Neruda celebra a
relação de amizade do homem com os animais domésticos, mais especificamente com
o cão, de forma a estabelecer conexões e interlocução não verbal, haja vista
que o pet não precisa de palavras para expressar emoções e pensamentos, senão que
o faz por meio de seus olhares, seus movimentos e seu comportamento.
O cão, com suas
indagações silenciosas e afetuosos gestos, busca compreender a seu modo o mundo
que o rodeia, demonstrando alegria e conexão com a natureza que parecem carecer
de maiores complicações – como as humanas. O poeta, por seu turno, ainda que possua
o recurso à sua capacidade intelectual, sente-se impedido de responder às
interrogantes fundamentais da vida, aos enigmas primordiais da existência, tanto
mais àqueles que não comportam explicações definitivas.
E assim seguem o cão e o homem interagindo com o mundo de maneira instintiva e primária, compartilhando em harmonia a experiência sensorial de um passeio matutino pelos campos chilenos.
J.A.R. – H.C.
Pablo Neruda
(1904-1973)
Oda al perro
El perro me pregunta
y no respondo.
Salta, corre en el
campo y me pregunta
sin hablar
y sus ojos
son dos preguntas
húmedas, dos llamas
líquidas que me
interrogan
y no respondo,
no respondo porque
no sé, no puedo nada.
A campo pleno vamos
hombre y perro.
Brillan las hojas
como
si alguien
las hubiera besado
una por una,
suben del suelo
todas las naranjas
a establecer
pequeños planetarios
en árboles redondos
como la noche, y
verdes,
y perro y hombre
vamos
oliendo el mundo,
sacudiendo el trébol,
por el campo de
Chile,
entre los dedos
claros de septiembre.
El perro se detiene,
persigue las abejas,
salta el agua
intranquila,
escucha lejanísimos
ladridos,
orina en una piedra
y me trae la punta de
su hocico,
a mí, como un regalo.
Es su frescura
tierna,
la comunicación de su
ternura,
y allí me preguntó
con sus dos ojos,
por qué es de día, por
qué vendrá la noche,
por qué la primavera
no trajo en su
canasta
nada
para perros errantes,
sino flores inútiles,
flores, flores y
flores.
Y así pregunta
el perro
y no respondo.
Vamos
hombre y perro
reunidos
por la mañana verde,
por la incitante
soledad vacía
en que sólo nosotros
existimos,
esta unidad de perro
con rocío
y el poeta del
bosque,
porque no existe el
pájaro escondido,
ni la secreta flor,
sino trino y aroma
para dos compañeros,
para dos cazadores
compañeros:
un mundo humedecido
por las destilaciones
de la noche,
un túnel verde y
luego
una pradera,
una ráfaga de aire
anaranjado,
el susurro de las
raíces,
la vida caminando,
respirando,
creciendo,
y la antigua amistad,
la dicha
de ser perro y ser
hombre
convertida
en un solo animal
que camina moviendo
seis patas
y una cola
con rocío.
En: “Navegaciones y
Regresos” (1959)
Homem e Cão
(Miguel Macaya:
pintor espanhol)
Ode ao cachorro
O cachorro me
pergunta
e não respondo.
Salta, corre no campo
e me pergunta
sem falar
e seus olhos
são duas perguntas
úmidas, duas chamas
líquidas que
interrogam
e não respondo,
não respondo porque
não sei, não posso
nada.
A campo aberto vamos
homem e cachorro.
Brilham as folhas
como
se alguém
as tivesse beijado
uma por uma,
sobem do solo
todas as laranjas
a estabelecer
pequenos planetários
em árvores redondas
como a noite, e
verdes,
e cachorro e homem
vamos
farejando o mundo,
sacudindo os trevos,
pelo campo do Chile,
entre os dedos claros
de setembro.
O cachorro se detém,
persegue as abelhas,
salta a água
intranquila,
escuta distantíssimos
latidos,
urina numa pedra
e traz a ponta do
focinho,
para mim, como um
presente.
Em seu frescor terno,
a comunicação de sua
ternura,
e ali me perguntou
com seus dois olhos,
por que é de dia, por
que virá a noite,
por que a primavera
não trouxe em sua
canastra
nada
para cachorros
errantes,
além de flores
inúteis,
flores, flores e
flores.
E assim pergunta
o cachorro
e não respondo.
Vamos
homem e cachorro reunidos
pela manhã verde,
pela incitante
solidão vazia
em que só nós dois
existimos,
esta unidade de
cachorro com orvalho
e o poeta do bosque,
porque não existe o
pássaro escondido,
nem a secreta flor,
senão o trinar e o
aroma
para dois companheiros:
um mundo umedecido
pelas destilações da
noite,
um túnel verde e em
seguida
uma campina,
uma rajada de ar
alaranjado,
o sussurro das
raízes,
a vida caminhando,
respirando,
crescendo,
e a antiga amizade,
o destino
de ser cachorro e ser
homem
convertido
em um só animal
que caminha movendo
seis patas
e um rabo
com orvalho.
Referências:
Em Espanhol
NERUDA, Pablo. Oda al
perro. In: __________. Obras escogidas: tomo II. Selección de Francisco
Coloane. Santiago, CL: Editorial Andrés Bello, 1972. p. 260-261.
Em Português
NERUDA, Pablo. Ode ao
cachorro. Tradução de José Rubens Siqueira. In: __________. Navegações e
regressos. Tradução de José Rubens Siqueira. 1. ed. São Paulo, SP:
MEDIAfashion, 2012. p. 133-136. (Coleção Folha ‘Literatura íbero-americana’; v.
9)
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