Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 15 de junho de 2025

Pablo Neruda - Ode ao cachorro

Neruda celebra a relação de amizade do homem com os animais domésticos, mais especificamente com o cão, de forma a estabelecer conexões e interlocução não verbal, haja vista que o pet não precisa de palavras para expressar emoções e pensamentos, senão que o faz por meio de seus olhares, seus movimentos e seu comportamento.

 

O cão, com suas indagações silenciosas e afetuosos gestos, busca compreender a seu modo o mundo que o rodeia, demonstrando alegria e conexão com a natureza que parecem carecer de maiores complicações – como as humanas. O poeta, por seu turno, ainda que possua o recurso à sua capacidade intelectual, sente-se impedido de responder às interrogantes fundamentais da vida, aos enigmas primordiais da existência, tanto mais àqueles que não comportam explicações definitivas.

 

E assim seguem o cão e o homem interagindo com o mundo de maneira instintiva e primária, compartilhando em harmonia a experiência sensorial de um passeio matutino pelos campos chilenos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pablo Neruda

(1904-1973)

 

Oda al perro

 

El perro me pregunta

y no respondo.

 

Salta, corre en el campo y me pregunta

sin hablar

y sus ojos

son dos preguntas húmedas, dos llamas

líquidas que me interrogan

y no respondo,

no respondo porque

no sé, no puedo nada.

 

A campo pleno vamos

hombre y perro.

 

Brillan las hojas como

si alguien

las hubiera besado

una por una,

suben del suelo

todas las naranjas

a establecer

pequeños planetarios

en árboles redondos

como la noche, y verdes,

y perro y hombre vamos

oliendo el mundo, sacudiendo el trébol,

por el campo de Chile,

entre los dedos claros de septiembre.

 

El perro se detiene,

persigue las abejas,

salta el agua intranquila,

escucha lejanísimos

ladridos,

orina en una piedra

y me trae la punta de su hocico,

a mí, como un regalo.

 

Es su frescura tierna,

la comunicación de su ternura,

y allí me preguntó

con sus dos ojos,

por qué es de día, por qué vendrá la noche,

por qué la primavera

no trajo en su canasta

nada

para perros errantes,

sino flores inútiles,

flores, flores y flores.

 

Y así pregunta

el perro

y no respondo.

 

Vamos

hombre y perro reunidos

por la mañana verde,

por la incitante soledad vacía

en que sólo nosotros

existimos,

esta unidad de perro con rocío

y el poeta del bosque,

porque no existe el pájaro escondido,

ni la secreta flor,

sino trino y aroma

para dos compañeros,

para dos cazadores compañeros:

un mundo humedecido

por las destilaciones de la noche,

un túnel verde y luego

una pradera,

una ráfaga de aire anaranjado,

el susurro de las raíces,

la vida caminando,

respirando, creciendo,

y la antigua amistad,

la dicha

de ser perro y ser hombre

convertida

en un solo animal

que camina moviendo

seis patas

y una cola

con rocío.

 

En: “Navegaciones y Regresos” (1959)

 

Homem e Cão

(Miguel Macaya: pintor espanhol)

 

Ode ao cachorro

 

O cachorro me pergunta

e não respondo.

 

Salta, corre no campo e me pergunta

sem falar

e seus olhos

são duas perguntas úmidas, duas chamas

líquidas que interrogam

e não respondo,

não respondo porque

não sei, não posso nada.

 

A campo aberto vamos

homem e cachorro.

 

Brilham as folhas como

se alguém

as tivesse beijado

uma por uma,

sobem do solo

todas as laranjas

a estabelecer

pequenos planetários

em árvores redondas

como a noite, e verdes,

e cachorro e homem vamos

farejando o mundo, sacudindo os trevos,

pelo campo do Chile,

entre os dedos claros de setembro.

 

O cachorro se detém,

persegue as abelhas,

salta a água intranquila,

escuta distantíssimos

latidos,

urina numa pedra

e traz a ponta do focinho,

para mim, como um presente.

 

Em seu frescor terno,

a comunicação de sua ternura,

e ali me perguntou

com seus dois olhos,

por que é de dia, por que virá a noite,

por que a primavera

não trouxe em sua canastra

nada

para cachorros errantes,

além de flores inúteis,

flores, flores e flores.

 

E assim pergunta

o cachorro

e não respondo.

 

Vamos

homem e cachorro reunidos

pela manhã verde,

pela incitante solidão vazia

em que só nós dois

existimos,

esta unidade de cachorro com orvalho

e o poeta do bosque,

porque não existe o pássaro escondido,

nem a secreta flor,

senão o trinar e o aroma

para dois companheiros:

um mundo umedecido

pelas destilações da noite,

um túnel verde e em seguida

uma campina,

uma rajada de ar alaranjado,

o sussurro das raízes,

a vida caminhando,

respirando, crescendo,

e a antiga amizade,

o destino

de ser cachorro e ser homem

convertido

em um só animal

que caminha movendo

seis patas

e um rabo

com orvalho.

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

NERUDA, Pablo. Oda al perro. In: __________. Obras escogidas: tomo II. Selección de Francisco Coloane. Santiago, CL: Editorial Andrés Bello, 1972. p. 260-261.

 

Em Português

 

NERUDA, Pablo. Ode ao cachorro. Tradução de José Rubens Siqueira. In: __________. Navegações e regressos. Tradução de José Rubens Siqueira. 1. ed. São Paulo, SP: MEDIAfashion, 2012. p. 133-136. (Coleção Folha ‘Literatura íbero-americana’; v. 9)

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