Num cinema mudo, preparado basicamente para divertir o telespectador,
ninguém conseguiu feitos maiores do que o inglês Charlie Chaplin. E dos
personagens por ele criados, nenhum marcou mais profundamente a audiência do
que Carlitos, o vagabundo sensível, com maneiras e gestos excêntricos, cujos
principais timbres eram o bigode, a bengala e os enormes sapatos.
E Carlitos foi mestre para muitos: deu ensejo a um longo e belíssimo
poema do mineiro Carlos Drummond de Andrade – “Canto ao homem do povo Charlie
Chaplin” (quem não se lembraria dos versos finais: “Ó Carlito, meu e
nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e de
esperança.”) –, inserto no inesquecível “A Rosa do Povo” (1945), como também à homenagem,
ora postada, do grande poeta e tradutor paulista. Boas recordações da
infância...
J.A.R. – H.C.
José Paulo Paes
(1926-1998)
O Poeta e seu Mestre
Tiro da sua cartola
repleta de astros,
mil sobrenaturais
paisagens de
infância.
Sua bengalinha
queima os ditadores,
destrói as muralhas
libertando os anjos.
Calço seu sapato
e eis que percorro
a branca anatomia
de pássaros e flores
Repito seus gestos
de amor e renúncia,
de música ou luta,
de solidariedade.
Carlitos!
Teu bigode é a ponte
que nos liga ao sonho
e ao jardim tão
perto.
Carlitos
(Charles Chaplin:
1889-1977)
Referência:
PAES, José Paulo. O poeta e seu mestre.
In: __________. Poemas reunidos. São
Paulo, SP: Cultrix, 1961. p. 114-115. (Coleção ‘Letras Brasileiras’)
❁
Nenhum comentário:
Postar um comentário