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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 16 de março de 2026

António Gedeão - Poema do homem só

Estes versos de Gedeão podem ser interpretados como uma censura à superficialidade das miríades de interações que experimentamos na sociedade contemporânea, deixando à margem, nada obstante, a essência íntima de cada ser humano – o que se oferece de verdade, sem máscaras –, um terreno solitário, sem a possibilidade de ser compartilhado plenamente, marcando a diferença entre o efêmero e o perdurável.

 

O poema nos convida, desse modo, a indagarmos sobre a possibilidade de superação dessa barreira inefável ou se, pelo contrário, estamos mesmo condenados a viver encapsulados em nossa individualidade.

 

Talvez a chave da questão se encontre no valor da própria introspecção como forma de entendermos os porquês de nossas escolhas e caminhos, e, mais categoricamente, no reconhecimento de que, a despeito de o contato físico e emocional nos trazer algum sentido de aproximação com os pares, a profundidade de cada ser subsiste como um território particular, irredutível, indevassável, inimitável.

 

J.A.R. – H.C.

 

António Gedeão

(1906-1997)

 

Poema do homem só

 

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Om astros não se explicam:

arrefecem.

 

Sesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços,

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concentro,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se e desflorar-se,

é nosso, de mais ninguém.

 

Em: “Teatro do Mundo” (1958)

 

Um homem a sós

(John Ehrenfeld: artista norte-americano)

 

Referência:

 

GEDEÃO, António. Poema do homem só. In: __________. Poesias completas: 1956-1967. Prólogo de Jorge de Sena. 7. ed. Lisboa, PT: Portugália, 1978. p. 76-78. (Colecção “Poetas de Hoje”; v. 17)

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