Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 10 de março de 2026

José Emilio Pacheco - Fim de século

Pacheco vai fundo no desnudamento da violência inerente à condição humana, particularmente no contexto de um século marcado por guerras, genocídios, torturas e demais formas de opressão, externalizando o paradoxo moral que qualquer ser humano enfrenta diante de práticas injustas, senão abusivas: como condenar atos atrozes sem perpetuar o ciclo de hostilidades? – pergunta-se o poeta.

 

As interrogantes de Pacheco, para além de refletirem a perplexidade do falante, configuram uma crítica implícita aos sistemas políticos, sociais e econômicos que normalizam a agressividade e a desumanização. Veja-se, por exemplo, a inquirição central – “Em nome de quê posso condenar os outros / à morte pelo que são ou pensam?” –, e perceba-se o quanto evidencia uma firme postura ética contestadora de qualquer justificação ideológica para o ódio, a discriminação e o extermínio!

 

Ainda que o poeta se refira a eventos do século XX, não se pode dizer que não digam respeito às primeiras décadas do presente século, pois persistem as práticas em questão mesmo agora, tornando tal sofrimento uma miséria quotidiana e tangível, diante da qual o escapismo, o silêncio ou a indiferença significam, sem apelo a evasivas, um estado de conivência, de cumplicidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Emilio Pacheco

(1939-2014)

 

Fin de siglo

 

La sangre derramada clama venganza.

 

Y la venganza no puede engendrar

sino más sangre derramada.

¿Quién soy:

el guarda de mi hermano o aquel

a quien adiestraron

para aceptar la muerte de los demás,

no la propia muerte?

¿A nombre de qué puedo condenar a muerte

a otros por lo que son o piensan?

Pero ¿cómo dejar impunes

la tortura y el genocidio y el matar de hambre?

No quiero nada para mí.

Sólo anhelo

lo posible imposible:

un mundo sin víctimas.

Cómo lograrlo no está en mi poder.

Escapa a mi pequeñez, a mi pobre intento

de vaciar el mar de sangre que es nuestro siglo

con el cuenco trémulo de la mano.

Mientras escribo llega el crepúsculo.

Cerca de mí los gritos que no han cesado

no me dejan cerrar los ojos.

 

Caim matando Abel

(Pietro Novelli: pintor italiano)

 

Fim de século

 

O sangue derramado clama por vingança.

 

E a vingança não pode engendrar

senão mais sangue derramado.

Quem sou:

o guardião do meu irmão ou aquele

a quem habituaram

a aceitar a morte dos outros,

não a própria morte?

Em nome de quê posso condenar os outros

à morte pelo que são ou pensam?

Mas como deixar impunes

a tortura, o genocídio e o matar de fome?

Não quero nada para mim.

Apenas anseio

pelo possível impossível:

um mundo sem vítimas.

A forma de o conseguir não está ao meu alcance.

Escapa à minha pequenez, ao meu pobre intento

de esvaziar o mar de sangue, que é o nosso século,

com a trêmula concha da mão.

Enquanto escrevo, chega o crepúsculo.

Perto de mim os gritos que não param

não me deixam fechar os olhos.

 

Referência:

 

PACHECO, José Emilio. Fin de siglo. In: __________. Tarde o temprano. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1980. p. 213. (“Letras Mexicanas”)

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