Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Ana Cristina Cesar - A poesia pode me esperar?

Primeiramente, neste poema de Cristina Cesar, surge o tema da tradução – e, muito particularmente, o da tradução de poesia –, para a qual a poetisa prepara um curso em meio ao burburinho na casa de sua mãe: se Pound lhe faz “censuras” a respeito, talvez seja pelas dificuldades em formular, no texto em elaboração, algo que se pareça à indistinção criativa entre a adaptação das versões do poeta e crítico norte-americano e as suas composições originais.

 

Depois, no âmbito da pura praxe com que se propõe a redigir os seus próprios trabalhos, Cristina Cesar descobre-se “supersticiosíssima”, pois que, se possui ‘insights’ acerca do que lhe vem à mente, logo sente-se tolhida se vier a escrever ou a falar a respeito, sinalizando aos leitores as provas pelas quais passa qualquer autor antes de se expressar a contento, tanto mais em razão dos contratempos despertados pelos quase intransponíveis contrafortes da incomunicabilidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ana Cristina Cesar

(1952-1983)

 

A poesia não pode esperar?

 

Estou preparando o curso de tradução e Pound

faz censuras. A casa de mamãe é uma pensão.

Não consigo falar nem escrever fluentemente (assim

parece). Aula de ginástica:

desfazer o rosto. Tocar nas órbitas. Recuar

do ponto constante de tensão. Descolar a

pele. Depois de estudar folheio este caderno

cheia de superstições. Descubro que sou

supersticiosíssima:

(se escrever ou disser não sai).

Estou ocupada. Outros tantos. Agudo.

 

13.6.83

 

Calíope: musa da poesia épica

(outra versão)

(Charles Meynier: pintor francês)

 

Referência:

 

CESAR, Ana Cristina. A poesia pode me esperar? In: __________. Ana Cristina Cesar. Organização, apresentação e notas de Armando Freitas Filho; ensaio de Silviano Santiago. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2004. p. 88. (Coleção “Novas Seletas”)

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