Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 19 de março de 2026

Fiama Hasse Pais Brandão - Rosas [10]

A poetisa portuguesa empreende, neste poema, um sugestivo juízo metapoético comparativo entre o ato de tecer e o de escrever poesias, insinuando que a criação poética não se restringe meramente à técnica, senão que também demanda do poeta um fluxo emocional e intuitivo, tanto mais em razão de que a poesia não corresponde a algo estático, mercê de sua transformação através do tempo e do engenho fecundo das incontáveis vozes poéticas.

 

Enredado em seus propósitos de perfeição na arte a que se dedica, o poeta, contudo, pode incorrer num processo de desfazimento mais ou menos reiterado (ou deliberado) de seu “tecido” lírico, mormente quando desintegra as palavras numa busca contínua por apreender uma poesia que não se deixa sujeitar assim tão facilmente pela linguagem, tornando-se então – especulemos – uma espécie de Sísifo no embate para recompor o seu poema a cada vez que algo, nele, se desfaz.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fiama H. P. Brandão

(1938-2007)

 

Rosas

 

10

 

Admiro a tecedora porque tem consentido

que a assemelhem à poesia.

Mesmo com os cílios a perturbar-lhe

o movimento dos fios e os dedos

tocados por uma estranha resignação,

ela tece os caudais líquidos

que escorrem na sensibilidade do poeta

desde que era criança. Aqueles

que não imaginaram na ceifeira de uhland

o cântico mais remoto da nova

ceifeira de fernando pessoa podem

agora começar a imaginá-lo. Mas eu admiro

sobretudo a injustiça para com

a tecedora, a de atribuir

aos seus dedos esfacelados

a incipiência do poema. Ela soube

ser responsável pela perdição

ou a desaparição dos homens nas palavras,

até estes voltarem a emergir

dessas palavras alteradas e inalteradas.

 

A poesia iludira-se ao pensar

que a alteração que atingira os objectos

deixara ser idêntico, até nova comparação,

o poeta. O próprio termo poesia

pudera orientar a sua sombra

no sentido de manter cintilante

a metáfora da tecedora, até terminar

e recomeçar a teia, com o ritmo

passando a tempos regulares

os fios obliquados pela luz.

Toda a crítica tem exaltado o poema

como uma produção da mecânica manual

oposta à idade do amor espontâneo,

os jorros do lirismo.

 

Eu abjuro da tecedora porque

muitas vezes tem correspondido

a quem lhe diz que a harpa produz

estopa. Se nem um tecido

é rigoroso com traços e sombreados

quando muito harmoniosos, nunca simétricos,

como o pode ser a soldagem

dos termos lexicais ligados

continuamente por espaços brancos.

Como evitar que o fim da página

se ligue ao cosmos materialmente

e, em vez de tornar-se um tecido

tranquilo, o poema se desagregue,

repetindo assim o movimento

de que nascera e fora contrariado

pela escrita. Ao chocalhar

todas as frases, os versos

caem uns dentro dos outros,

e o poeta vê-se perante a impotência

de os refazer sílaba a sílaba.

Só a tecedora tem o privilégio

de romper os fios pelo fogo.

 

In: “Área Branca” (1978)

 

Buquê de Rosas

(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)

 

Referência:

 

BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Rosas [10]. In: __________. Obra breve: poesia reunida. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2006. p. 289-291.

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