Num tom surrealista e
carregado de ambiguidades, O’Hara mescla imagens oníricas, elementos da
natureza e uma velada sensualidade, detendo-se particularmente em andamentos
que representam transições – como entre sombras e luzes, ocultamento e
revelação, o efêmero e o eterno –, mediante os quais objetiva perscrutar o
sentido da existência no instante mesmo em que o mundo dos sonhos se esvai com
o advento da alba, e uma sensação de suavidade e harmonia passa a dominar o espírito
do falante.
A propósito, a interação
que se estabelece entre o sujeito lírico e a vastidão do universo sugere haver
maior consistência na lida humana quando se entra em conexão equilibrada com a
dinâmica e a transitoriedade do mundo que nos rodeia, como se o falante
dissesse: “Minha vida não se rende a uma categórica explicação lógica, pois que
representa não mais que um intento – tornar-se sal, vento e movimento no mar”.
J.A.R. – H.C.
Frank O’Hara
(1926-1966)
Aubade (*)
to Jimmy Scluyler
A million stars are dreaming out
the murderous whims of the apples.
Sinking like celestas in the dawn
already growing faint, beyond temples
whose silent throbbing dictates
a green life to my waking heart. Bids
the bones that decorate this shore
become the pearl of loved eyelids’
sunlight, withdrawn until unseen
at night, when like the cat’s hand,
the sea, they warmly flutter near
upon the belly of the sable sand.
A meaning of my life volleys
thus into the sky to rest, breathes
upon these vessels by the sea,
to be wrought in the frothing waves.
New York, October 1952
A Aubade
(Pablo Picasso:
pintor espanhol)
Aubade
A Jimmy Scluyler
Um milhão de estrelas
estão a sonhar
com os caprichos mortíferos
das maçãs.
Soçobram como
celestas na aurora
já a desvanecer para
além dos templos,
cujo pulsante silêncio
apregoa
uma vida de verdor ao
meu coração desperto.
Ordenam aos ossos que
guarnecem este litoral
para que se tornem pérola
de luz solar
a diletas pálpebras, retraídos
sem serem vistos
até a noite, quando, como
uma pata felina,
o mar os faz tremeluzir
calorosamente
rente ao ventre da
areia escura.
Um dos sentidos do
meu viver lança-se
assim ao céu para
repousar, sopra
sobre estes batéis à
beira-mar,
para ser forjado em
meio às ondas espumantes.
Nova Iorque, outubro
de 1952
Nota:
(*). Aubade é uma
palavra francesa que significa “na alvorada do século”. Em inglês, aubade pode
ter dois significados: (i) uma canção ou poema que saúda o amanhecer; ou (ii)
um prelúdio ou abertura romântica ou idílica.
Referência:
O’HARA, Frank.
Aubade. In: __________. The collected poems of Frank O’Hara. Edited by
Donald Allen with an introduction by John Ashbery. 1st print. Berkeley, CA:
University of California Press, 1995. p. 106.
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