Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 30 de março de 2026

Edson Agustín Velandia - O cachorro e o velho

Nesta meditação sobre a velhice, o poeta colombiano faz menção a um cão, comprado em um mercado de pulgas, apresentando-o não simplesmente como um animal abandonado ou “de segunda”, mas como um símbolo vivo daquilo que a sociedade descarta: seu passado e sua presença, antes vibrante, contrastam com a imagem atual de um cão sem lustro nem vitalidade.

 

Evidentemente, pode-se traçar um paralelismo entre tal condição e a da vida humana, na qual os restos do que fomos se desvanecem lentamente: a figura do velho aposentado demarca um ciclo de transição no crepúsculo da existência, ao longo do qual as hierarquias e as expectativas sociais se tornam ilegíveis, sem que se saiba quem, de fato, é o “amo” nessa relação entre duas criaturas veladas pelo manto negro do olvido.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edson Agustín Velandia

(n. 1975)

 

El perro y el viejo

 

El viejo compró un perro de segunda en el mercado de las pulgas

un perro usado, de madre y padre irlandeses

sobreviviente de una larga guerra perdida

– en sus mejores tiempos ladraba

pero ya se le cayeron las plumas –

un animal sobrio y desinteresado

de ojos negros sin mirada

justo el perro que necesitaba el viejo

un día antes de cumplir el tiempo pa su jubilación,

un año después de haber sido despedido de la fábrica de escaleras

donde gastó mucho más que su juventud

justo el viejo que necesitaba el perro

un día después de haber sido cambiado en el mercado de las pulgas

por un saxofón Selmer que ahora suena desafinado en el año nuevo

dentro de la casa de un mercenario retirado,

un man que siempre quiso ser músico

de la orquestra del maestro Alfonso Guerrero

 

Sin saber quién de los dos es el amo

el perro y el viejo salieron de las pulgas y atravesaron el centro

caminaron lento

uno al lado del otro

ambos vestidos de negro.

 

O velho com um cão

(Giacomo Ceruti: pintor italiano)

 

O cachorro e o velho

 

O velho comprou um cachorro de segunda mão no mercado das pulgas

um cachorro usado, de mãe e pai irlandeses

sobrevivente de uma longa guerra perdida

– em seus melhores tempos latia

mas já perdeu as penas –

um animal sóbrio e desinteressado

de olhos negros sem mirada

justo o cachorro que o velho precisava

um dia antes de cumprir o prazo pra sua aposentadoria,

um ano depois de ter sido demitido da fábrica de escadas

onde gastou muito mais que sua juventude

justo o velho que o cachorro precisava

um dia depois de ter sido trocado no mercado das pulgas

por um saxofone Selmer que agora soa desafinado no ano novo

dentro da casa de um mercenário aposentado,

um cara que sempre quis ser músico

da orquestra do maestro Alfonso Guerrero

 

Sem saber qual dos dois é o amo

o cachorro e o velho saíram do mercado e atravessaram o centro

caminharam devagar

um ao lado do outro

ambos vestidos de preto.

 

Referência:

 

VELANDIA, Edson Agustín. El perro y el viejo / O cachorro e o velho. Tradução de Nicolás Llano. Gratuita 4: Animais, Organização de Maria Carolina Junqueira Fenati, Belo Horizonte (MG), Chão de Feira, 2023. Em espanhol: p. 190; em português: p. 191. Disponível neste endereço. Acesso em: 21 mar. 2026.

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