Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 15 de março de 2026

Robert Hillyer - Noturno

A noite despoja o ser humano de distrações, permitindo-lhe que confronte a essência das coisas, o fluxo inexorável do tempo a arrastar consigo fragmentos de nós mesmos, recordações e emoções que ficaram relegadas às sombras, deixando-nos – a toda evidência – confrangidos entre forças de constância, por um lado, e de deperecimento, por outro.

 

Nossas próprias “águas internas” sussurram a inquietude da alma frente à vastidão e o mistério do universo, as razões primeiras pelas quais aqui estamos, atrelados a um viver que ora transcorre como sonho ora como desassossego, plasmando ao mundo onírico noturno os revérberos de tudo quanto nos sucede em vigília – lembranças felizes, acerbos desconfortos existenciais, apreensão por contingências para além do controle.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Hillyer

(1895-1961)

 

Night Piece

 

There is always the sound of falling water here;

By day, blended with birdsong and windy leaves,

By night, the only sound, steady and clear

Through the darkness and half-heard through sleepers’ dreams.

Here in the mottled shadow of glades, the deer,

Unstartled, waits until the walker is near.

Then with a silent bound, without effort is gone,

While the sound of falling water goes son and on.

 

Those are not stars reflected in the lake,

They are shadows of stars that were there aeons ago;

When you walk by these waters at night, you must forsake

All you have known of time; you are timeless, alone,

The mystery almost revealed, like the breath you take

In the summer dawn before the world is awake.

Or the last breath, when the spirit beyond recalling

Goes forth to the sound of water for ever falling

 

Swift as deer, half-throught in the summer mind

Flash with their hints of happiness and are gone;

In the dark waters of ourselves we find

No stars but shadows of stars which memory lost.

Dark are the waters under the bridge we crossed.

And the sound of their falling knows neither and nor start.

Frail are your stars, deep are your waters, mind;

And the sound of falling water troubles my heart.

 

Noite estrelada sobre o Ródano

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Noturno

 

Há sempre aqui o som da água caindo...

Confunde-se de dia com a cantiga

Dos pássaros e o ruído das folhas machucadas.

Entretanto, na noite desconforme,

É o único som firme e claro

Ouvido vagamente com nos sonhos de quem dorme.

Nas sombras matizadas das clareiras

A corça imóvel espera

Até que se aproxime o caminhante.

Então, silenciosa se insinua,

E vara o espaço na corrida...

Enquanto o som da água caindo

Continua... Continua...

 

Aquelas não são as estrelas refletidas no lago.

São sombras de estrelas que dormem ali há muitos séculos;

Quando passares à noite por essas águas

Deves abandonar tudo que sabes do passado

E ficar contigo mesmo, eterno em ti mesmo,

No mistério quase revelado como o sopro que se aspira

Ao nascer do verão, antes da terra acordar,

Ou o último hálito da saudade que antecipa

O som da água a cair, a cair devagar.

 

Velozes como a corça os pensamentos incompletos

Cintilam sugerindo felicidades e se vão...

Nas águas escuras de nós mesmos encontramos

Não estrelas, mas sombras de estrelas perdidas na memória.

Sombrias são as águas debaixo da ponte que cruzamos

E o som monótono da queda

Não tem princípio, não tem fim, nem solução.

Frágeis são as tuas estrelas, profunda as tuas águas, espírito;

E o som da água a cair perturba meu coração.

 

Referência:

 

HILLYER, Robert. Night piece / Noturno. Tradução de Olegário Mariano. In: MARQUES, Oswaldino (Organização e Prólogo). O livro de ouro da poesia dos Estados Unidos: coletânea de poemas norte-americanos. Edição bilíngue: inglês x português. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro & Tecnoprint, 1987. Em inglês: p. 200; em português: p. 201. (Coleção “Universidade de Bolso”)

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