Nesta meditação sobre
a velhice, o poeta colombiano faz menção a um cão, comprado em um mercado de pulgas,
apresentando-o não simplesmente como um animal abandonado ou “de segunda”, mas
como um símbolo vivo daquilo que a sociedade descarta: seu passado e sua
presença, antes vibrante, contrastam com a imagem atual de um cão sem lustro
nem vitalidade.
Evidentemente,
pode-se traçar um paralelismo entre tal condição e a da vida humana, na qual os
restos do que fomos se desvanecem lentamente: a figura do velho aposentado demarca
um ciclo de transição no crepúsculo da existência, ao longo do qual as
hierarquias e as expectativas sociais se tornam ilegíveis, sem que se saiba
quem, de fato, é o “amo” nessa relação entre duas criaturas veladas pelo manto
negro do olvido.
J.A.R. – H.C.
Edson Agustín Velandia
(n. 1975)
El perro y el viejo
El viejo compró un
perro de segunda en el mercado de las pulgas
un perro usado, de
madre y padre irlandeses
sobreviviente de una
larga guerra perdida
– en sus mejores
tiempos ladraba
pero ya se le cayeron
las plumas –
un animal sobrio y
desinteresado
de ojos negros sin
mirada
justo el perro que
necesitaba el viejo
un día antes de
cumplir el tiempo pa su jubilación,
un año después de
haber sido despedido de la fábrica de escaleras
donde gastó mucho más
que su juventud
justo el viejo que
necesitaba el perro
un día después de
haber sido cambiado en el mercado de las pulgas
por un saxofón Selmer
que ahora suena desafinado en el año nuevo
dentro de la casa de
un mercenario retirado,
un man que siempre
quiso ser músico
de la orquestra del
maestro Alfonso Guerrero
Sin saber quién de
los dos es el amo
el perro y el viejo
salieron de las pulgas y atravesaron el centro
caminaron lento
uno al lado del otro
ambos vestidos de
negro.
O velho com um cão
(Giacomo Ceruti:
pintor italiano)
O cachorro e o velho
O velho comprou um cachorro de segunda mão no mercado das pulgas
um cachorro usado, de
mãe e pai irlandeses
sobrevivente de uma
longa guerra perdida
– em seus melhores
tempos latia
mas já perdeu as
penas –
um animal sóbrio e
desinteressado
de olhos negros sem
mirada
justo o cachorro que
o velho precisava
um dia antes de
cumprir o prazo pra sua aposentadoria,
um ano depois de ter
sido demitido da fábrica de escadas
onde gastou muito
mais que sua juventude
justo o velho que o
cachorro precisava
um dia depois de ter
sido trocado no mercado das pulgas
por um saxofone
Selmer que agora soa desafinado no ano novo
dentro da casa de um
mercenário aposentado,
um cara que sempre
quis ser músico
da orquestra do
maestro Alfonso Guerrero
Sem saber qual dos
dois é o amo
o cachorro e o velho
saíram do mercado e atravessaram o centro
caminharam devagar
um ao lado do outro
ambos vestidos de
preto.
Referência:
VELANDIA, Edson
Agustín. El perro y el viejo / O cachorro e o velho. Tradução de Nicolás Llano.
Gratuita 4: Animais, Organização de Maria Carolina Junqueira Fenati,
Belo Horizonte (MG), Chão de Feira, 2023. Em espanhol: p. 190; em português: p.
191. Disponível neste endereço. Acesso em: 21 mar.
2026.
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