Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 8 de março de 2026

Pedro Salinas - O Pássaro

O poeta espanhol transforma a figura de um pássaro em símbolo da incontornável pergunta que tanto fazemos sobre a essência do real, ou talvez melhor, sobre a natureza da realidade frente à nossa percepção, com destaque para a relação entre o uno e o múltiplo, dada a explícita indagação se, de fato, existem miríades de pássaros como entidades separadas, ou seriam eles, simplesmente, fragmentos de uma totalidade que escapa à nossa compreensão.

 

Consignemos que o poema de Salinas sugere não haver um resposta definita sobre a questão, pelo que se aventa a possibilidade de que tanto a unicidade quanto a multiplicidade sejam verdades paralelas, dependendo do ângulo a partir do qual as observemos: com efeito, tal perspectiva se reflete em abordagens antinômicas ao longo da história da Filosofia, com alguns pensadores a enfatizar a irredutibilidade da multiplicidade (Heráclito, Deleuze), enquanto outros detêm-se em investigar um hipotético princípio unificador (Parmênides, Plotino, Espinosa), sem falar em certas correntes místicas que postulam a ideia da existência de uma alma universal.

 

Podem-se, ademais, tecer paralelos entre os pontos de vista de Salinas e os do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), no que tange ao emprego da metáfora dos espelhos para explorar a natureza ilusória da realidade, a fragilidade da percepção humana e a tensão entre o singular e o plural, tanto mais que ambos parecem ser concordes à ideia de que o mundo visível seria um jogo de reflexos – e a literatura (por extensão, a poesia) acaba por ser o recurso comum por meio do qual perscrutam e tentam decifrar o que há por trás desse plano refletor. Um contraponto entre eles, no entanto, se levanta: se em Salinas há um anseio metafísico por uma essência oculta, em Borges há um fascínio pelo enigma irresolúvel.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pedro Salinas

(1891-1951)

 

El Pájaro

 

¿El pájaro? ¿Los pájaros?

¿Hay sólo un solo pájaro en el mundo

que vuela con mil alas, y que canta

con incontables trinos, siempre solo?

¿Son tierra y cielo espejos? ¿Es el aire

espejeo del aire, y el gran pájaro

único multiplica

su soledad en apariencias miles?

(¿Y por eso

le llamamos los pájaros?)

¿O quizá no hay un pájaro?

¿Y son ellos,

fatal plural inmenso, como el mar,

bandada innúmera, oleaje de alas,

donde la vista busca y quiere el alma

distinguir la verdad del solo pájaro,

de su esencia sin fin, del uno hermoso?

 

En: “Confianza” (1955)

 

Azulão: delícia de mirtilo

(Rebecca Latham: artista norte-americana)

 

O Pássaro

 

O pássaro? Os pássaros?

Há apenas um só pássaro no mundo

que voa com mil asas e canta

com inumeráveis trinados, sempre sozinho?

São espelhos o céu e a terra? O ar é

espelho do ar, e o grande e único

pássaro multiplica

sua solidão em mil aparências?

(E por isso

o chamamos “os pássaros”?)

Ou talvez não haja um pássaro apenas?

E são eles

um imenso e irremediável plural, como o mar,

uma revoada incontável, um ondular de asas,

onde a vista perscruta e a alma tenciona

apreender a verdade de um pássaro solitário,

de sua infinita essência, de um ser uno e belo.

 

Em: “Confiança” (1955)

 

Referência:

 

SALINAS, Pedro. El pájaro. In: GAOS, Vicente (Ed.). Antología del grupo poético de 1927. Actualizada por Carlos Sahagún. 29. ed. Madrid, ES: Cátedra, 2015. p. 71. (“Letras Hispánicas”)

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