Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Francisco Carvalho - Árvore Mística

Com todo o potencial simbólico do arquétipo representado pela árvore, muito à volta da cíclica, mas perpétua, evolução cósmica, percebe-se nos versos do poeta cearense certa ênfase no sagrado, com foco no caminho de ascensão ao longo do qual trilham aqueles migram do puramente humano ao divino, numa escalada evolutiva a bastante evocar a doutrina hermética da Cabala, notoriamente, uma espécie de “árvore mística”.

 

Deus está no centro do discurso, árvore inescrutável de permanente folhagem, imanente em sua vontade de criar todas as coisas e todo o ser, o uno primigênio no qual o mesmo ser alcança um estado de beatitude, no qual toda dualidade temporal se desvanece para se integrar num só êxtase, espiritual e etéreo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Francisco Carvalho

(1927-2013)

 

Árvore Mística

 

Deus é uma árvore de muitas raízes.

À sombra dessa árvore germinou

a dinastia dos homens e todas as coisas

que dardejam e flutuam entre o céu e a terra.

 

Deus é o caule do cedro golpeado pelos raios.

O estigma de fogo na fronte de Abraão.

A água que jorra dos mananciais.

O sopro que tange as cordas da harpa de David.

 

Deus é a fonte das súplicas. A concha

da mão que semeia o trigo da misericórdia.

Deus é o vazio que transborda.

Os dias e as noites que se somam ao tempo.

O tempo que se evapora em eternidade.

 

Deus é chama que te chama.

Magnetismo que te arrebata para o vértice.

Arcano que te contempla das esferas.

Braço estendido para os que sumiram no ventre

da baleia. Túnica de azeite para a nudez

dos ofendidos. Chuva primordial borbulhando

nas entranhas da criação. Deus é a liberdade

acorrentada ao pulso dos aflitos.

 

Adão e Eva no Jardim do Éden

(Jan Brueghel, o Jovem: pintor flamengo)

 

Referência:

 

CARVALHO, Francisco. Árvore mística. In: __________. Girassóis de barro. Fortaleza, CE: Universidade Federal do Ceará & Casa José de Alencar (Programa Editorial), 1997. p. 182. (Coleção ‘Alagadiço Novo’)

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