Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 5 de março de 2026

Frank O’Hara - Aubade

Num tom surrealista e carregado de ambiguidades, O’Hara mescla imagens oníricas, elementos da natureza e uma velada sensualidade, detendo-se particularmente em andamentos que representam transições – como entre sombras e luzes, ocultamento e revelação, o efêmero e o eterno –, mediante os quais objetiva perscrutar o sentido da existência no instante mesmo em que o mundo dos sonhos se esvai com o advento da alba, e uma sensação de suavidade e harmonia passa a dominar o espírito do falante.

 

A propósito, a interação que se estabelece entre o sujeito lírico e a vastidão do universo sugere haver maior consistência na lida humana quando se entra em conexão equilibrada com a dinâmica e a transitoriedade do mundo que nos rodeia, como se o falante dissesse: “Minha vida não se rende a uma categórica explicação lógica, pois que representa não mais que um intento – tornar-se sal, vento e movimento no mar”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Frank O’Hara

(1926-1966)

 

Aubade (*)

 

to Jimmy Scluyler

 

A million stars are dreaming out

the murderous whims of the apples.

Sinking like celestas in the dawn

already growing faint, beyond temples

 

whose silent throbbing dictates

a green life to my waking heart. Bids

the bones that decorate this shore

become the pearl of loved eyelids’

 

sunlight, withdrawn until unseen

at night, when like the cat’s hand,

the sea, they warmly flutter near

upon the belly of the sable sand.

 

A meaning of my life volleys

thus into the sky to rest, breathes

upon these vessels by the sea,

to be wrought in the frothing waves.

 

New York, October 1952

 

A Aubade

(Pablo Picasso: pintor espanhol)

 

Aubade

 

A Jimmy Scluyler

 

Um milhão de estrelas estão a sonhar

com os caprichos mortíferos das maçãs.

Soçobram como celestas na aurora

já a desvanecer para além dos templos,

 

cujo pulsante silêncio apregoa

uma vida de verdor ao meu coração desperto.

Ordenam aos ossos que guarnecem este litoral

para que se tornem pérola de luz solar

 

a diletas pálpebras, retraídos sem serem vistos

até a noite, quando, como uma pata felina,

o mar os faz tremeluzir calorosamente

rente ao ventre da areia escura.

 

Um dos sentidos do meu viver lança-se

assim ao céu para repousar, sopra

sobre estes batéis à beira-mar,

para ser forjado em meio às ondas espumantes.

 

Nova Iorque, outubro de 1952

 

Nota:

 

(*). Aubade é uma palavra francesa que significa “na alvorada do século”. Em inglês, aubade pode ter dois significados: (i) uma canção ou poema que saúda o amanhecer; ou (ii) um prelúdio ou abertura romântica ou idílica.

 

Referência:

 

O’HARA, Frank. Aubade. In: __________. The collected poems of Frank O’Hara. Edited by Donald Allen with an introduction by John Ashbery. 1st print. Berkeley, CA: University of California Press, 1995. p. 106.

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