Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 7 de março de 2026

W. H. Auden - Descida na Lua

Auden, ao mesmo tempo que expressa admiração pelos avanços tecnológicos que permitiram a alunissagem da Apolo 11, em meados de julho de 1969, enceta certa crítica à mentalidade que os viabilizou, sobretudo no que tange ao questionamento se tais avanços realmente nos levaram a uma existência mais gratificante, porquanto lhe parece que ainda há muito caminho a trilhar, por parte da humanidade, aqui mesmo na Terra, mormente no âmbito da ética, do equilíbrio e do aprimoramento espiritual.

 

Não há dúvida de que as ações de líderes e tecnocratas têm muito de destrutivas, máxime quando motivadas por propósitos insolentes ou de encenação político-propagandística: veja-se que o poeta inglês qualifica o supracitado evento como um “triunfo fálico”, uma conquista tipicamente associada a valores masculinos, vale dizer, à cultura patriarcal e à obsessão por conquistas materiais e simbólicas que priorizem o exercício do poder pelo poder.

 

Pergunta-se: onde a gentileza, a empatia, a compaixão?! Poucos se dispõem a dignificar o lábaro no qual se compendiam os atributos que nos tornam genuinamente humanos!

 

J.A.R. – H.C.

 

W. H. Auden

(1907-1973)

 

Moon Landing

 

It’s natural the Boys should whoop it up for

so huge a phallic triumph, an adventure

it would not have occurred to women

to think worth while, made possible only

 

because we like huddling in gangs and knowing

the exact time: yes, our sex may in fairness

hurrah the deed, although the motives

that primed it were somewhat less than menschlich.

 

A grand gesture. But what does it period?

What does it osse? We were always adroiter

with objects than lives, and more facile

at courage than kindness: from the moment

 

the first flint was flaked this landing was merely

a matter of time. But our selves, like Adam’s,

still don’t fit us exactly, modern

only in this – our lack of decorum.

 

Homer’s heroes were certainly no braver

than our Trio, but more fortunate: Hector

was excused the insult of having

his valor covered by television.

 

Worth going to see? I can well believe it.

Worth seeing? Mneh! I once rode through a desert

and was not charmed: give me a watered

lively garden, remote from blatherers

 

about the New, the von Brauns and their ilk, where

on August mornings I can count the morning

glories where to die has a meaning,

and no engine can shift my perspective.

 

Unsmudged, thank God, my Moon still queens the Heavens

as She ebbs and fulls, a Presence to glop at,

Her Old Man, made of grit not protein,

still visits my Austrian several

 

with His old detachment, and the old warnings

still have power to scare me: Hybris comes to

an ugly finish, Irreverence

is a greater oaf than Superstition.

 

Our apparatniks will continue making

the usual squalid mess called History:

all we can pray for is that artists,

chefs and saints may still appear to blithe it.

 

August 1969

 

Homem na Lua

(Oleg Cameira: artista russo)

 

Descida na Lua

 

É natural que os Rapazes gritassem oba-oba a

tão enorme triunfo fálico, aventura

que a mulheres jamais teria acontecido

achar valesse a pena; foi possível só

 

porque gostamos de juntar-nos em bandos e sabendo

a hora exata: sim, o nosso sexo pode, com justiça,

gritar hurra pelo feito, muito embora seus motivos

fossem pouco menos do que menschlich.

 

Um gesto grandioso. Mas a que põe termos?

O que prognostica? Sempre fomos mais jeitosos

com objetos que com vidas, e mais atreitos

à coragem que à bondade: desde o instante

 

em que a primeira pederneira foi partida, esta descida era só

uma questão de tempo. Mas os nossos eus, como o de Adão,

não nos caem sob medida ainda, que modernos

somos apenas nisto – na falta de decoro.

 

Os heróis de Homero não eram certamente mais audazes

que o nosso Trio, mas tiveram melhor sorte: Heitor

foi poupado ao vexame de a sua bravura

ser coberta pelas câmeras de televisão.

 

Vale a pena ir ver? Eu posso bem acreditar que sim.

Vale a pena ver? Bah! Atravessei um deserto certa vez

de carro, mas não me encantei; deem-me antes um jardim

viçoso, bem regado, longe dos que tagarelam

 

sobre o Novo, os von Brauns e sua laia, e onde eu possa

nas manhãs de agosto desfrutar as glórias

matinais, onde morrer tenha um sentido

e máquina alguma possa alterar a minha perspectiva.

 

Intacta, graças a Deus, a minha Lua, ainda rainha

dos Céus, minguante ou cheia, uma Presença incrível,

O Velho dela, feito de areia, não de proteína,

visita ainda as minhas regiões austrais

 

com Seu velho desapego, e as velhas advertências

têm ainda o poder de me assustar: Hybris há de

acabar mal, a Irreverência

é mais paspalha que a Superstição.

 

Os nossos aparatniks irão continuar fazendo

a costumeira e sórdida mixórdia a que se chama História:

tudo quanto podemos rogar é que continuem

a aparecer artistas, cozinheiros, santos para a alegrar.

 

Agosto de 1969

 

Referência:

 

AUDEN, W. H. Moon landing / Descida na lua. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção de José Moura Jr. Tradução e introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr. Edição bilíngue. 1. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras. 1986. Em inglês: 176 e 178; em português: p. 177 e 179.

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