Inserto na seção “O
Livro da Vida Monástica” (1899), de “O Livro de Horas” (1905), este poema de
Rilke, entre intimista e metafórico – aliás, como a maioria dos poemas da
aludida obra –, explora a relação do ser humano com Deus, sugerindo uma
proximidade quase física entre ambos, embora reconheça que há um “muro estreito”
que os separa, construído pelas imagens, concepções ou ideias preconcebidas que
o homem tem sobre o Criador.
Com efeito, os versos,
expressando a sede espiritual do falante por transcender as suas próprias construções
mentais – a imporem barreiras de ordem conceitual – e se conectar de modo mais
puro e íntimo com o divino, acaba por retratar o paradoxo da simultânea
proximidade e distanciamento entre Deus e o homem, função das representações
limitantes acerca da natureza da fé.
J.A.R. – H.C.
Rainer Maria Rilke
(1875-1926)
Du, Nachbar Gott,
wenn ich dich manchesmal
Du, Nachbar Gott,
wenn ich dich manchesmal
in langer Nacht mit
hartem Klopfen störe, –
so ists, weil ich
dich selten atmen höre
und weiss: Du bist
allein im Saal.
Und wenn du etwas
brauchst, ist keiner da,
um deinem Tasten
einen Trank zu reichen:
Ich horche immer.
Gieb ein kleines Zeichen.
Ich bin ganz nah.
Nur eine schmale Wand
ist zwischen uns,
durch Zufall; denn es
könnte sein:
ein Rufen deines oder
meines Munds –
und sie bricht ein
ganz ohne Lärm und
Laut.
Aus deinen Bildern
ist sie aufgebaut.
Und deine Bilder
stehn vor dir wie Namen.
Und wenn einmal das
Licht in mir entbrennt,
mit welchem meine
Tiefe dich erkennt,
vergeudet sichs als
Glanz auf ihren Rahmen.
Und meine Sinne,
welche schnell erlahmen,
sind ohne Heimat und
von dir getrennt.
In: “Das Stunden-Buch”
(1905)
O Homem propõe, mas
Deus dispõe
(Alex Levin: artista
ucraniano)
Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho
Se tantas vezes te
importuno, ó Deus meu vizinho,
batendo forte à tua
porta na noite extensa,
é porque te ouço
respirar, da tua presença
sei: estás na sala,
sozinho.
Se de algo
precisares, não há ninguém ali
que possa te trazer
um gole d’água sequer.
Vivo sempre à escuta.
Dá-me um sinal qualquer.
Estou bem perto de
ti.
Entre nós há apenas
um muro, coisa pouca,
por mero acaso aliás;
bem pode ser que um
grito da tua ou minha boca –
e eis que se desfaz
sem só rumor ou ruído.
Com imagens tuas o muro foi construído.
Diante de ti tuas
imagens são como nomes.
E quando um dia
dentro de mim esteja acesa
a luz com que te
conhece minha profundeza,
será, nas molduras,
brilho que se esbanja e some.
E os meus sentidos,
que um torpor célere consome,
estão sem pátria,
exilados da tua grandeza.
Em: “O Livro de
Horas” (1905)
Referência:
RILKE, Rainer Maria. Du,
Nachbar Gott, wenn ich dich manchesmal / Se tantas vezes te importuno, ó Deus
meu vizinho. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas.
Seleção, tradução e introdução de José Paulo Paes. 1. ed. 3. reimp. São Paulo,
SP: Companhia das Letras, 1993. Em alemão: p. 44; em português: p. 45.
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