Ávila detém-se, concisamente,
a refletir sobre o papel da arte e da criatividade num mundo que lhes parece
indiferente ou, até mesmo, hostil: o protagonista – “um homem sem profissão” e
também “poeta” –, tenta escrever um poema, tarefa que, diante do cenário desfavorável,
se lhe apresenta como algo próximo ao “impossível”.
A falta de vitalidade
do entorno, caracterizado por imagens fragmentadas e sem conexão, vai a par com
a situação indigna do falante – alguém que carece de um papel definido ou de um
propósito claro, ou ainda, um dos muitos que se encontram à margem das
estruturas tradicionais do trabalho, seja por escolha seja por necessidade.
Sob tal atmosfera
inóspita, com recursos limitados e luz insuficiente, seguem os poetas em suas
lidas artísticas e existenciais em tempos difíceis, empenhando-se para transformar a vertente
mais exasperante da realidade em algo belo e duradouro, através da palavra
escrita.
J.A.R. – H.C.
Carlos Ávila
(n. 1955)
Sem profissão
o sol
(fraco e frio)
entre ferragens
retorcidas
oxidadas
depois de dias de
chuva
(fios
árvores caídas
lixo por toda parte)
de uma janela
aberta na tarde
sai o som de uma
remington
(movida a lenha)
um homem sem
profissão
tenta o impossível:
escrever um poema
a luz
(fraca e fria)
não aquece o seu
coração
Um homem escrevendo
em sua mesa
(Jan Ekels, o Jovem:
pintor holandês)
Referência:
ÁVILA, Carlos. Sem
profissão. In: DANIEL, Claudio; BARBOSA, Frederico (Organização, seleção e
notas). Na virada do século: poesia de invenção no Brasil. São Paulo,
SP: Landy Editora, 2007. p. 92.
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