Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Nadia Colburn - O Mundo Físico

A partir de uma perspectiva existencial e, até mesmo, metafísica, a poetisa explora a experiência da gravidez e do parto, antevendo, durante o período da gestação, uma espécie de “revelação” que haveria de lhe alcançar “do outro lado da dor”, uma compreensão algo transcendente da realidade, com o potencial para romper as suas certezas lógicas e racionais.

 

Mas o que sobrevém, de fato, não configura uma epifania esclarecedora, senão “o fim das ideias” pré-concebidas: um outro corpo robusto e irracional, um bebê que grita irritantemente, manifestando o lado mais físico, visceral, ingovernado pelo intelecto.

 

Sob tal ótica, a crua realidade da vida e do nascimento atém-se não exatamente à primazia da razão, mas à riqueza e a complexidade da experiência corporal: o amor materno, que se expressa através do cuidado físico do bebê, torna-se uma forma de conhecimento mais profunda que qualquer ideia ou teoria.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nadia Colburn

(n. 1972)

 

The Physical World

 

For nine months

I anticipated,

 

as the other end

of pain,

 

a revelation:

a world turned

 

inside out,

the sure logic

 

of arithmetic undone.

Each inch I grew

 

marked a failure

and a promise:

 

my present physical

certainty, my approaching

 

release. But instead,

torn open,

 

I gave birth

to the end of ideas.

 

Beyond pain was born

no understanding,

 

beyond understanding

was revealed

 

no new way of knowing,

new sight,

 

but another body,

robust

 

which no thought

set screaming,

 

purple-faced,

infuriated at air,

 

or moved closer

to my breast,

 

or closed its thinly lidded

round brown eyes,

 

so soon worn out

by the unfamiliar light.

 

O nascimento de uma mãe

(Carrie Martinez: artista norte-americana)

 

O Mundo Físico

 

Durante nove meses

antecipei,

 

como o outro lado

da dor,

 

uma revelação:

um mundo virado

 

do avesso,

a lógica segura

 

da aritmética desfeita.

Cada polegada que eu crescia

 

marcava uma insuficiência

e uma promessa:

 

a certeza do meu estágio físico

corrente, a minha libertação

 

já próxima. Mas em vez disso,

extraído à força,

 

dei à luz

o fim das ideias.

 

Para além da dor

não se engendrou compreensão,

 

para além da compreensão

não se revelou

 

qualquer nova forma de saber,

tampouco uma nova visão,

 

senão um outro corpo,

robusto,

 

com o rosto purpúreo,

agastado com o ar,

 

que nenhum pensamento

o fazia desatar em pranto,

 

ou mover-se para mais perto

do meu peito,

 

ou fechar as finas pálpebras

de seus redondos olhos castanhos,

 

tão depressa extenuados

com a luz pouco familiar.

 

Referência:

 

COLBURN, Nadia. The physical world. In: __________. I say the sky: poems. Lexington, KY: University Press of Kentucky, 2024. p. 17-18.

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