Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 9 de março de 2026

Cesare Pavese - Lua de agosto

A julgar pelos versos deste poema – para além, é claro, do que lhe sucedeu ao dar fim à própria vida –, Pavese tinha uma visão bem pessimista da condição humana: estamos ligados à terra, sob o tônus opressivo de uma natureza indiferente – as colinas, o mar, a oliveira, o céu, a lua – que a tudo testemunha, mas que não oferece consolo aos humanos padecimentos.

 

Na elocução entabulada pelo poeta, sobressaem o esgotamento causado pelo trabalho agrícola extenuante – porventura uma crítica ao sistema socioeconômico explorador da mão de obra rural –, o lastro de morte que sobrevém àqueles que dependem da terra para sobreviver, além do peso emocional e físico que recai sobre os ombros daqueles que devem dar sequência à lida.

 

Entrementes, a supracitada lua, em sua presença ominosa, a tudo ilumina, sem, contudo, proporcionar verdadeira claridade ou redenção: surgindo em meados de agosto, pressupõe o fim do verão e o limiar do outono, exatamente um período de transição a sinalizar o refreamento da produtividade agrícola e, mais extensivamente, da própria vida, com reflexos sobre o destino dos protagonistas – um misto de desalento e de declínio.  

 

J.A.R. – H.C.

 

Cesare Pavese

(1908-1950)

 

Luna d’agosto

 

Al di là delle gaie colline c’è il mare,

al di là delle nubi. Ma giornate tremende

di colline ondeggianti e crepitanti nel cielo

si frammettono prima del mare. Quassù c’è l’ulivo

con la pozza d’acqua che non basta a specchiarsi,

e le stoppie, le stoppie, che non cessano mai.

 

E si leva la luna. Il marito è disteso

in un campo, col cranio spaccato dal sole

– una sposa non può trascinare un cadavere

come un sacco –. Si leva la luna, che getta

un po’ d’ombra

sotto i rami contorti. La donna nell’ombra

leva un ghigno atterrito al faccione di sangue

che coagula e inonda ogni piega dei colli.

Non si muove il cadavere disteso nei campi

né la donna nell’ombra. Pure l’occhio di sangue

pare ammicchi a qualcuno e gli segni una strada.

 

Vengono brividi lunghi per le nude colline

di lontano, e la donna se li sente alle spalle,

come quando correvano il mare del grano.

Anche invadono i rami dell’ulivo sperduto

in quel mare di luna, e già l’ombra dell’albero

pare stia per contrarsi e inghiottire anche lei.

 

Si precipita fuori, nell’orrore lunare,

e la segue il fruscio della brezza sui sassi

e una sagoma tenue che le morde le piante,

e la doglia nel grembo. Rientra curva nell’ombra

e si butta sui sassi e si morde la bocca.

Sotto, scura la terra, si bagna di sangue.

 

Agosto 1935

 

Lua de agosto

(Arthur Wesley Dow: pintor norte-americano)

 

Lua de agosto

 

Para além das douradas colinas há o mar,

para além dessas nuvens. Mas tremendas jornadas

de ondulantes colinas que crepitam no céu

se interpõem na frente do mar. Aqui em cima

há a oliveira

com a poça d’água que não lhe basta para espelhar-se,

e os restolhos, restolhos que nunca terminam.

 

Eis que a lua aparece. O marido se estende

em um campo, seu crânio partido de sol

– uma esposa não pode arrastar um cadáver

como um saco. Levanta-se a lua lançando uma sombra

sob os galhos torcidos. Na sombra, a mulher

lança um guincho de horror ao carão dessangrado

que coagula inundando as ravinas dos montes.

Não se move o cadáver caído nos campos

nem na sombra a mulher. Mas o olho de sangue

quase pisca a alguém indicando-lhe um rumo.

 

Calafrios percorrem as nuas colinas

à distância, e a mulher os recebe nos ombros

como quando corriam os mares de trigo.

Também vibram os ramos da oliveira perdida

nesses mares de lua, e a sombra da árvore

já parece fechar-se, ameaçando engoli-la.

 

Ela corre ao aberto, ao terror dessa lua,

e o gemido da brisa na pedra a persegue,

e uma forma suave lhe morde as pegadas,

e uma dor no regaço. Volta curva no escuro

e se joga nas pedras mordendo-se a boca.

Mais embaixo esta terra se lava de sangue.

 

Agosto de 1935

 

Referência:

 

PAVESE, Cesare. Luna d’agosto / Lua de agosto. Tradução de Maurício Santana Dias. In: __________. Trabalhar cansa. Tradução e introdução de Maurício Santana Dias. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2022. Em italiano: p. 108 e 110; em português: p. 109 e 111.

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