Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 28 de setembro de 2019

John Koethe - A Idade da Ansiedade

Quando a idade avança tornamo-nos mais serenos e capazes de belas reflexões sobre a vida: a idade da ansiedade a que se refere o poeta diz respeito a um determinado momento de sua vida pessoal, quando se vê às voltas com a criação de poemas que lhe ficam aprisionados, a refletirem coisas tantas vezes já ouvidas, mas que, aparentemente, não repercutem na audiência, certamente pouco atenta.

A despeito de tudo, as experiências passadas não possuem o condão de nos definir para sempre – e parece que é contra isso que o poeta se debate e se torna ansioso, esperando dar contornos diferenciados à vida, de modo a permitir vazão, em seus poemas, de sentimentos e, talvez, de pensamentos que muitas vezes teimam em não se converter em palavras.

J.A.R. – H.C.

John Koethe
(n. 1945)

The Age of Anxiety

isn’t an historical age,
But an individual one, an age to be repeated
Constantly through history. It could be any age
When the self-absorbing practicalities of life
Are overwhelmed by a sense of its contingency,
A feeling that the solid body of this world
Might suddenly dissolve and leave the simple soul
That’s not a soul detached from tense and circumstance,
From anything it might recognize as home.
I like to think that it’s behind me now, that at my age
Life assumes a settled tone as it explains itself
To no one in particular, to everyone. I like to think
That of those “gifts reserved for age,” the least
Is understanding and the last a premonition of the
Limits of the poem that’s never done, the poem
Everyone writes in the end. I see myself on a stage,
Declaiming, as the golden hour wanes, my long apology
For all the wasted time I’m pleased to call my life –
A complacent, measured speech that suddenly turns
Fretful as the lights come up to show an empty theater
Where I stand halting and alone. I rehearse these things
Because I want to and I can. I know they’re quaint,
And that they’ve all been heard before. I write them
Down against the day when the words in my mouth
Turn empty, and the trap door opens on the page.

In: “The Swimmer” (2016)

Amarelo, Vermelho, Azul
(Wassily Kandinsky: artista russo)

A Idade da Ansiedade

não é uma idade histórica,
Mas individual, uma idade a se repetir
Constantemente ao longo da história.
Poderia ser qualquer idade
Em que os aspectos práticos da vida, absorventes por si mesmos,
São dominados pelo sentido de sua contingência,
Uma sensação de que o corpo sólido deste mundo
Poderia repentinamente se dissolver, deixando singela a alma,
Que não é uma alma desapegada do tempo e das circunstâncias,
De qualquer coisa que possa reconhecer como lar.
Gosto de pensar que ela agora está atrás de mim, que em minha idade
A vida assume um tom estável, já que não se deslinda
Para ninguém em particular, senão para todos. Gosto de pensar
Que dos “regalos reservados à idade”, o menos importante
É a compreensão e, o derradeiro, uma premonição dos
Limites do poema que nunca se fez, o poema
Que todos escrevem ao final. Vejo-me num palco, declamando,
Enquanto se desvanece a hora dourada, minhas longas escusas
Por todo o tempo perdido que me compraz chamar minha vida –
Um discurso complacente e ponderado que repentinamente se torna
Agitado quando as luzes se acendem para mostrar um teatro vazio
Onde estou quedo e sozinho. Ensaio essas coisas
Porque quero e posso. Sei que são esquisitas,
E que todas elas já antes foram ouvidas. Escrevo-as
Contra o dia em que as palavras em minha boca
Tornam-se vazias, e o postigo se abre sobre a página.

Em: “O Nadador” (2016)

Referência:

KOETHE, John. The age of anxiety. In: TRETHEWEY, Natasha (Guest Editor); LEHMAN, David (Series Editor). The best american poetry: 2017. New York, NY: Schibner Poetry, sep.2017. p. 71. (“The Best American Poetry” series; Simon & Schuster)

Nenhum comentário:

Postar um comentário