Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 27 de março de 2026

Paulo Teixeira - Agosto azul

O poeta nos fala de um cenário (seria de uma paisagem costeira em Portugal?) onde a beleza natural e a presença humana – no auge da graça de sua juventude – se entrelaçam em uma atmosfera de serenidade e de latência, evocando uma forte sensação de atemporalidade, em sincronia com a idealização de um presente que se assemelha aos tempos de maior grandeza da Grécia antiga.

 

Nossos corpos e mentes são portadores de histórias e de emoções, motivo pelo qual a linguagem e as tradições se revestem de singular importância, pois que detêm o potencial para conectar os seres humanos às suas raízes, permitindo-lhe aceder a um conhecimento compartilhado, a um legado cultural resistente à passagem do tempo.

 

Tal é a beleza de um vínculo ancestral que, ao atravessar gerações, revela a essência do que fomos e a promessa do que podemos nos tornar, perpetuando-se na memória coletiva como um imorredouro eco.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paulo Teixeira

(n. 1962)

 

Agosto azul

 

A Grécia podia ser aqui, entre escarpas

que os seus pés sulcaram de degraus

e o compasso marcado pelas ondas no ouvido.

A terra eleva-se dessa costa submersa

para esta fronteira indolor em que vivem,

escoltados por velas que navegam junto

à praia, numa estação celebrada e eterna.

 

Corpos cunhados na depressão de uma onda

que emergem, na sua franja de espuma,

para a hora vaga de quem os vê, rapazes

com os olhos da palidez do céu, deitarem,

um do outro, a cabeça no peito de armas.

 

Têm por língua um fraseado antigo

e por senha este costume licencioso.

O grito das gaivotas vai-lhes adormecendo

na areia o desejo e a memória de tudo

sob a luz de um sol que sempre esteve aqui.

 

Agosto azul

(Henry Scott Tuke: pintor inglês)

 

Referência:

 

TEIXEIRA, Paulo. Agosto azul. In: REIS-SÁ, Jorge; LAGE, Rui (Selecção, organização, introdução e notas). Poemas portugueses: antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI. Prefácio de Vasco Graça Moura. 1. ed. Porto, PT: Porto Editora, 2009. p. 2036.

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