Muitas vezes passamos
pela vida sem compreender os seus segredos mais profundos, sem que logremos
atravessar o rio onde, na outra margem, nos espera um “amigo” –
a simbolizar o encontro com o divino ou a iluminação espiritual a que tanto
aspiramos –, pois que estamos detidos neste lado, sob os interditos de um barco
quebrado, sendo atingidos vãmente pelas ondas dos desejos e dos apegos
mundanos.
O místico indiano nos
indaga sobre quem haverá de nos socorrer, haja vista que estamos sós nessa
travessia e devemos assumir as consequências de nossos próprios atos, verdadeiros
obstáculos para que possamos ascender até um estado superior de consciência, ponto
a partir do qual, decerto, seremos capazes de desvendar os mistérios dessa
almejada “cidade do amor”.
J.A.R. – H.C.
Kabir
(1440-1518)
Poema nº 74
Ó companheiro!
O que sabes dos
segredos desta cidade?
Na ignorância
chegaste; na ignorância partirás.
O que fizeste da vida
que te foi dada?
Colocaste um saco de
pedras sobre a cabeça,
E agora esperas por
alguém que te alivie o peso.
Teu Amigo te aguarda
na outra margem.
Mas teu barco
quebrou, continuas sentado no cais,
E perdes teu tempo
inquietando-te com as ondas.
O servo Kabir te pede
que considere:
A quem recorrerás no
último instante?
Estarás só e colherás
os frutos que semeaste.
Sozinho diante do mar
(Ester Newman-Cohen:
artista israelense)
Referência:
KABIR. Kabir: cem
poemas. Seleção e tradução ao inglês de R. Tagore. Tradução ao português,
ensaios e notas de José Tadeu Arantes. São Paulo, SP: Attar, 2013. p. 102.
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