Estes versos de Gedeão
podem ser interpretados como uma censura à superficialidade das miríades de interações
que experimentamos na sociedade contemporânea, deixando à margem, nada obstante,
a essência íntima de cada ser humano – o que se oferece de verdade, sem
máscaras –, um terreno solitário, sem a possibilidade de ser compartilhado plenamente,
marcando a diferença entre o efêmero e o perdurável.
O poema nos convida,
desse modo, a indagarmos sobre a possibilidade de superação dessa barreira
inefável ou se, pelo contrário, estamos mesmo condenados a viver encapsulados
em nossa individualidade.
Talvez a chave da questão se encontre no valor da própria introspecção como forma de entendermos os porquês de nossas escolhas e caminhos, e, mais categoricamente, no reconhecimento de que, a despeito de o contato físico e emocional nos trazer algum sentido de aproximação com os pares, a profundidade de cada ser subsiste como um território particular, irredutível, indevassável, inimitável.
J.A.R. – H.C.
António Gedeão
(1906-1997)
Poema do homem só
Sós,
irremediavelmente
sós,
como um astro perdido
que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos
conhece.
Os que passam e os
que ficam.
Todos se desconhecem.
Om astros não se
explicam:
arrefecem.
Sesta envolvente
solidão compacta,
quer se grite ou não
se grite,
nenhum dar-se de
dentro se refracta,
nenhum ser nós se
transmite.
Quem sente o meu
sentimento
sou eu só, e mais
ninguém.
Quem sofre o meu
sofrimento
sou eu só, e mais
ninguém.
Quem estremece este
meu estremecimento
sou eu só, e mais
ninguém.
Dão-se os lábios,
dão-se os braços,
dão-se os olhos,
dão-se os dedos,
bocetas de mil
segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites,
dão-se os dias,
dão-se aflitivas
esmolas,
abrem-se e dão-se as
corolas
breves das carnes
macias;
dão-se os nervos,
dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a
gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada
fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio
concentro,
este oferecer-se de
dentro
num esgotamento
completo,
este ser-se sem
disfarce,
virgem de mal e de
bem,
este dar-se, este
entregar-se,
descobrir-se e
desflorar-se,
é nosso, de mais
ninguém.
Em: “Teatro do Mundo”
(1958)
Um homem a sós
(John Ehrenfeld:
artista norte-americano)
Referência:
GEDEÃO, António. Poema do homem só. In: __________. Poesias completas: 1956-1967. Prólogo de Jorge de Sena. 7. ed. Lisboa, PT: Portugália, 1978. p. 76-78. (Colecção “Poetas de Hoje”; v. 17)
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