Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 17 de março de 2026

Kabir - Conta-me, ó cisne, tua história [12]

Neste poema do místico indiano, a voz poética interpela um cisne – em verdade, “hamsa”, o veículo de Brahma, frequentemente identificado como o Espírito Supremo –, tomando-o como um guia ou o alter ego para oferecer-lhe respostas acerca de sua origem, seu destino e seu propósito – indagações essas não meramente literais, pois que resultantes do humano anseio por se libertar deste mundo de samsara, ou talvez melhor, da nostalgia por um lar divino, para além desta realidade mundana.

 

Eis as eternas perquirições sobre o sentido da vida e o destino da alma, que vão a par com um chamado à consciência e ao despertar espiritual. Como se disse, não são exatamente interrogantes que aspiram a respostas racionais, lógicas, silogísticas, mas vetores que se orientam ao acesso a uma verdade extática, ao arroubo do amor divino, à união com a Realidade Suprema, à liberdade absoluta em relação a tudo que seja a expressão de maya.

 

J.A.R. – H.C.

 

Kabir

(1440-1518)

 

[XII]

 

Tell me, O Swan, your ancient tale.

From what land do you come, O Swan?

to what shore will you fly?

Where would you take your rest, O Swan,

and what do you seek?

 

Even this morning, O Swan,

awake, arise, follow me!

There is a land where no doubt

nor sorrow have rule:

where the terror of Death is no more.

 

There the woods of spring arc a-bloom,

and the fragrant scent “He is I”

is borne on the wind:

There the bee of the heart is deeply immersed,

and desires no other joy.

 

Reflexos do Cisne

(Julie E. Rogers: pintora norte-americana)

 

[12]

 

Conta-me, ó cisne, tua história.

De onde vieste? Para onde vais?

Em que margem pousarás para descansar?

A qual meta entregaste o coração?

 

Esta é a manhã da consciência!

Desperta! Segue-me! Voemos juntos!

Há um lugar livre da dúvida e da tristeza,

Onde o terror da morte não impera.

 

Lá florescem os bosques em eterna primavera,

E sua fragrância nos impulsiona mais e mais.

Imerso nela, o coração, qual abelha, se inebria.

Imenso nela, já não quer outra alegria. (*)

 

Nota de José Tadeu Arantes:

 

(*). Dos poemas vertidos por Tagore, este foi, talvez, o que mais repercutiu no Ocidente, impressionando profundamente Yeats e outros artistas e intelectuais que o leram. De fato, o símbolo do cisne é recorrente na cultura mundial. A história do Patinho Feio, de Hans Christian Andersen (1805-1875), que, ridicularizado por sua aparência e inadaptado ao seu meio durante a infância, cresce e amadurece como um esplêndido cisne, é uma metáfora clássica daquele que trilha o caminho espiritual. No hinduísmo, o cisne é a montaria (vahana) da deusa Saraswati, protetora do conhecimento, da música e da literatura. E o título Paramahansa (Supremo Cisne) foi atribuído a muitos mestres que alcançaram a iluminação, aludindo à capacidade do cisne em transitar entre os diferentes “elementos” (a terra, a água, o ar) sem se apegar a nenhum deles. Ramakrishna e Yogananda foram os mais famosos iogues dos tempos modernos que receberam esse título. (KABIR, 2013, p. 148)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

KABIR. Poem nº XII: Tell me, o swan, your ancient tale. Translated by Rabindranath Tagore. In: __________. Kabir’s poems. Translated from Hindi to English by Rabindranath Tagore, assisted by Evelyn Underhill. Indian Edition. 1st ed., 10th reprint. Calcutta, IN: Macmillan, 1948. p. 12.

 

Em Português

 

KABIR. Poema nº 12: Conta-me, ó cisne, tua história. Tradução de José Tadeu Arantes. In: KABIR. Cem poemas. Seleção e tradução ao inglês de R. Tagore. Tradução, ensaios e notas de José Tadeu Arantes. São Paulo: Attar, 2013. p. 40.

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