “algibe” interno do instrumento musical.
No segundo – “A
criança muda” –, não busca o infante tão apenas um simples som, mas uma parte
essencial de si mesmo que, em princípio, passou a pertencer ao “rei dos grilos”
– figurante metafórico que impregna os versos de uma certa atmosfera fantástica,
sob cujo peso se arrebata a voz da criança, ressignificando-a.
A propósito, perceba-se
o fato de que o sujeito lírico não reclama pela retomada de sua voz como uma
ferramenta para a comunicação diária – algo essencial para expressar ideias,
sentimentos e estabelecer relações com o mundo –, senão para transcender essa
mera função prática, convertendo-a num objeto pessoal irresistível, um tributo
ao silêncio e à intimidade do ser. Em outras palavras, a criança não procura a
voz para dialogar com o mundo de maneira superficial; ela a demanda para
cuidar, preservar e transformar esse núcleo emocional e silencioso em um símbolo
fidedigno dos escaninhos mais privativos de sua interioridade.
J.A.R. – H.C.
Federico García Lorca
(1898-1936)
Las seis cuerdas
La guitarra,
hace llorar a los
sueños.
El sollozo de las
almas
perdidas,
se escapa por su boca
redonda.
Y como la tarántula
teje una gran
estrella
para cazar suspiros,
que flotan en su
negro
aljibe de madera.
O tocador de banjo
(Thomas Eakins:
pintor norte-americano)
As seis cordas
A guitarra
faz chorar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
escapa-lhe pela boca
redonda.
E como a tarântula,
tece uma grande
estrela
para capturar
suspiros
que flutuam em seu
negro
algibe de madeira.
O rapazote mudo
(Andrej Barčík:
pintor eslovaco)
El niño mudo
El niño busca su voz.
(La tenía el rey de
los grillos.)
En una gota de agua
buscaba su voz el
niño.
No la quiero para
hablar;
me haré con ella un
anillo
que llevará mi
silencio
en su dedo pequeñito.
En una gota de agua
buscaba su voz el
niño.
(La voz cautiva, a lo
lejos,
se ponía un traje de
grillo.)
Imagem sem créditos
A criança muda
A criança procura a
sua voz.
(Tinha-a o rei dos
grilos.)
Em uma gota de água
procurava a sua voz a
criança.
Não a quero para
falar;
com ela far-me-ei um
anel
que levará o meu
silêncio
em seu dedo mindinho.
Em uma gota de água
procurava a sua voz a
criança.
(A voz cativa, ao
longe,
vestia-se com um
traje de grilo.)
Referência:
LORCA, Federico
García. Las seis cuerdas / El niño mudo. In: __________. Obras completas.
Prólogo de Jorge Guillén. 15. ed. Madrid, ES: Ediciones Aguilar, 1969. p.
314-315 / p. 403-404.
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