Neste poema do
místico indiano, a voz poética interpela um cisne – em verdade, “hamsa”, o
veículo de Brahma, frequentemente identificado como o Espírito Supremo –, tomando-o
como um guia ou o alter ego para oferecer-lhe respostas acerca de sua origem,
seu destino e seu propósito – indagações essas não meramente literais, pois que
resultantes do humano anseio por se libertar deste mundo de samsara, ou talvez
melhor, da nostalgia por um lar divino, para além desta realidade mundana.
Eis as eternas perquirições
sobre o sentido da vida e o destino da alma, que vão a par com um chamado à
consciência e ao despertar espiritual. Como se disse, não são exatamente
interrogantes que aspiram a respostas racionais, lógicas, silogísticas, mas vetores
que se orientam ao acesso a uma verdade extática, ao arroubo do amor divino, à união
com a Realidade Suprema, à liberdade absoluta em relação a tudo que seja a
expressão de maya.
J.A.R. – H.C.
Kabir
(1440-1518)
[XII]
Tell me, O Swan, your
ancient tale.
From what land do you
come, O Swan?
to what shore will
you fly?
Where would you take
your rest, O Swan,
and what do you seek?
Even this morning, O
Swan,
awake, arise, follow
me!
There is a land where
no doubt
nor sorrow have rule:
where the terror of
Death is no more.
There the woods of
spring arc a-bloom,
and the fragrant
scent “He is I”
is borne on the wind:
There the bee of the heart is deeply immersed,
and desires no other joy.
Reflexos do Cisne
(Julie E. Rogers:
pintora norte-americana)
[12]
Conta-me, ó cisne,
tua história.
De onde vieste? Para
onde vais?
Em que margem
pousarás para descansar?
A qual meta entregaste
o coração?
Esta é a manhã da
consciência!
Desperta! Segue-me!
Voemos juntos!
Há um lugar livre da
dúvida e da tristeza,
Onde o terror da
morte não impera.
Lá florescem os
bosques em eterna primavera,
E sua fragrância nos
impulsiona mais e mais.
Imerso nela, o coração, qual abelha, se inebria.
Imenso nela, já não quer outra alegria. (*)
Nota de José Tadeu Arantes:
(*). Dos poemas vertidos por Tagore, este foi, talvez, o que mais
repercutiu no Ocidente, impressionando profundamente Yeats e outros artistas e
intelectuais que o leram. De fato, o símbolo do cisne é recorrente na cultura
mundial. A história do Patinho Feio, de Hans Christian Andersen (1805-1875),
que, ridicularizado por sua aparência e inadaptado ao seu meio durante a
infância, cresce e amadurece como um esplêndido cisne, é uma metáfora clássica
daquele que trilha o caminho espiritual. No hinduísmo, o cisne é a montaria (vahana)
da deusa Saraswati, protetora do conhecimento, da música e da literatura. E o
título Paramahansa (Supremo Cisne) foi atribuído a muitos mestres que
alcançaram a iluminação, aludindo à capacidade do cisne em transitar entre os
diferentes “elementos” (a terra, a água, o ar) sem se apegar a nenhum deles. Ramakrishna
e Yogananda foram os mais famosos iogues dos tempos modernos que receberam esse
título. (KABIR, 2013, p. 148)
Referências:
Em Inglês
KABIR. Poem nº XII: Tell
me, o swan, your ancient tale. Translated by Rabindranath Tagore. In:
__________. Kabir’s poems. Translated from Hindi to English by
Rabindranath Tagore, assisted by Evelyn Underhill. Indian Edition. 1st ed.,
10th reprint. Calcutta, IN: Macmillan, 1948. p. 12.
Em Português
KABIR. Poema nº 12: Conta-me,
ó cisne, tua história. Tradução de José Tadeu Arantes. In: KABIR. Cem poemas.
Seleção e tradução ao inglês de R. Tagore. Tradução, ensaios e notas de José
Tadeu Arantes. São Paulo: Attar, 2013. p. 40.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário