A partir de uma
perspectiva existencial e, até mesmo, metafísica, a poetisa explora a
experiência da gravidez e do parto, antevendo, durante o período da gestação, uma
espécie de “revelação” que haveria de lhe alcançar “do outro lado da dor”, uma
compreensão algo transcendente da realidade, com o potencial para romper as
suas certezas lógicas e racionais.
Mas o que sobrevém,
de fato, não configura uma epifania esclarecedora, senão “o fim das ideias”
pré-concebidas: um outro corpo robusto e irracional, um bebê que grita irritantemente,
manifestando o lado mais físico, visceral, ingovernado pelo intelecto.
Sob tal ótica, a crua
realidade da vida e do nascimento atém-se não exatamente à primazia da razão,
mas à riqueza e a complexidade da experiência corporal: o amor materno, que se
expressa através do cuidado físico do bebê, torna-se uma forma de conhecimento
mais profunda que qualquer ideia ou teoria.
J.A.R. – H.C.
Nadia Colburn
(n. 1972)
For nine months
I anticipated,
as the other end
of pain,
a revelation:
a world turned
inside out,
the sure logic
of arithmetic undone.
Each inch I grew
marked a failure
and a promise:
my present physical
certainty, my approaching
release. But instead,
torn open,
I gave birth
to the end of ideas.
Beyond pain was born
no understanding,
beyond understanding
was revealed
no new way of knowing,
new sight,
robust
which no thought
set screaming,
purple-faced,
infuriated at air,
or moved closer
to my breast,
or closed its thinly
lidded
round brown eyes,
so soon worn out
by the unfamiliar
light.
O nascimento de uma
mãe
(Carrie Martinez: artista
norte-americana)
O Mundo Físico
Durante nove meses
antecipei,
como o outro lado
da dor,
uma revelação:
um mundo virado
do avesso,
a lógica segura
da aritmética
desfeita.
Cada polegada que eu
crescia
marcava uma
insuficiência
e uma promessa:
a certeza do meu estágio
físico
corrente, a minha
libertação
já próxima. Mas em
vez disso,
extraído à força,
dei à luz
o fim das ideias.
Para além da dor
não se engendrou compreensão,
para além da
compreensão
não se revelou
qualquer nova forma
de saber,
tampouco uma nova
visão,
senão um outro corpo,
robusto,
com o rosto purpúreo,
agastado com o ar,
que nenhum pensamento
o fazia desatar em
pranto,
ou mover-se para mais
perto
do meu peito,
ou fechar as finas
pálpebras
de seus redondos
olhos castanhos,
tão depressa extenuados
com a luz pouco
familiar.
Referência:
COLBURN, Nadia. The physical
world. In: __________. I say the sky: poems. Lexington, KY: University
Press of Kentucky, 2024. p. 17-18.
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