O poeta rende homenagem
à mítica figura do gato, ressaltando não só as suas qualidades físicas – como a
paciência, a astúcia e a espera no agir, o profundo ar de mistério, a capacidade
de adaptação aos diversos espaços –, senão também as associações simbólicas que
lhe atribuímos, a exemplo do pendor ancestral de o vincular à ideia de sabedoria.
Afinal, o gato – um felino em miniatura – sabe como nos cativar com as suas maneiras, até mesmo com o seu universo interior, vasto e enigmático, perceptivo e sensível ao oculto, que imaginamos existir em seu jogo de aparências e de realidades, de superação de adversidades que lhe permitem alcançar a cúspide de suas “sete vidas”!
J.A.R. – H.C.
Francisco Carvalho
(1927-2013)
Anatomia do gato
À luz do recato
é o novelo de fios de
lã de ovelha
com que Penélope
teceu a túnica de Ulisses.
Seu fino olfato capta
fragmentos
de aromas dos astros
e orquídeas da insônia.
Parece uma brisa que
veio dos campos de centeio.
O gato e sua pompa de
arauto
cabem num sapato.
Os seus olhos de
mercúrio enxergam
alfinetes no
anonimato
e a namorada que
passeia no muro do sobressalto.
O gato tem sete vidas
sete maneiras de ser
arguto.
Quando morre de
velho, só lhe basta um minuto.
O jogo do gatinho
(Henriëtte
Ronner-Knip: artista belgo-holandesa)
Referência:
CARVALHO, Francisco.
Anatomia do gato. In: __________. O silêncio é uma figura geométrica. Fortaleza,
CE: UFC; Casa José de Alencar, 2002. p. 130. (Coleção ‘Alagadiço Novo’)
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