No contingente fluxo
que se estende dos erros do passado às oportunidades do futuro agitam-se os
nossos sonhos, servindo-nos de ferramenta para nos fazer ver que ainda há terras
férteis onde semear novas ideias, fundar novos domínios, não necessariamente
atrelados tão apenas à lógica e à ciência, senão também à beleza de tudo aquilo
que não se reduz à razão, ao explicável – como os dendritos do emocional e do
espiritual –, permitindo-nos amplificar o que temos ou entendemos por conhecimento
e por verdade.
Podemos superar mesmo
os arquétipos persistentes que nos mantêm paralisados frente a mitos e
narrativas culturais, sobretudo quando já não cumprem os seus propósitos originais
– plantando outras sementes, cultivando outros valores que tencionem retificar
os rumos do atual “progresso tecnológico” –, para, dessa forma, suprimir-lhes o
que têm de destrutivo, de devotado à agressão e ao belicismo, num giro urgente
em prol da vida e da convivência pacífica entre os povos.
J.A.R. – H.C.
Ana Luísa Amaral
(1956-2022)
Uma constante da vida
Errámos junto
à História: devíamos
pegar em foices e
enxadas
e destruir mil campos
de pensar:
computadores, ogivas
nucleares,
assentos petrolíferos
e mais:
centrais de mil
cisões
(e, já agora, aquele
pequeníssimo
sonar)
Errámos pela
História: enquanto
tempo,
devíamos pegar nas
foices,
nas enxadas.
E nos anéis das fadas
plantar outras sementes:
bombas
despoletadas,
ferrugentas,
que dessem trigo e
paz
Errámos nas histórias
de encantar:
um lobo freudiano, um
capuchinho,
um osso pela grade
da prisão.
Voltaram as sereias
sentadas no olhar em
devoção
(sem nunca terem nem
sequer
partido)
(E seduz-nos ainda
esse cantar.)
Errámos sem saber
que o seu vagar é tal
(pie o sonho, cedo ou
tarde,
se fará.
Que ao lado da cisão:
a catedral
e ao lado do vitral:
irracional
razão
A história junto
à História,
a enxada quebrada
pelo chão
O campo lavrado
(Joan Miró: pintor
espanhol)
Referência:
AMARAL, Ana Luísa. Uma
constante da vida. Poesia sempre: revista semestral de poesia. Portugal.
Fundação Biblioteca Nacional, Rio de janeiro (RJ), ano 14, n. 26, p. 98-99, 2007.
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