Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 3 de março de 2026

Adília Lopes - Eu quero foder foder

Numa voz singular e provocativa, Adília combina nestes versos elementos de crítica sócio-política, feminismo e perscrutação psicológica, utilizando o ato sexual quer como metáfora para a aspiração libertadora que tem em mente, quer como lente para pôr em evidência o modo como as estruturas de poder penetram os espaços íntimos ou privados – onde, a seu ver, há de ocorrer a verdadeira “revolução”, com o objetivo de se atender às mais imediatas necessidades humanas.

 

Em busca de plenitude e de autenticidade, a poetisa propõe a insurgência contra as estruturas opressoras do modo de produção capitalista, sistema que a tudo submete e coloniza tendo em vista os seus interesses, inclusive, claro está, a expressão do sexo e a definição dos papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres, alentando-as com falsas expectativas, as quais, ao fim e ao cabo, sujeitam-as a uma cultura de otimismo obrigatório ou de felicidade forçada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adília Lopes

(1960-2024)

 

Eu quero foder foder

 

Eu quero foder foder

achadamente

se esta revolução

não me deixa

foder até morrer

é porque

não é revolução

nenhuma

a revolução

não se faz

nas praças

nem nos palácios

(essa é a revolução

dos fariseus)

a revolução

faz-se na casa de banho

de casa

da escola

do trabalho

a relação entre

as pessoas

deve ser uma troca

hoje é uma relação de poder

(mesmo no foder)

a ceifeira ceifa

contente

ceifa nos tempos livres

(semana de 24 x 7 horas já!)

a gestora avalia

a empresa

pela casa de banho

e canta

contente

porque há alegria

no trabalho

o choro da bebé

não impede a mãe

de se vir

a galinha brinca

com a raposa

eu tenho o direito

de estar triste

 

Em: “Florbela Espanca espanca” (1999)

 

Imagem sem créditos

 

Referência:

 

LOPES, Adília. Eu quero foder foder. In: __________. Dobra: poesia reunida (1983-2021). Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2021. p. 374.

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