Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 7 de junho de 2022

John Berryman - De ‘Canções de Sonho’ (157)

Esta “canção de sonho” – a de nº 157 – vai dedicada a um amigo do poeta, músico decerto, que faleceu não faz muito e para quem foram redigidas, ao todo, dez canções: tudo são desejos que a voz lírica emite em relação ao amigo, famoso em vida, mas cuja obra já se mostra evanescente, pelos drásticos efeitos do tempo.

 

As palavras e as imagens evocadas por Berryman associam-se menos a um mundo de ventura cristã, propriamente dita, a ser usufruída no além-vida, e bem mais a uma dita com traços orientais, digo melhor, budistas, a ser experimentada pelo falecido junto a grandes vultos da música clássica, de quem em vida muito se afeiçoara.

 

J.A.R. – H.C.

 

John Berryman

(1914-1972)

 

From ‘Dream Songs’ (157)

 

Ten Songs, one solid block of agony,

I wrote for him, and then I wrote no more.

His sad ghost must aspire

free of my love to its own post, that ghost,

among its fellows, Mozart’s, Bach’s, Delmore’s

free of its careful body

high in the shades which line that avenue

where I will gladly walk, beloved of one,

and listen to the Buddha.

His work downhill, I don’t conceal from you,

ran and ran out. The brain shook as if stunned,

I hope he’s over that,

flame may his glory in that other place,

for he was fond of fame, devoted to it,

and every first-rate soul

has sacrifices which it puts in play,

I hope he’s sitting with his peers: sit, sit,

& recover and be whole.

 

Música

(Thomas Eakins: pintor norte-americano)

 

De ‘Canções de Sonho’ (157)

 

Dez Canções, um sólido bloco agônico,

escrevi para ele, e depois já não mais escrevi.

Seu triste espectro deve aspirar

livre do meu amor ao seu próprio posto, esse assombro,

entre os vultos de seus confrades – Mozart, Bach, Delmore –,

livre de seu zeloso corpo,

no alto das sombras que bordejam tal avenida

por onde caminharei ditosamente, amado junto ao Uno,

e a escutar o Buda.

A sua obra ladeira abaixo, sem que lha disfarce,

apressurou-se e se esgotou.

O cérebro fremiu como se estivesse aturdido:

espero que tenha superado essa comoção.

Que a sua glória fulgure nesse outro lugar,

pois era aficionado à fama, devotado a ela,

e toda alma de primeira classe

tem sacrifícios que põe em jogo.

Estimo que esteja sentado com seus pares: sente-se,

sente-se, recupere-se e alcance a plenitude.

 

Referência:

 

BERRYMAN, John. From ‘dream songs’ (157). In: ASTLEY, Neil (Ed.). Staying alive: real poems for unreal times. 1st. ed. New York, NY: Miramax Books, 2003. p. 67.

Nenhum comentário:

Postar um comentário