Numa voz singular e provocativa,
Adília combina nestes versos elementos de crítica sócio-política, feminismo e perscrutação
psicológica, utilizando o ato sexual quer como metáfora para a aspiração libertadora
que tem em mente, quer como lente para pôr em evidência o modo como as
estruturas de poder penetram os espaços íntimos ou privados – onde, a seu ver, há
de ocorrer a verdadeira “revolução”, com o objetivo de se atender às mais
imediatas necessidades humanas.
Em busca de plenitude
e de autenticidade, a poetisa propõe a insurgência contra as estruturas
opressoras do modo de produção capitalista, sistema que a tudo submete e
coloniza tendo em vista os seus interesses, inclusive, claro está, a expressão
do sexo e a definição dos papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres,
alentando-as com falsas expectativas, as quais, ao fim e ao cabo, sujeitam-as a
uma cultura de otimismo obrigatório ou de felicidade forçada.
J.A.R. – H.C.
Adília Lopes
(1960-2024)
Eu quero foder foder
Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de
banho
de casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação de
poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos
livres
(semana de 24 x 7
horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bebé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste
Em: “Florbela Espanca
espanca” (1999)
Imagem sem créditos
Referência:
LOPES, Adília. Eu quero foder foder. In: __________. Dobra: poesia reunida (1983-2021). Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2021. p. 374.
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