O poeta galês nos
leva a uma viagem emocional que flui entre o passado e o presente, relembrando
os momentos bucólicos da infância, vivenciados em telúrica conexão com a
natureza, sob os efeitos do maravilhamento em relação aos portentos que
contempla em seu entorno – os pássaros, as árvores frutíferas, as estações, as
chuvas outonais... –, tudo a evocar uma sensação de abundância e de renovação.
Sob o pano de
fundo de seu trigésimo aniversário, Thomas lança mão de recursos dominantemente
sinestésicos, imbricando pormenores numa tapeçaria onde, destacadamente, o visual
e o auditivo enredam o leitor em metáforas e densas torrentes de imagens, de
cujo contexto se depreende o inconteste ânimo celebratório do poema.
J.A.R. – H.C.
Dylan Thomas
(1914-1953)
Poem in October
It was my thirtieth
year to heaven
Woke to my hearing
from harbour and neighbour wood
And the mussel pooled
and the heron
Priested shore
The morning beckon
With water praying
and call of seagull and rook
And the knock of
sailing boats on the net webbed wall
Myself to set foot
That second
In the still sleeping
town and set forth.
My birthday began
with the water –
Birds and the birds
of the winged trees flying my name
Above the farms and
the white horses
And I rose
In rainy autumn
And walked abroad in
a shower of all my days.
High tide and the heron
dived when I took the road
Over the border
And the gates
Of the town closed as
the town awoke.
A springful of larks
in a rolling
Cloud and the
roadside bushes brimming with whistling
Blackbirds and the
sun of October
Summery
On the hill’s shoulder,
Here were fond
climates and sweet singers suddenly
Come in the morning
where I wandered and listened
To the rain wringing
Wind blow cold
In the wood faraway
under me.
Pale rain over the
dwindling harbour
And over the sea wet
church the size of a snail
With its horns
through mist and the castle
Brown as owls
But all the gardens
Of spring and summer
were blooming in the tall tales
Beyond the border and
under the lark full cloud.
There could I marvel
My birthday
Away but the weather
turned around.
It turned away from
the blithe country
And down the other
air and the blue altered sky
Streamed again a
wonder of summer
With apples
Pears and red
currants
And I saw in the
turning so clearly a child’s
Forgotten mornings
when he walked with his mother
Through the parables
Of sun light
And the legends of
the green chapels
And the twice told
fields of infancy
That his tears burned
my cheeks and his heart moved in mine.
These were the woods
the river and sea
Where a boy
In the listening
Summertime of the
dead whispered the truth of his joy
To the trees and the
stones and the fish in the tide.
And the mystery
Sang alive
Still in the water
and singingbirds.
And there could I
marvel my birthday
Away but the weather
turned around. And the true
Joy of the long dead
child sang burning
In the sun.
It was my thirtieth
Year to heaven stood
there then in the summer noon
Though the town below
lay leaved with October blood.
O may my heart’s
truth
Still be sung
On this high hill in
a year’s turning.
In: “Deaths and
Entrances” (1946)
Mãe e filho numa
paisagem mediterrânea
(Karel Frans
Philippeau: pintor holandês)
Poema de Outubro
Era o meu trigésimo
ano rumo ao céu
Quando chegou aos
meus ouvidos, vindo do porto
E do bosque ao lado,
E da praia empoçada
de mexilhões
E sacralizada pelas
garças
O aceno da manhã
Com as preces da água
e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos
barcos contra o muro emaranhado
De redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a
imóvel cidade adormecida.
Meu aniversário
começou com as aves marinhas
E os pássaros das
árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os
cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo
sob o aguaceiro de todos
Os meus dias.
A garça e a maré alta
mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam
fechadas enquanto o povo despertava.
Toda uma primavera de
cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira
da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de
outubro
Estival
Sobre os ombros da
colina,
Eram climas amorosos
e houve doces cantores
Que chegaram de
repente na manhã pela qual eu vagava
E ouvia
Como se retorcia a
chuva
O vento soprava frio
No bosque ao longe
que jazia a meus pés.
Pálida chuva sobre o
porto que encolhia
E sobre o mar que
umedecia a igreja do tamanho
De um caracol
Com seus cornos
através da névoa e do castelo
Encardido como as
corujas
Mas todos os jardins
Da primavera e do
verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e
sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu
maravilhar-me
Meu aniversário
Ia adiante mas o
tempo girava em derredor.
Ao girar me afastava
do país em júbilo
E através do ar
transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um
prodígio do verão
Com maçãs
Peras e groselhas
encarnadas
E no girar do tempo
vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas
manhãs em que o menino passeava
Com sua mãe
Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde
capela
E pelos campos da
infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me
queimavam as faces e seu coração
Se enternecia em mim.
Esses eram os bosques
e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos
sussurrava a verdade de seu êxtase
As árvores e às
pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo
Na água e nos
pássaros canoros.
E ali podia eu
maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o
tempo girava em derredor. Mas
A verdadeira
Alegria da criança há
tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo
ano
Rumo ao céu que então
se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade
repousasse lá embaixo coberta de folhas
No sangue de outubro.
Oh, pudesse a verdade
de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um
ano depois.
Em: “Mortes e
Entradas” (1946)
Referências:
Em Inglês
THOMAS, Dylan. Poem
in october. In: __________. Collected poems: 1934-1952. 1st ed.; 12th
rep. London, EN: J. M. Dent & Sons Ltd., may 1959. p. 102-104.
Em Português
THOMAS, Dylan. Poema
de outubro. Tradução de Ivan Junqueira. In: __________. Poemas reunidos:
1934-1953. Editados pelos professores Walford Davies e Ralph Maud. Tradução e
introdução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1991. p. 79-81.
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