Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Nelson Ascher - Mais dia menos dia

Os versos breves do poema se estendem desde os contratempos pelos quais quotidianamente passamos na vida atribulada das cidades – atrasos, esperas, momentos que se esvaem em engarrafamentos, filas e desgastes capazes de gerar improdutividade –, até aqueles que estão arraigados em nosso tempo biológico, dessincronizado pelo efeito de emoções somatizadas.

 

Mais dia menos dia, o corpo e a mente cobram o preço pelo estresse, o qual, aliás, nem tem o condão de tornar as coisas melhores – porque, pelo efeito substituição, se a alguma necessidade tem-se que dar maior atenção e desvelo, outras tantas ficarão pelo meio do caminho ou, quando muito, serão solucionadas transversalmente – empurradas para debaixo do tapete! Eis aí um corolário da segunda lei da termodinâmica: a entropia do universo sempre aumenta!

 

J.A.R. – H.C.

 

Nelson Ascher

(n. 1958)

 

Mais dia menos dia

 

Coágulos de perda

de tempo, adiamento,

atraso e espera, ou seja,

minúsculas metástases

 

de caos se interpõem entre

– irrelevante qual

dos dois corre na frente –

a tartaruga e Aquiles

 

(o débito na conta;

no trânsito, a demora;

um ácido no estômago;

frente ao correio, a fila;

 

o mofo no tecido;

nos músculos, a inércia;

cupins na biblioteca;

sob o tapete, o lixo;

 

um óxido no ferro;

nas pálpebras, o sono)

e, como que aderindo,

à guisa de entropia,

 

ao âmago dos nervos,

embotam mais um pouco

o ritmo do arraigado

relógio biológico.

 

Em: “Algo de sol” (1996)

 

Tic Toc Talk Talk

(Jacque Hudson: pintora norte-americana)

 

Referência:

 

ASCHER, Nelson. Mais dia menos dia. In: ASCHER, Nelson et al. Poetas na biblioteca: antologia. São Paulo, SP: Fundação Memorial da América Latina, 2001. p. 15.

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