Evocam os versos
deste poema, notoriamente, toda a carga simbólica de um processo de transformação
espiritual ou de iluminação e união mística com a essência criadora, através das
chamas de um fogo purificador, deixando para trás as cinzas que delas se
originam, vale dizer, tudo o que foi consumido e superado – limites, barreiras,
as trevas dos apegos terrenos, a frieza e a rigidez de nossa condição humana.
As brasas e o rio compõem
o cerne de uma ostensiva dualidade – presente, ademais, em muitas outras
manifestações da natureza –, dualidade essa que a “substância frutada” logra
unificar, sem provocar-lhes alterações, reconciliando os opostos para lançar “transparentes
pontes de uma ilha à outra”, permitindo-nos por fim vislumbrar, e eventualmente
transitar, a um estado superior de consciência.
J.A.R. – H.C.
Jean-Claude Renard
(1922-2002)
La limite des cendres
J’ai rapporté du
bois.
Le feu ne franchit
pas la limite des cendres
Mais la chaleur du
feu pénètre la maison.
Une fente s’est faite
dans les briques glacées,
La barrière d’absence.
Une fourrure d’air
pour les membres, les meubles,
La nudité de l’âme.
Il y a maintenant
comme une ombre éclairée
Dans l’angle de la
nuit,
Un début de lumière,
presque un pont transparent
D’une île à l’autre.
Quelque chose de pur
qui commence à parler
plus bas que la
parole
Mais dit peut-être
plus.
Ce que déjà je tr
ouve,
Ce que déjà je touche
Me perd en me
brûlant.
Est-ce plus loin que
luit la substance fruitée
Qui laisse s’unifier
la rivière et la braise
Sans que rien ne s’altère
de l’une ni de l’autre?
Un vide en moi s’avive
– où vient sourdre un appel
formé pour la réponse
et pour l’unique essence
De ce qui l’a créé.
L’arbre même,
soudain, dans le néant fertile,
dans l’espace du temps
qui ne peut s’accomplir
qu’avec l’éternité,
M’est libre et
nécessaire
Et son mystère attend
que je le sois pour lui.
J’allumerai son nom
Dans cette mort
ouverte où l’invisible été prend
la douceur des seins.
Cinzas
(Edvard Munch: pintor
norueguês)
O limite das cinzas
Eis a lenha que eu
trouxe.
O fogo não transpõe o
limite das cinzas
Mas o calor do fogo
entranha-se na casa.
Uma fenda se abriu
nos tijolos gelados,
A barreira da
ausência.
Um agasalho de ar para
os membros, os móveis,
A alma no desabrigo.
Agora nos parece
alvejar uma sombra
Nos ângulos da noite,
Um começo de luz,
qual ponte transparente
De uma ilha para
outra.
Mais manso que a
palavra, alguma coisa pura
levanta sua voz
E que diz talvez
mais.
Aquilo que já
encontro,
E em que já estou
pegando
Me perde ao me
queimar.
Ao longe está luzindo
a vívida matéria
Que permite a aliança
entre as águas e a brasa
Sem que nenhum dos
dois padeça alteração?
Cresce em mim um
vazio – em que brota um apelo
feito para a resposta
e essência singular
Daquilo que o criou.
E mesmo, de repente,
no nada fecundo e no espaço
de tempo que só se
cumpre com a eternidade,
A árvore para mim é
livre e necessária
E seu mistério quer
que eu lhe seja também.
Acenderei seu nome
Naquela morte aberta
onde o oculto verão ganha
a doçura dos seios.
Referência:
RENARD, Jean-Claude.
La limite des cendres / O limite das cinzas. Tradução de Cláudio Veiga. In:
VEIGA, Cláudio (Organização e tradução). Antologia da poesia francesa:
do século IX ao século XX. Edição bilíngue: francês x português. Rio de
Janeiro, RJ: Record, 1991. Em francês: p. 422 e 424; em português: p. 423 e
425.
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