Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 12 de setembro de 2021

Halina Poświatowska - não tenho a antiga ternura pelo meu corpo

Contrariamente ao vocativo de Lamartine (1790-1869), o tempo não suspende o seu voo, motivo por que a poetisa polonesa já começa a perceber os seus efeitos sobre o corpo, esse “animal de carga” povoado por pensamentos, tais como “pássaros assustados” que dele se alimentam, exigindo cuidados extras de sua proprietária.

O corpo serve de termômetro para mediarmos nossa existência no mundo, e quando ele começa a ressoar em tom menor é porque seus músculos e tendões vão aos poucos perdendo o tônus e a beleza, muitas vezes sob o efeito de um notório estado de agitação – vide caso em comento –, como poeira a danificar-lhe a plasticidade dos movimentos físicos e mentais.

J.A.R. – H.C.

 

Halina Poświatowska

(1935-1967)

 

nie mam dawnej czułości dla mojego ciała

 

nie mam dawnej czułości dla mojego ciała

jednak je toleruję jak pociągowe zwierzę

które jest pożyteczne chociaż wymaga wielu starań

dostarcza bólu i radości i bólu i radości

czasem zastyga z rozkoszy

a czasem jest schronieniem dla snu

znam jego korytarze kręte

wiem którędy przychodzi zmęczenie

jakie ścięgna napina śmiech

i pamiętam jedyny smak łez tak podobny

do smaku krwi

moje myśli – stado trwożnych ptaków

karmią się na zagonie mego ciała

nie mam dla niego dawnej czułości

ale czuję ostrzej niż przedtem

że sięgam nie dalej niż moje wyciągnięte ręce

i nie wyżej niż mogą mnie unieść wspięte palce u nóg

 

Oda do rąk (1966)

 

Ninfa chorando

(Jean-Jacques Henner: pintor francês)

 

não tenho a antiga ternura pelo meu corpo

 

não tenho a antiga ternura pelo meu corpo

mas o tolero como um animal de carga

que é útil apesar de exigir muitos cuidados

e traz dor e alegria e dor e alegria

às vezes fica imóvel de tanto prazer

e às vezes serve de abrigo ao sono

conheço os seus corredores sinuosos

sei por qual deles chega o cansaço

e quais tendões o riso estica

e lembro do gosto único de lágrimas

tão parecido com o de sangue

os meus pensamentos – um bando de pássaros assustados

eles alimentam-se do campo do meu corpo

não tenho para ele a antiga ternura

mas sinto mais forte do que antes

que não alcanço nada além das minhas mãos esticadas

e nada acima daquilo ao qual me levantam as pontas

dos meus pés

 

Ode para as mãos (1966)


Referência:

POŚWIATOWSKA, Halina. nie mam dawnej czułości dla mojego ciała / não tenho a antiga ternura pelo meu corpo. Tradução de Magdalena Nowinska. In: NOWINSKA, Magdalena. Jeszcze jedno wspomnienie / Mais uma lembrança. (n.t.) Revista Literária em Tradução. Florianópolis, SC. Edição bilíngue semestral, ano 1, n. 1, set. 2010. Em polonês: p. 61; em português: p. 72. Disponível neste endereço. Acesso em: 31 jul. 2021.

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