Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 2 de março de 2026

Gerardo Diego - Em metade de um verso

Vislumbrando o que há de mais eterno na arte, o autor espanhol tece loas à conexão indissolúvel entre o poeta e sua criação, oferecendo-nos uma visão otimista e quase mística da morte, apresentada nestes versos não como um termo categórico, um portal por onde se tem acesso ao nada, mas como uma continuidade dentro do fluxo incessante da palavra poética ou, ainda, uma via por onde se entra em comunhão com o divino.

 

O ato de escrever poemas, com o objetivo de se capturar o que há de poesia no entorno ou em seu universo mental, define a vida daquele que se entrega à Lírica, integrando o seu ser à correspondente expressão artística, tornando-a eloquente mesmo a despeito de sua eventual incompletude pelo advento da morte, porquanto sempre suscetível de ser reinterpretada ou expandida por seus seguidores.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gerardo Diego

(1896-1987)

 

En mitad de um verso

 

Murió en mitad de un verso,

cantándolo, floreciéndole,

y quedó el verso abierto, disponible

para la eternidad,

mecido por la brisa,

la brisa que jamás concluye,

verso sin terminar, poeta eterno.

 

Quién muriera así

al aire de una sílaba.

Y al conocer esa muerte de poeta,

recordé otra de mis oraciones.

“Quiero vivir, morir, siempre cantando

y no quiero saber por qué ni cuándo.” (*)

Sí, en el seno del verso,

que le concluya y me concluya Dios.

 

A caminhada do poeta

(Lael Har: pintora norte-americana)

 

Em metade de um verso

 

Morreu no meio de um verso,

cantando-o, fazendo-o florescer,

e o verso ficou aberto, disponível

para a eternidade,

embalado pela brisa,

a brisa que jamais cessa,

verso inacabado, poeta eterno.

 

Quem morreria assim,

ao sopro de uma sílaba.

E ao conhecer essa morte de poeta,

lembrei-me de outra das minhas orações:

Quero viver, morrer, sempre cantando

e não quero saber por quê nem quando.”

Sim, no seio do verso,

que Deus o conclua e me conclua.

 

Nota do Editor:

 

(*). Versos pertencentes ao soneto “El ciprés de Silos (Ausente)”, recolhido em seu livro “Alondra de verdad” (1941). (GAOS, 2015, p. 111, n.r.)

 

Referência:

 

DIEGO, Gerardo. En mitad de um verso. In: GAOS, Vicente (Ed.). Antología del grupo poético de 1927. Actualizada por Carlos Sahagún. 29. ed. Madrid, ES: Cátedra, 2015. p. 111. (“Letras Hispánicas”)

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