Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 14 de março de 2026

Carlos Ávila - Sem profissão

Ávila detém-se, concisamente, a refletir sobre o papel da arte e da criatividade num mundo que lhes parece indiferente ou, até mesmo, hostil: o protagonista – “um homem sem profissão” e também “poeta” –, tenta escrever um poema, tarefa que, diante do cenário desfavorável, se lhe apresenta como algo próximo ao “impossível”.

 

A falta de vitalidade do entorno, caracterizado por imagens fragmentadas e sem conexão, vai a par com a situação indigna do falante – alguém que carece de um papel definido ou de um propósito claro, ou ainda, um dos muitos que se encontram à margem das estruturas tradicionais do trabalho, seja por escolha seja por necessidade.

 

Sob tal atmosfera inóspita, com recursos limitados e luz insuficiente, seguem os poetas em suas lidas artísticas e existenciais em tempos difíceis, empenhando-se para transformar a vertente mais exasperante da realidade em algo belo e duradouro, através da palavra escrita.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Ávila

(n. 1955)

 

Sem profissão

 

o sol

(fraco e frio)

entre ferragens retorcidas

oxidadas

depois de dias de chuva

 

(fios

árvores caídas

lixo por toda parte)

 

de uma janela

aberta na tarde

sai o som de uma remington

(movida a lenha)

 

um homem sem profissão

tenta o impossível:

escrever um poema

 

a luz

(fraca e fria)

não aquece o seu coração

 

Um homem escrevendo em sua mesa

(Jan Ekels, o Jovem: pintor holandês)

 

Referência:

 

ÁVILA, Carlos. Sem profissão. In: DANIEL, Claudio; BARBOSA, Frederico (Organização, seleção e notas). Na virada do século: poesia de invenção no Brasil. São Paulo, SP: Landy Editora, 2007. p. 92.

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