Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Rainer Maria Rilke - Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho

Inserto na seção “O Livro da Vida Monástica” (1899), de “O Livro de Horas” (1905), este poema de Rilke, entre intimista e metafórico – aliás, como a maioria dos poemas da aludida obra –, explora a relação do ser humano com Deus, sugerindo uma proximidade quase física entre ambos, embora reconheça que há um “muro estreito” que os separa, construído pelas imagens, concepções ou ideias preconcebidas que o homem tem sobre o Criador.

 

Com efeito, os versos, expressando a sede espiritual do falante por transcender as suas próprias construções mentais – a imporem barreiras de ordem conceitual – e se conectar de modo mais puro e íntimo com o divino, acaba por retratar o paradoxo da simultânea proximidade e distanciamento entre Deus e o homem, função das representações limitantes acerca da natureza da fé.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rainer Maria Rilke

(1875-1926)

 

Du, Nachbar Gott, wenn ich dich manchesmal

 

Du, Nachbar Gott, wenn ich dich manchesmal

in langer Nacht mit hartem Klopfen störe, –

so ists, weil ich dich selten atmen höre

und weiss: Du bist allein im Saal.

Und wenn du etwas brauchst, ist keiner da,

um deinem Tasten einen Trank zu reichen:

Ich horche immer. Gieb ein kleines Zeichen.

Ich bin ganz nah.

 

Nur eine schmale Wand ist zwischen uns,

durch Zufall; denn es könnte sein:

ein Rufen deines oder meines Munds –

und sie bricht ein

ganz ohne Lärm und Laut.

 

Aus deinen Bildern ist sie aufgebaut.

 

Und deine Bilder stehn vor dir wie Namen.

Und wenn einmal das Licht in mir entbrennt,

mit welchem meine Tiefe dich erkennt,

vergeudet sichs als Glanz auf ihren Rahmen.

 

Und meine Sinne, welche schnell erlahmen,

sind ohne Heimat und von dir getrennt.

 

In: “Das Stunden-Buch” (1905)

 

O Homem propõe, mas Deus dispõe

(Alex Levin: artista ucraniano)

 

Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho

 

Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho,

batendo forte à tua porta na noite extensa,

é porque te ouço respirar, da tua presença

sei: estás na sala, sozinho.

Se de algo precisares, não há ninguém ali

que possa te trazer um gole d’água sequer.

Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer.

Estou bem perto de ti.

 

Entre nós há apenas um muro, coisa pouca,

por mero acaso aliás;

bem pode ser que um grito da tua ou minha boca –

e eis que se desfaz

sem só rumor ou ruído.


Com imagens tuas o muro foi construído.

 

Diante de ti tuas imagens são como nomes.

E quando um dia dentro de mim esteja acesa

a luz com que te conhece minha profundeza,

será, nas molduras, brilho que se esbanja e some.

 

E os meus sentidos, que um torpor célere consome,

estão sem pátria, exilados da tua grandeza.

 

Em: “O Livro de Horas” (1905)

 

Referência:

 

RILKE, Rainer Maria. Du, Nachbar Gott, wenn ich dich manchesmal / Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução e introdução de José Paulo Paes. 1. ed. 3. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1993. Em alemão: p. 44; em português: p. 45.

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