A julgar pelos versos
deste poema – para além, é claro, do que lhe sucedeu ao dar fim à própria vida –,
Pavese tinha uma visão bem pessimista da condição humana: estamos ligados à
terra, sob o tônus opressivo de uma natureza indiferente – as colinas, o mar, a
oliveira, o céu, a lua – que a tudo testemunha, mas que não oferece consolo aos
humanos padecimentos.
Na elocução
entabulada pelo poeta, sobressaem o esgotamento causado pelo trabalho agrícola extenuante
– porventura uma crítica ao sistema socioeconômico explorador da mão de obra rural
–, o lastro de morte que sobrevém àqueles que dependem da terra para
sobreviver, além do peso emocional e físico que recai sobre os ombros daqueles
que devem dar sequência à lida.
Entrementes, a supracitada
lua, em sua presença ominosa, a tudo ilumina, sem, contudo, proporcionar
verdadeira claridade ou redenção: surgindo em meados de agosto, pressupõe o fim
do verão e o limiar do outono, exatamente um período de transição a sinalizar o
refreamento da produtividade agrícola e, mais extensivamente, da própria vida, com
reflexos sobre o destino dos protagonistas – um misto de desalento e de declínio.
J.A.R. – H.C.
Cesare Pavese
(1908-1950)
Luna d’agosto
Al di là delle gaie
colline c’è il mare,
al di là delle nubi.
Ma giornate tremende
di colline
ondeggianti e crepitanti nel cielo
si frammettono prima
del mare. Quassù c’è l’ulivo
con la pozza d’acqua
che non basta a specchiarsi,
e le stoppie, le
stoppie, che non cessano mai.
E si leva la luna. Il
marito è disteso
in un campo, col
cranio spaccato dal sole
– una sposa non può trascinare
un cadavere
come un sacco –. Si
leva la luna, che getta
un po’ d’ombra
sotto i rami
contorti. La donna nell’ombra
leva un ghigno
atterrito al faccione di sangue
che coagula e inonda
ogni piega dei colli.
Non si muove il
cadavere disteso nei campi
né la donna
nell’ombra. Pure l’occhio di sangue
pare ammicchi a
qualcuno e gli segni una strada.
Vengono brividi
lunghi per le nude colline
di lontano, e la
donna se li sente alle spalle,
come quando correvano
il mare del grano.
Anche invadono i rami
dell’ulivo sperduto
in quel mare di luna,
e già l’ombra dell’albero
pare stia per
contrarsi e inghiottire anche lei.
Si precipita fuori,
nell’orrore lunare,
e la segue il fruscio
della brezza sui sassi
e una sagoma tenue
che le morde le piante,
e la doglia nel
grembo. Rientra curva nell’ombra
e si butta sui sassi
e si morde la bocca.
Sotto, scura la
terra, si bagna di sangue.
Agosto 1935
Lua de agosto
(Arthur Wesley Dow:
pintor norte-americano)
Lua de agosto
Para além das
douradas colinas há o mar,
para além dessas
nuvens. Mas tremendas jornadas
de ondulantes colinas
que crepitam no céu
se interpõem na
frente do mar. Aqui em cima
há a oliveira
com a poça d’água que
não lhe basta para espelhar-se,
e os restolhos,
restolhos que nunca terminam.
Eis que a lua
aparece. O marido se estende
em um campo, seu
crânio partido de sol
– uma esposa não pode
arrastar um cadáver
como um saco.
Levanta-se a lua lançando uma sombra
sob os galhos
torcidos. Na sombra, a mulher
lança um guincho de
horror ao carão dessangrado
que coagula inundando
as ravinas dos montes.
Não se move o cadáver
caído nos campos
nem na sombra a
mulher. Mas o olho de sangue
quase pisca a alguém
indicando-lhe um rumo.
Calafrios percorrem
as nuas colinas
à distância, e a
mulher os recebe nos ombros
como quando corriam
os mares de trigo.
Também vibram os
ramos da oliveira perdida
nesses mares de lua,
e a sombra da árvore
já parece fechar-se,
ameaçando engoli-la.
Ela corre ao aberto,
ao terror dessa lua,
e o gemido da brisa
na pedra a persegue,
e uma forma suave lhe
morde as pegadas,
e uma dor no regaço.
Volta curva no escuro
e se joga nas pedras
mordendo-se a boca.
Mais embaixo esta
terra se lava de sangue.
Agosto de 1935
Referência:
PAVESE, Cesare. Luna d’agosto / Lua de agosto. Tradução de Maurício Santana Dias. In: __________. Trabalhar cansa. Tradução e introdução de Maurício Santana Dias. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2022. Em italiano: p. 108 e 110; em português: p. 109 e 111.
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