O poeta espanhol transforma
a figura de um pássaro em símbolo da incontornável pergunta que tanto fazemos
sobre a essência do real, ou talvez melhor, sobre a natureza da realidade
frente à nossa percepção, com destaque para a relação entre o uno e o múltiplo,
dada a explícita indagação se, de fato, existem miríades de pássaros como
entidades separadas, ou seriam eles, simplesmente, fragmentos de uma totalidade
que escapa à nossa compreensão.
Consignemos que o
poema de Salinas sugere não haver um resposta definita sobre a questão, pelo
que se aventa a possibilidade de que tanto a unicidade quanto a multiplicidade
sejam verdades paralelas, dependendo do ângulo a partir do qual as observemos:
com efeito, tal perspectiva se reflete em abordagens antinômicas ao longo da
história da Filosofia, com alguns pensadores a enfatizar a irredutibilidade da multiplicidade
(Heráclito, Deleuze), enquanto outros detêm-se em investigar um hipotético
princípio unificador (Parmênides, Plotino, Espinosa), sem falar em certas
correntes místicas que postulam a ideia da existência de uma alma universal.
Podem-se, ademais,
tecer paralelos entre os pontos de vista de Salinas e os do argentino Jorge
Luis Borges (1899-1986), no que tange ao emprego da metáfora dos espelhos para
explorar a natureza ilusória da realidade, a fragilidade da percepção humana e
a tensão entre o singular e o plural, tanto mais que ambos parecem ser
concordes à ideia de que o mundo visível seria um jogo de reflexos – e a literatura
(por extensão, a poesia) acaba por ser o recurso comum por meio do qual perscrutam
e tentam decifrar o que há por trás desse plano refletor. Um contraponto entre
eles, no entanto, se levanta: se em Salinas há um anseio metafísico por uma
essência oculta, em Borges há um fascínio pelo enigma irresolúvel.
J.A.R. – H.C.
Pedro Salinas
(1891-1951)
El Pájaro
¿Hay sólo un solo pájaro en el mundo
que vuela con mil alas, y que canta
con incontables trinos, siempre solo?
¿Son tierra y cielo espejos? ¿Es el aire
espejeo del aire, y el gran pájaro
único multiplica
su soledad en apariencias miles?
(¿Y por eso
le llamamos los pájaros?)
¿O quizá no hay un pájaro?
¿Y son ellos,
fatal plural inmenso, como el mar,
bandada innúmera, oleaje de alas,
donde la vista busca y quiere el alma
distinguir la verdad del solo pájaro,
de su esencia sin fin, del uno hermoso?
En: “Confianza”
(1955)
Azulão: delícia de
mirtilo
(Rebecca Latham: artista
norte-americana)
O Pássaro
O pássaro? Os
pássaros?
Há apenas um só
pássaro no mundo
que voa com mil asas
e canta
com inumeráveis
trinados, sempre sozinho?
São espelhos o céu e
a terra? O ar é
espelho do ar, e o
grande e único
pássaro multiplica
sua solidão em mil
aparências?
(E por isso
o chamamos “os
pássaros”?)
Ou talvez não haja um
pássaro apenas?
E são eles
um imenso e
irremediável plural, como o mar,
uma revoada
incontável, um ondular de asas,
onde a vista
perscruta e a alma tenciona
apreender a verdade
de um pássaro solitário,
de sua infinita
essência, de um ser uno e belo.
Em: “Confiança”
(1955)
Referência:
SALINAS, Pedro. El
pájaro. In: GAOS, Vicente (Ed.). Antología del grupo poético de 1927.
Actualizada por Carlos Sahagún. 29. ed. Madrid, ES: Cátedra, 2015. p. 71.
(“Letras Hispánicas”)
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