Nesta irônica e caudalosa
sátira social, o poeta destila sutilmente a sua crítica às debilidades humanas,
digo melhor, à hipocrisia religiosa e à falta de compromisso espiritual
genuíno, refletindo sobre a verdadeira natureza da fé, por intermédio dos olhos
de um rato há muito instalado numa igreja.
Entre a solidão e o isolamento,
a opulência das colheitas de outono e a penúria por que passa durante o resto
do ano, o rato censura os intrusos por seu cinismo e avidez, os quais somente
aparecem no templo, quando muito, por simples obrigação religiosa, ou sendo
mais preciso, apenas à época das sobreditas colheitas.
Leiam-se bem as inferências:
ratos com “mentes pagãs”, negadores da existência de Deus, ainda assim acercam-se
das instalações presbiterais somente porque podem ali satisfazer as suas
necessidades materiais, enquanto o rato devoto e ortodoxo, vivendo na clausura os
seus dogmas, vislumbra o quanto de contraditório, de sórdido, de despudorado há
em tais práticas.
J.A.R. – H.C.
John Betjeman
(1906-1984)
Diary of a Church
Mouse
Here among long-discarded cassocks,
Damp stools, and half-split open hassocks,
Here where the vicar never looks
I nibble through old service books.
Lean and alone I spend my days
Behind this Church of England baize.
I share my dark forgotten room
With two oil-lamps and half a broom.
The cleaner never bothers me,
So here I eat my frugal tea.
My bread is sawdust mixed with straw;
My jam is polish for the floor.
Christmas and Easter may be feasts
For congregations and for priests,
And so may Whitsun. All the same,
They do not fill my meagre frame.
For me the only feast at all
Is Autumn’s Harvest Festival,
When I can satisfy my want
With ears of corn around the font.
I climb the eagle’s brazen head
To burrow through a loaf of bread.
I scramble up the pulpit stair
And gnaw the marrows hanging there.
It is enjoyable to taste
These items ere they go to waste,
But how annoying when one finds
That other mice with pagan minds
Come into church my food to share
Who have no proper business there.
Two field mice who have no desire
To be baptized, invade the choir.
A large and most unfriendly rat
Comes in to see what we are at.
He says he thinks there is no God
And yet he comes ... it’s rather odd.
This year he stole a sheaf of wheat
(It screened our special preacher’s seat),
And prosperous mice from fields away
Come in to hear our organ play,
And under cover of its notes
Ate through the altar’s sheaf of oats.
A Low Church mouse, who thinks that I
Am too papistical, and High,
Yet somehow doesn’t think it wrong
To munch through Harvest Evensong,
While I, who starve the whole year through,
Must share my food with rodents who
Except at this time of the year
Not once inside the church appear.
Within the human world I know
Such goings-on could not be so,
For human beings only do
What their religion tells them to.
They read the Bible every day
And always, night and morning, pray,
And just like me, the good church mouse,
Worship each week in God’s own house,
But all the same it’s strange to me
How very full the church can be
With people I don’t see at all
Except at Harvest Festival.
O rato de igreja
(Meg Lewer: artista australiana)
Diário de um Rato de Igreja
Aqui, entre batinas há muito descartadas,
Bancos úmidos e genuflexórios meio fissurados,
Aqui, onde o vigário nunca deita os olhos,
Eu mordisco, de lés a lés, velhos livros litúrgicos.
Franzino e solitário, passo meus dias
Por trás desta baeta da Igreja Anglicana.
Partilho meu quarto escuro e esquecido
Com duas lamparinas a óleo e meia escova.
A faxineira nunca me importuna,
Assim, cá eu posso tomar o meu chá frugal.
Meu pão é serragem misturada com palha;
Minha geleia, cera para lustrar o piso.
O Natal e a Páscoa podem ser festividades
Para as congregações e os sacerdotes,
Bem assim o Pentecostes. Nada obstante,
Não logram fornir minha magra compleição.
Pelo menos para mim, o único evento que conta
É o do Festival das Colheitas de Outono,
Quando posso satisfazer o meu apetite
Com as espigas de milho à volta da pia batismal.
Galgo até a cabeça de bronze da águia anglicana
Para escavar a fundo uma bisnaga de pão.
Subo os degraus da escadaria do púlpito
Para roer os tubérculos ali colgados.
É prazeroso degustar
Esses víveres antes que se desperdicem.
E quão irritante é quando se descobre
Que outros ratos com mentes pagãs
Vêm à igreja partilhar minhas iguarias,
Mesmo sem ter nada o que fazer por lá.
Dois ratos do campo, sem qualquer interesse
Em ser batizados, invadem o coro.
Um grande e pouco amigável rato
Entra para ver o que estamos a fazer.
Diz crer que Deus não existe
E, contudo, avizinha-se... deveras leviano.
Este ano, roubou um feixe de trigo
(Que cobria o assento especial de nosso pregador)
E ratos prósperos de campos distantes
Vieram para ouvir o nosso órgão tocar,
E furtivos sob as suas notas,
Comeram toda a gavela de aveia do altar.
Um rato da Igreja Baixa Anglicana, que pensa que
Sou demasiado papista e da Igreja Alta,
Não julga errado, no entanto, tasquinhar
Durante toda a vespertina Missa das Colheitas,
Enquanto eu, que morro de fome o ano inteiro,
Tenho de partilhar minha provisão com roedores
Que, exceto durante esta época do ano,
Não aparecem uma única vez no recinto da igreja.
No âmbito do mundo humano, sei
Que tais coisas não podem ser assim,
Porque os seres humanos somente fazem
O que a religião lhes ordena.
Leem a Bíblia todos os dias
E sempre rezam, pela manhã e pela noite,
E, tal como eu, bom rato de igreja, prestam culto
A Deus, todas as semanas, em sua própria Casa;
Seja como for, me é bastante estranho
Como pode a igreja estar tão cheia,
Com pessoas que não vejo com frequência,
Senão apenas durante o Festival das Colheitas.
Referência:
BETJEMAN, John. Diary of a church mouse. In: JONES, Griff Rhys (Ed.). The nation’s favourite: twentieth century poems. 1. ed. London, EN: BBC Books, 1999. p. 106-107.
❁
Nenhum comentário:
Postar um comentário