Auden, ao mesmo tempo
que expressa admiração pelos avanços tecnológicos que permitiram a alunissagem
da Apolo 11, em meados de julho de 1969, enceta certa crítica à mentalidade que
os viabilizou, sobretudo no que tange ao questionamento se tais avanços realmente
nos levaram a uma existência mais gratificante, porquanto lhe parece que ainda há
muito caminho a trilhar, por parte da humanidade, aqui mesmo na Terra, mormente
no âmbito da ética, do equilíbrio e do aprimoramento espiritual.
Não há dúvida de que
as ações de líderes e tecnocratas têm muito de destrutivas, máxime quando motivadas
por propósitos insolentes ou de encenação político-propagandística: veja-se que
o poeta inglês qualifica o supracitado evento como um “triunfo fálico”, uma
conquista tipicamente associada a valores masculinos, vale dizer, à cultura
patriarcal e à obsessão por conquistas materiais e simbólicas que priorizem o
exercício do poder pelo poder.
Pergunta-se: onde a gentileza,
a empatia, a compaixão?! Poucos se dispõem a dignificar o lábaro no qual se compendiam
os atributos que nos tornam genuinamente humanos!
J.A.R. – H.C.
W. H. Auden
(1907-1973)
Moon Landing
It’s natural the Boys
should whoop it up for
so huge a phallic
triumph, an adventure
it would not have
occurred to women
to think worth while,
made possible only
because we like
huddling in gangs and knowing
the exact time: yes,
our sex may in fairness
hurrah the deed,
although the motives
that primed it were
somewhat less than menschlich.
A grand gesture. But
what does it period?
What does it osse? We
were always adroiter
with objects than
lives, and more facile
at courage than
kindness: from the moment
the first flint was
flaked this landing was merely
a matter of time. But
our selves, like Adam’s,
still don’t fit us
exactly, modern
only in this – our
lack of decorum.
Homer’s heroes were
certainly no braver
than our Trio, but
more fortunate: Hector
was excused the
insult of having
his valor covered by
television.
Worth going to
see? I can well believe it.
Worth seeing?
Mneh! I once rode through a desert
and was not charmed:
give me a watered
lively garden, remote
from blatherers
about the New, the
von Brauns and their ilk, where
on August mornings I
can count the morning
glories where to die
has a meaning,
and no engine can
shift my perspective.
Unsmudged, thank God,
my Moon still queens the Heavens
as She ebbs and
fulls, a Presence to glop at,
Her Old Man, made of
grit not protein,
still visits my
Austrian several
with His old
detachment, and the old warnings
still have power to
scare me: Hybris comes to
an ugly finish,
Irreverence
is a greater oaf than
Superstition.
Our apparatniks will
continue making
the usual squalid
mess called History:
all we can pray for
is that artists,
chefs and saints may
still appear to blithe it.
August 1969
Homem na Lua
(Oleg Cameira: artista
russo)
Descida na Lua
É natural que os
Rapazes gritassem oba-oba a
tão enorme triunfo
fálico, aventura
que a mulheres jamais
teria acontecido
achar valesse a pena;
foi possível só
porque gostamos de
juntar-nos em bandos e sabendo
a hora exata: sim, o
nosso sexo pode, com justiça,
gritar hurra pelo
feito, muito embora seus motivos
fossem pouco menos do
que menschlich.
Um gesto grandioso.
Mas a que põe termos?
O que prognostica?
Sempre fomos mais jeitosos
com objetos que com
vidas, e mais atreitos
à coragem que à
bondade: desde o instante
em que a primeira
pederneira foi partida, esta descida era só
uma questão de tempo.
Mas os nossos eus, como o de Adão,
não nos caem sob
medida ainda, que modernos
somos apenas nisto –
na falta de decoro.
Os heróis de Homero
não eram certamente mais audazes
que o nosso Trio, mas
tiveram melhor sorte: Heitor
foi poupado ao vexame
de a sua bravura
ser coberta pelas câmeras
de televisão.
Vale a pena ir
ver? Eu posso bem acreditar que sim.
Vale a pena ver?
Bah! Atravessei um deserto certa vez
de carro, mas não me
encantei; deem-me antes um jardim
viçoso, bem regado,
longe dos que tagarelam
sobre o Novo, os von Brauns
e sua laia, e onde eu possa
nas manhãs de agosto
desfrutar as glórias
matinais, onde morrer
tenha um sentido
e máquina alguma
possa alterar a minha perspectiva.
Intacta, graças a
Deus, a minha Lua, ainda rainha
dos Céus, minguante
ou cheia, uma Presença incrível,
O Velho dela, feito
de areia, não de proteína,
visita ainda as
minhas regiões austrais
com Seu velho
desapego, e as velhas advertências
têm ainda o poder de
me assustar: Hybris há de
acabar mal, a
Irreverência
é mais paspalha que a
Superstição.
Os nossos aparatniks
irão continuar fazendo
a costumeira e
sórdida mixórdia a que se chama História:
tudo quanto podemos
rogar é que continuem
a aparecer artistas,
cozinheiros, santos para a alegrar.
Agosto de 1969
Referência:
AUDEN, W. H. Moon
landing / Descida na lua. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas.
Seleção de José Moura Jr. Tradução e introdução de José Paulo Paes e João Moura
Jr. Edição bilíngue. 1. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras. 1986. Em
inglês: 176 e 178; em português: p. 177 e 179.
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