O poeta nos fala de
um cenário (seria de uma paisagem costeira em Portugal?) onde a beleza natural
e a presença humana – no auge da graça de sua juventude – se entrelaçam em uma
atmosfera de serenidade e de latência, evocando uma forte sensação de atemporalidade,
em sincronia com a idealização de um presente que se assemelha aos tempos de
maior grandeza da Grécia antiga.
Nossos corpos e
mentes são portadores de histórias e de emoções, motivo pelo qual a linguagem e
as tradições se revestem de singular importância, pois que detêm o potencial
para conectar os seres humanos às suas raízes, permitindo-lhe aceder a um
conhecimento compartilhado, a um legado cultural resistente à passagem do
tempo.
Tal é a beleza de um
vínculo ancestral que, ao atravessar gerações, revela a essência do que fomos e
a promessa do que podemos nos tornar, perpetuando-se na memória coletiva como
um imorredouro eco.
J.A.R. – H.C.
Paulo Teixeira
(n. 1962)
Agosto azul
A Grécia podia ser
aqui, entre escarpas
que os seus pés
sulcaram de degraus
e o compasso marcado
pelas ondas no ouvido.
A terra eleva-se
dessa costa submersa
para esta fronteira
indolor em que vivem,
escoltados por velas
que navegam junto
à praia, numa estação
celebrada e eterna.
Corpos cunhados na
depressão de uma onda
que emergem, na sua
franja de espuma,
para a hora vaga de
quem os vê, rapazes
com os olhos da
palidez do céu, deitarem,
um do outro, a cabeça
no peito de armas.
Têm por língua um
fraseado antigo
e por senha este
costume licencioso.
O grito das gaivotas
vai-lhes adormecendo
na areia o desejo e a
memória de tudo
sob a luz de um sol
que sempre esteve aqui.
Agosto azul
(Henry Scott Tuke:
pintor inglês)
Referência:
TEIXEIRA, Paulo.
Agosto azul. In: REIS-SÁ, Jorge; LAGE, Rui (Selecção, organização, introdução e
notas). Poemas portugueses: antologia da poesia portuguesa do séc. XIII
ao séc. XXI. Prefácio de Vasco Graça Moura. 1. ed. Porto, PT: Porto Editora,
2009. p. 2036.
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