Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 26 de março de 2026

Anne Carson - Gnosticismo I

O título deste poema ecoa o seu marco filosófico, tradicionalmente centrado na busca de um conhecimento espiritual ou secreto, em frequente confrontação com este mundo material, percebido como ilusório ou corrompido: a voz poética empreende, sob tal perspectiva, uma viagem até algo transcendental – simbolizado nos versos por um pássaro – que está enredado em escuridão, tensão física e bulício.

 

Nessa jornada entre o humano e o celestial, entre o tangível e o abstrato, entre a vida instintiva e as sendas espirituais, cada qual usufrui de uma experiência particular, individualizada, uns encontrando beleza e significado no divino, outros a dele receber tão apenas uma crua e fragmentada impressão, marcada por ambivalência ou ambiguidade (“isto”).

 

J.A.R. – H.C.

 

Anne Carson

(1950-2019)

 

Gnosticism I

 

Heaven’s lips! I dreamed

of a page in a book containing the word bird and I

entered bird.

Bird grinds on,     

 

grinds on, thrusting against black. Thrusting

wings, thrusting again, hard

banks slap against it either side, that bird was exhausted.

 

Still, beating, working its way and below in dark woods

small creatures

leap. Rip

 

at food with scrawny lips.

Lips at night.

Nothing guiding it, bird beats on, night wetness on it.

A lion looks up.

Smell of adolescence in these creatures, this ordinary

night for them. Astonishment

 

inside me like a separate person,

sweat-soaked. How to grip.

For some people a bird sings, feathers shine. I just get this this.

 

Pássaro em voo

(Ona Lodge: artista holandesa)

 

Gnosticismo I

 

Lábios celestiais! Sonhei

com uma página de um livro contendo a palavra pássaro e eu

entrei no pássaro. 

O pássaro persiste,

 

obstina-se, investindo contra as trevas. Impelindo

suas asas, impelindo-as reiteradamente, com rígidas

barreiras a fustigá-lo de ambos os lados, esse pássaro

acabou por afadigar-se.

 

Mesmo cansado, debate-se, forçando o seu caminho,

enquanto lá embaixo, nos bosques escuros,

pequenas criaturas

saltitam. Despedaçam

 

o alimento com descarnados lábios.

Lábios sob o véu da noite.

Sem nada a lhe guiar, adeja o pássaro, e sobre ele o orvalho

noturno.

Um leão ergue o olhar.

Há um odor de adolescência em tais criaturas, nesta noite

trivial para elas. Dentro de mim

 

um assombro, como se uma outra pessoa eu fosse,

empapada de suor. Como apreendê-lo?

Para algumas pessoas um pássaro canta, brilham as suas penas.

De minha parte, capturo somente este isto.

 

Referência:

 

CARSON, Anne. Gnosticism I. In: __________. Decreation: poetry, essays, opera. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2005. p. 87.

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