Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 28 de março de 2026

Leopoldo Lugones - Metempsicose

Se somos essa inarredável dualidade entre o animal e o humano, entre o cão cego – a encarnar o instintivo e o primal – e a alma – tradução do nosso lado mais racional e consciente –, cumpre-nos reconciliar essas duas facetas aparentemente opostas, sobretudo pela busca constante de beleza e verdade em cada experiência, aprimorando o autoconhecimento em meio ao caos.

 

Os versos de Lugones sucedem-se em imagens viscerais, grávidas de sugestões alusivas a sacrifícios, sofrimentos, desconsolos e infortúnios, orientados a um propósito final de redenção do sujeito poético, por meio dos quais passa ele a ter uma compreensão mais aguçada das misérias humanas e a reavaliar os próprios valores sociais a que dá acolhida em seu espírito.

 

J.A.R. – H.C.

 

Leopoldo Lugones

(1874-1938)

 

Metempsicosis (*)

 

Era un país de selva i de amargura,

un país con altísimos abetos,

con abetos altísimos, en donde

ponía quejas el temblor del viento.

Tal ver era la tierra cimeriana

donde estaba la boca del Infierno,

la isla que en el grado ochenta i siete

de latitud austral, marca el lindero

de la líquida mar; sobre las aguas

se levantaba un promontorio negro,

como el cuello de un lúgubre caballo,

de un potro colosal, que hubiera muerto

en su última postura de combate,

con la hinchada nariz humeando al viento.

El orto formidable de una noche

con intenso borrón manchaba el cielo,

i sobre el fondo de carbón flotaba

la alta silueta del peñasco negro.

Una luna ruinosa se perdía

con su amarilla cara de esqueleto

en distancias de ensueño y de problema;

i había un mar, pero era un mar eterno,

dormido en un silencio sofocante

como un fantástico animal enfermo.

Sobre el filo más alto de la roca,

ladrando al hosco mar estaba un perro:

 

Sus colmillos brillaban en la noche

pero sus ojos no, porque era ciego.

Su boca abierta relumbraba, roja

como el vientre caldeado de un brasero;

como la gran bandera de venganza

que corona las iras de mis sueños;

como el hierro de una hacha de verdugo

abrevada en la sangre de los cuellos.

I en aquella honda boca aullaba el hambre,

como el sonido fúnebre en el hueco

de las tristes campanas de Noviembre.

Vi a mi alma con sus brazos yertos

i en su frente una luz, hipnotizada

subía hacia la boca de aquel perro,

o que en sus manos i sus pies sangraban,

como rosas de luz, cuatro agujeros;

que en la hambrienta boca se perdía,

i que el monstruo sintió en sus ojos secos

encenderse dos llamas, como lívidos

incendios de alcohol sobre los miedos.

 

Entonces comprendí (Santa Miseria!)

el misterioso amor de los pequeños;

i odié la dicha de las nobles sedas,

i las prosapias con raíz de hierro;

i hallé en tu lodo gérmenes de lirios,

i puse la amargura de mis besos

sobre bocas purpúreas, que eran llagas;

i en las prostituciones de tu lecho

vi esparcidas semillas de azucena,

i aprendí a aborrecer como los siervos;

i mis ojos miraron en la sombra

una cruz nueva, con sus clavos nuevos,

que era una cruz sin víctima, elevada

sobre el oriente enorme de un incendio,

aquella cruz sin víctima, ofrecida

como un lecho nupcial. I yo era un perro!

 

Metempsicose

(Michael Clague: artista canadense)

 

Metempsicose

 

Era um país de selva e de amargura,

um país com altíssimos abetos,

com abetos altíssimos, nas ramas

lançava queixas o tremor do vento.

Quem sabe fosse a terra cimeriana

onde estacava a bocarra do Inferno,

a Ilha que no grau oitenta e sete

de latitude austral, marca o limite

da liquidez marinha; sobre as águas

se levantava um promontório negro,

como o pescoço de um cavalo lúgubre,

de um potro colossal, que fora morto

em seu último porte de combate,

narina inchada fumegando ao vento.

O orto formidável de uma noite

com intenso borrão manchava o céu,

e sobre o fundo de carvão boiava

o alto perfil do penhascal escuro.

Uma lua ruinosa se perdia

com sua cara amarela de esqueleto

em distâncias de sonho e de problema;

e havia um mar, mas era um mar eterno,

dormido num silêncio sufocante

como fantástico animal enfermo.

Sobre o gume mais alto do rochedo,

ladrando ao fosco mar, estava um cão.

 

Caninos cintilantes no negrume,

mas não seus olhos, o cão era cego.

A boca aberta relumbrava, rubra

qual ventre flamejante de um braseiro;

como a grande bandeira de vingança

aureolando as iras de meus sonhos;

qual ferro de um machado de verdugo

embebido no sangue das gargantas.

E no fundo dá goela uivava a fome,

como fúnebre som ecoando em oco

melancólicos sinos de Novembro.

Vi que minh’alma com seus braços hirtos

e defronte uma luz hipnotizada

se alçava rumo à boca do cachorro,

e vi que em suas mãos e pés sangravam,

como rosas de luz, quatro agulheiros;

e na boca esfomeada se perdia,

e que o monstro sentiu nos olhos secos

duas chamas se acenderem, como lívidos

incêndios de álcool sobrevoando os medos.

 

Então eu compreendi (Santa Miséria!)

o misterioso amor dos pequeninos;

e odiei a seda dos tecidos nobres,

e as descendências com raiz de ferro;

e vi em teu lodo germinarem lírios,

e colei a amargura de meus beijos

em bocas purpurinas, que eram chagas;

e nas prostituições de tua cama

vi esparzidas sementes de açucena,

e soube aborrecer como os escravos;

e meus olhos miraram na penumbra

uma cruz nova, com seus cravos novos,

que era uma cruz sem vítima, elevada

por sobre o oriente enorme de um incêndio,

aquela cruz sem vítima ofertada

como um leito nupcial. E eu era um cão!

 

Folhetim, 26.02.84

 

Nota:

 

(*). A rigor, a distribuição espacial do texto, na composição original de Lugones em espanhol, flui como uma prosa em três parágrafos, não exatamente sob a forma de versos, como acima se apresenta.

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

LUGONES, Leopoldo. Metempsicosis. In: __________. Las montañas del oro. Con un juicio de Rúben Darío. Montevideo, UY: La Editorial Rioplatense, 1919. p. 47-48.

 

Em Português

 

LUGONES, Leopoldo. Metempsicose. Tradução de Luiz Antônio de Figueiredo. In: SUZUKI JR., Matinas; ASCHER, Nelson (Organizadores). Folhetim: poemas traduzidos. Vários poetas e tradutores. São Paulo, SP: Folha de São Paulo, 1987. p. 35-36.

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