Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 11 de março de 2026

Ana Luísa Amaral - Uma constante da vida

No contingente fluxo que se estende dos erros do passado às oportunidades do futuro agitam-se os nossos sonhos, servindo-nos de ferramenta para nos fazer ver que ainda há terras férteis onde semear novas ideias, fundar novos domínios, não necessariamente atrelados tão apenas à lógica e à ciência, senão também à beleza de tudo aquilo que não se reduz à razão, ao explicável – como os dendritos do emocional e do espiritual –, permitindo-nos amplificar o que temos ou entendemos por conhecimento e por verdade.

 

Podemos superar mesmo os arquétipos persistentes que nos mantêm paralisados frente a mitos e narrativas culturais, sobretudo quando já não cumprem os seus propósitos originais – plantando outras sementes, cultivando outros valores que tencionem retificar os rumos do atual “progresso tecnológico” –, para, dessa forma, suprimir-lhes o que têm de destrutivo, de devotado à agressão e ao belicismo, num giro urgente em prol da vida e da convivência pacífica entre os povos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ana Luísa Amaral

(1956-2022)

 

Uma constante da vida

 

Errámos junto

à História: devíamos

pegar em foices e enxadas

e destruir mil campos

de pensar:

computadores, ogivas nucleares,

assentos petrolíferos e mais:

centrais de mil cisões

(e, já agora, aquele pequeníssimo

sonar)

 

Errámos pela

História: enquanto tempo,

devíamos pegar nas foices,

nas enxadas.

E nos anéis das fadas

plantar outras sementes: bombas

despoletadas, ferrugentas,

que dessem trigo e paz

 

Errámos nas histórias

de encantar:

um lobo freudiano, um capuchinho,

um osso pela grade

da prisão.

Voltaram as sereias

sentadas no olhar em devoção

(sem nunca terem nem sequer

partido)

 

(E seduz-nos ainda

esse cantar.)

Errámos sem saber

que o seu vagar é tal

(pie o sonho, cedo ou tarde,

se fará.

Que ao lado da cisão: a catedral

e ao lado do vitral: irracional

razão

 

A história junto

à História,

a enxada quebrada

pelo chão

 

O campo lavrado

(Joan Miró: pintor espanhol)

 

Referência:

 

AMARAL, Ana Luísa. Uma constante da vida. Poesia sempre: revista semestral de poesia. Portugal. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de janeiro (RJ), ano 14, n. 26, p. 98-99, 2007.

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