A noite despoja o ser
humano de distrações, permitindo-lhe que confronte a essência das coisas, o fluxo
inexorável do tempo a arrastar consigo fragmentos de nós mesmos, recordações e
emoções que ficaram relegadas às sombras, deixando-nos – a toda evidência – confrangidos
entre forças de constância, por um lado, e de deperecimento, por outro.
Nossas próprias “águas
internas” sussurram a inquietude da alma frente à vastidão e o mistério do
universo, as razões primeiras pelas quais aqui estamos, atrelados a um viver que
ora transcorre como sonho ora como desassossego, plasmando ao mundo onírico
noturno os revérberos de tudo quanto nos sucede em vigília – lembranças
felizes, acerbos desconfortos existenciais, apreensão por contingências para
além do controle.
J.A.R. – H.C.
(1895-1961)
Night Piece
There is always the
sound of falling water here;
By day, blended with
birdsong and windy leaves,
By night, the only
sound, steady and clear
Through the darkness
and half-heard through sleepers’ dreams.
Here in the mottled
shadow of glades, the deer,
Unstartled, waits
until the walker is near.
Then with a silent
bound, without effort is gone,
While the sound of
falling water goes son and on.
Those are not stars
reflected in the lake,
They are shadows of
stars that were there aeons ago;
When you walk by
these waters at night, you must forsake
All you have known of
time; you are timeless, alone,
The mystery almost
revealed, like the breath you take
In the summer dawn
before the world is awake.
Or the last breath,
when the spirit beyond recalling
Goes forth to the
sound of water for ever falling
Swift as deer,
half-throught in the summer mind
Flash with their
hints of happiness and are gone;
In the dark waters of
ourselves we find
No stars but shadows
of stars which memory lost.
Dark are the waters
under the bridge we crossed.
And the sound of
their falling knows neither and nor start.
Frail are your stars,
deep are your waters, mind;
And the sound of
falling water troubles my heart.
Noite estrelada sobre
o Ródano
(Vincent van Gogh:
pintor holandês)
Noturno
Há sempre aqui o som
da água caindo...
Confunde-se de dia
com a cantiga
Dos pássaros e o
ruído das folhas machucadas.
Entretanto, na noite
desconforme,
É o único som firme e
claro
Ouvido vagamente com
nos sonhos de quem dorme.
Nas sombras matizadas
das clareiras
A corça imóvel espera
Até que se aproxime o
caminhante.
Então, silenciosa se
insinua,
E vara o espaço na
corrida...
Enquanto o som da
água caindo
Continua...
Continua...
Aquelas não são as
estrelas refletidas no lago.
São sombras de
estrelas que dormem ali há muitos séculos;
Quando passares à
noite por essas águas
Deves abandonar tudo
que sabes do passado
E ficar contigo
mesmo, eterno em ti mesmo,
No mistério quase
revelado como o sopro que se aspira
Ao nascer do verão,
antes da terra acordar,
Ou o último hálito da
saudade que antecipa
O som da água a cair,
a cair devagar.
Velozes como a corça
os pensamentos incompletos
Cintilam sugerindo
felicidades e se vão...
Nas águas escuras de
nós mesmos encontramos
Não estrelas, mas
sombras de estrelas perdidas na memória.
Sombrias são as águas
debaixo da ponte que cruzamos
E o som monótono da
queda
Não tem princípio,
não tem fim, nem solução.
Frágeis são as tuas
estrelas, profunda as tuas águas, espírito;
E o som da água a
cair perturba meu coração.
Referência:
HILLYER, Robert. Night piece / Noturno. Tradução de Olegário Mariano. In: MARQUES, Oswaldino (Organização e Prólogo). O livro de ouro da poesia dos Estados Unidos: coletânea de poemas norte-americanos. Edição bilíngue: inglês x português. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro & Tecnoprint, 1987. Em inglês: p. 200; em português: p. 201. (Coleção “Universidade de Bolso”)
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