Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 1 de abril de 2025

John Betjeman - Diário de um Rato de Igreja

Nesta irônica e caudalosa sátira social, o poeta destila sutilmente a sua crítica às debilidades humanas, digo melhor, à hipocrisia religiosa e à falta de compromisso espiritual genuíno, refletindo sobre a verdadeira natureza da fé, por intermédio dos olhos de um rato há muito instalado numa igreja.

 

Entre a solidão e o isolamento, a opulência das colheitas de outono e a penúria por que passa durante o resto do ano, o rato censura os intrusos por seu cinismo e avidez, os quais somente aparecem no templo, quando muito, por simples obrigação religiosa, ou sendo mais preciso, apenas à época das sobreditas colheitas.

 

Leiam-se bem as inferências: ratos com “mentes pagãs”, negadores da existência de Deus, ainda assim acercam-se das instalações presbiterais somente porque podem ali satisfazer as suas necessidades materiais, enquanto o rato devoto e ortodoxo, vivendo na clausura os seus dogmas, vislumbra o quanto de contraditório, de sórdido, de despudorado há em tais práticas.

 

J.A.R. – H.C.

 

John Betjeman

(1906-1984)

 

Diary of a Church Mouse

 

Here among long-discarded cassocks,

Damp stools, and half-split open hassocks,

Here where the vicar never looks

I nibble through old service books.

Lean and alone I spend my days

Behind this Church of England baize.

I share my dark forgotten room

With two oil-lamps and half a broom.

The cleaner never bothers me,

So here I eat my frugal tea.

My bread is sawdust mixed with straw;

My jam is polish for the floor.

Christmas and Easter may be feasts

For congregations and for priests,

And so may Whitsun. All the same,

They do not fill my meagre frame.

For me the only feast at all

Is Autumn’s Harvest Festival,

When I can satisfy my want

With ears of corn around the font.

I climb the eagle’s brazen head

To burrow through a loaf of bread.

I scramble up the pulpit stair

And gnaw the marrows hanging there.

It is enjoyable to taste

These items ere they go to waste,

But how annoying when one finds

That other mice with pagan minds

Come into church my food to share

Who have no proper business there.

Two field mice who have no desire

To be baptized, invade the choir.

A large and most unfriendly rat

Comes in to see what we are at.

He says he thinks there is no God

And yet he comes ... it’s rather odd.

This year he stole a sheaf of wheat

(It screened our special preacher’s seat),

And prosperous mice from fields away

Come in to hear our organ play,

And under cover of its notes

Ate through the altar’s sheaf of oats.

A Low Church mouse, who thinks that I

Am too papistical, and High,

Yet somehow doesn’t think it wrong

To munch through Harvest Evensong,

While I, who starve the whole year through,

Must share my food with rodents who

Except at this time of the year

Not once inside the church appear.

Within the human world I know

Such goings-on could not be so,

For human beings only do

What their religion tells them to.

They read the Bible every day

And always, night and morning, pray,

And just like me, the good church mouse,

Worship each week in God’s own house,

But all the same it’s strange to me

How very full the church can be

With people I don’t see at all

Except at Harvest Festival.

 

O rato de igreja

(Meg Lewer: artista australiana)

 

Diário de um Rato de Igreja

 

Aqui, entre batinas há muito descartadas,

Bancos úmidos e genuflexórios meio fissurados,

Aqui, onde o vigário nunca deita os olhos,

Eu mordisco, de lés a lés, velhos livros litúrgicos.

Franzino e solitário, passo meus dias

Por trás desta baeta da Igreja Anglicana.

Partilho meu quarto escuro e esquecido

Com duas lamparinas a óleo e meia escova.

A faxineira nunca me importuna,

Assim, cá eu posso tomar o meu chá frugal.

Meu pão é serragem misturada com palha;

Minha geleia, cera para lustrar o piso.

O Natal e a Páscoa podem ser festividades

Para as congregações e os sacerdotes,

Bem assim o Pentecostes. Nada obstante,

Não logram fornir minha magra compleição.

Pelo menos para mim, o único evento que conta

É o do Festival das Colheitas de Outono,

Quando posso satisfazer o meu apetite

Com as espigas de milho à volta da pia batismal.

Galgo até a cabeça de bronze da águia anglicana

Para escavar a fundo uma bisnaga de pão.

Subo os degraus da escadaria do púlpito

Para roer os tubérculos ali colgados.

É prazeroso degustar

Esses víveres antes que se desperdicem.

E quão irritante é quando se descobre

Que outros ratos com mentes pagãs

Vêm à igreja partilhar minhas iguarias,

Mesmo sem ter nada o que fazer por lá.

Dois ratos do campo, sem qualquer interesse

Em ser batizados, invadem o coro.

Um grande e pouco amigável rato

Entra para ver o que estamos a fazer.

Diz crer que Deus não existe

E, contudo, avizinha-se... deveras leviano.

Este ano, roubou um feixe de trigo

(Que cobria o assento especial de nosso pregador)

E ratos prósperos de campos distantes

Vieram para ouvir o nosso órgão tocar,

E furtivos sob as suas notas,

Comeram toda a gavela de aveia do altar.

Um rato da Igreja Baixa Anglicana, que pensa que

Sou demasiado papista e da Igreja Alta,

Não julga errado, no entanto, tasquinhar

Durante toda a vespertina Missa das Colheitas,

Enquanto eu, que morro de fome o ano inteiro,

Tenho de partilhar minha provisão com roedores

Que, exceto durante esta época do ano,

Não aparecem uma única vez no recinto da igreja.

No âmbito do mundo humano, sei

Que tais coisas não podem ser assim,

Porque os seres humanos somente fazem

O que a religião lhes ordena.

Leem a Bíblia todos os dias

E sempre rezam, pela manhã e pela noite,

E, tal como eu, bom rato de igreja, prestam culto

A Deus, todas as semanas, em sua própria Casa;

Seja como for, me é bastante estranho

Como pode a igreja estar tão cheia,

Com pessoas que não vejo com frequência,

Senão apenas durante o Festival das Colheitas.

 

Referência:

 

BETJEMAN, John. Diary of a church mouse. In: JONES, Griff Rhys (Ed.). The nation’s favourite: twentieth century poems. 1. ed. London, EN: BBC Books, 1999. p. 106-107.

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