Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 27 de abril de 2025

Jean-Claude Renard - O limite das cinzas

Evocam os versos deste poema, notoriamente, toda a carga simbólica de um processo de transformação espiritual ou de iluminação e união mística com a essência criadora, através das chamas de um fogo purificador, deixando para trás as cinzas que delas se originam, vale dizer, tudo o que foi consumido e superado – limites, barreiras, as trevas dos apegos terrenos, a frieza e a rigidez de nossa condição humana.

 

As brasas e o rio compõem o cerne de uma ostensiva dualidade – presente, ademais, em muitas outras manifestações da natureza –, dualidade essa que a “substância frutada” logra unificar, sem provocar-lhes alterações, reconciliando os opostos para lançar “transparentes pontes de uma ilha à outra”, permitindo-nos por fim vislumbrar, e eventualmente transitar, a um estado superior de consciência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jean-Claude Renard

(1922-2002)

 

La limite des cendres

 

J’ai rapporté du bois.

 

Le feu ne franchit pas la limite des cendres

Mais la chaleur du feu pénètre la maison.

 

Une fente s’est faite dans les briques glacées,

La barrière d’absence.

Une fourrure d’air pour les membres, les meubles,

La nudité de l’âme.

 

Il y a maintenant comme une ombre éclairée

Dans l’angle de la nuit,

Un début de lumière, presque un pont transparent

D’une île à l’autre.

Quelque chose de pur qui commence à parler

plus bas que la parole

 

Mais dit peut-être plus.

Ce que déjà je tr ouve,

Ce que déjà je touche

Me perd en me brûlant.

 

Est-ce plus loin que luit la substance fruitée

Qui laisse s’unifier la rivière et la braise

Sans que rien ne s’altère de l’une ni de l’autre?

 

Un vide en moi s’avive – où vient sourdre un appel

formé pour la réponse et pour l’unique essence

De ce qui l’a créé.

L’arbre même, soudain, dans le néant fertile,

dans l’espace du temps qui ne peut s’accomplir

qu’avec l’éternité,

M’est libre et nécessaire

Et son mystère attend que je le sois pour lui.

 

J’allumerai son nom

Dans cette mort ouverte où l’invisible été prend

la douceur des seins.

 

Cinzas

(Edvard Munch: pintor norueguês)

 

O limite das cinzas

 

Eis a lenha que eu trouxe.

 

O fogo não transpõe o limite das cinzas

Mas o calor do fogo entranha-se na casa.

 

Uma fenda se abriu nos tijolos gelados,

A barreira da ausência.

Um agasalho de ar para os membros, os móveis,

A alma no desabrigo.

 

Agora nos parece alvejar uma sombra

Nos ângulos da noite,

Um começo de luz, qual ponte transparente

De uma ilha para outra.

Mais manso que a palavra, alguma coisa pura

levanta sua voz

 

E que diz talvez mais.

Aquilo que já encontro,

E em que já estou pegando

Me perde ao me queimar.

 

Ao longe está luzindo a vívida matéria

Que permite a aliança entre as águas e a brasa

Sem que nenhum dos dois padeça alteração?

 

Cresce em mim um vazio – em que brota um apelo

feito para a resposta e essência singular

Daquilo que o criou.

E mesmo, de repente, no nada fecundo e no espaço

de tempo que só se cumpre com a eternidade,

A árvore para mim é livre e necessária

E seu mistério quer que eu lhe seja também.

 

Acenderei seu nome

Naquela morte aberta onde o oculto verão ganha

a doçura dos seios.

 

Referência:

 

RENARD, Jean-Claude. La limite des cendres / O limite das cinzas. Tradução de Cláudio Veiga. In: VEIGA, Cláudio (Organização e tradução). Antologia da poesia francesa: do século IX ao século XX. Edição bilíngue: francês x português. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1991. Em francês: p. 422 e 424; em português: p. 423 e 425.

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