O infratranscrito poema
de Neruda trata, de fato, do ciclo de vida do ser humano, mediante o emprego da
metáfora do pé de uma criança, refletindo a antinomia entre os sonhos puros da
infância e as firmes imposições da realidade, quando não a coação sistemática
empregada como forma de modelar o ser humano na sociedade.
De um desejo de
liberdade e de plenitude natural, típico da fase de meninice, passa-se a um processo
de repressão social, ao longo do qual a imposição de normas de conduta acaba
por limitar a espontaneidade infantil, tal que, um pouco mais tarde, já na
idade adulta, o terno e o lhano resultam substituídos por algo áspero e
padecente.
Com a entrada no
mundo do trabalho, o ciclo atinge o seu ápice, quando o pé obriga-se a assumir
os papéis que lhe são impostos pelo sistema, muitas vezes de modo
desumanizante, haja vista que reduzido a uma ferramenta de produção, mal tendo
tempo para o descanso e uma vida privada sadia.
Como um ser
fragmentado, submetido a rotinas sem sentido, desce o pé, por fim, à sepultura,
regressando ao pó primordial, sem entender muito bem o seu destino, à maneira
de muitos daqueles que partem sem saber quais os verdadeiros sentidos de suas
existências: se única e tão somente plasmados no sofrimento e na dor ou se,
porventura, integrados a algum transcendente propósito.
J.A.R. – H.C.
Pablo Neruda
(1904-1973)
Al pie desde su niño
El pie del niño aún
no sabe que es pie,
y quiere ser mariposa
o manzana.
Pero luego los
vidrios y las piedras,
las calles, las
escaleras,
y los caminos de la tierra
dura
van enseñando al pie
que no puede volar,
que no puede ser
fruto redondo en una rama.
El pie del niño
entonces
fue derrotado, cayó
en la batalla,
fue prisionero,
condenado a vivir en
un zapato.
Poco a poco sin luz
fue conociendo el
mundo a su manera,
sin conocer el otro
pie, encerrado,
explorando la vida
como un ciego.
A quellas suaves uñas
de cuarzo, de racimo,
se endurecieron, se
mudaron
en opaca substancia,
en cuerno duro,
y los pequeños
pétalos del niño
se aplastaron, se desequilibraron,
tomaron formas de
reptil sin ojos,
cabezas triangulares
de gusano.
Y luego
encallecieron,
se cubrieron
con mínimos volcanes
de la muerte,
inaceptables
endurecimientos.
Pero este ciego
anduvo
sin tregua, sin parar
hora tras hora,
el pie y el otro pie,
ahora de hombre
o de mujer,
arriba,
abajo,
por los campos, las
minas,
los almacenes y los
ministerios,
atrás,
afuera, adentro,
adelante,
este pie trabajó con
su zapato,
apenas tuvo tiempo
de estar desnudo en
el amor o el sueño,
caminó, caminaron
hasta que el hombre
entero se detuvo.
bajó y no supo nada,
porque allí todo y todo estaba oscuro,
no supo que había dejado de ser pie,
si lo enterraban para que volara
o para que pudiera
ser manzana.
En: “Estravagario”
(1958)
Primeiros passos
(ao modo de Millet)
(Vincent van Gogh:
pintor holandês)
Ao pé desde a sua
tenra idade
O pé da criança ainda
não sabe que é pé,
e quer ser borboleta
ou maçã.
Mas logo as pedras e os
cacos de vidro,
as ruas, as escadas,
e os caminhos da terra
dura
ensinam ao pé que ele
não pode voar,
que não pode ser fruto
redondo num ramo.
O pé da criança
viu-se
então derrotado, vencido
na batalha,
tornando-se
prisioneiro,
condenado a viver num
sapato.
Pouco a pouco, sem luz,
foi descobrindo o
mundo à sua maneira,
sem conhecer o outro
pé, enclausurado,
explorando a vida
como um cego.
Aquelas unhas macias
de quartzo, agrupadas,
endureceram,
transformaram-se
em substância opaca, em
rija guampa,
e as pequenas pétalas
da criança
achataram-se,
desequilibraram-se,
tomando formas
reptilianas sem olhos,
cabeças triangulares
de vermes.
Sem tardar,
tornaram-se calejadas,
cobriram-se
com diminutos vulcões
da morte,
endurecimentos
inaceitáveis.
Nada obstante, esse
cego pôs-se a caminhar
sem trégua, sem
parar,
hora após hora,
em marcha alternada
com o outro pé,
ora como pé de homem,
ora como de mulher,
para cima,
para baixo,
pelos campos, pelas
minas,
pelos armazéns e
pelos ministérios,
para trás,
para fora, para dentro,
para frente;
esse pé trabalhou com
seu sapato,
mal tendo tempo
para ficar nu no amor
ou durante o sono;
caminhou, caminharam,
até que o homem
inteiro estacou.
E então desceu
à terra e não soube
de nada,
porque a escuridão
cobria a tudo e a todos;
não soube que havia
deixado de ser pé,
se o enterravam para
que voasse
ou para que pudesse
ser maçã.
Em: “Extravagário”
(1958)
Referência:
NERUDA, Pablo. Al pie desde su niño. In: __________. Antología poética. Edición de Rafael Alberti. 3. ed. Buenos Aires, AR: Planeta, may. 1998. p. 296-297. (“Planeta Bolsillo”)
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