Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Elizabeth Bishop - Brasil, 1º de Janeiro de 1502

Bishop relembra, neste poema, o momento em que os portugueses, ao navegarem pela costa leste do continente recém-descoberto, depararam com uma baía que imaginaram ser um grande rio e o nomearam a partir da quadra em fruição – Rio de Janeiro –, passando a reivindicá-lo como parte de seu império.

Observe-se que Bishop se utiliza de uma epígrafe extraída a uma obra do grande historiador de arte inglês Kenneth Clark, a saber, “Landscape into Art” (“Paisagem na Arte”), de 1949, com o objetivo de evidenciar o quanto da percepção do ocidente em relação à região tem a ver com a estética então em voga, plena de representações previamente tipificadas, com formulações simbólicas próprias.

Ao olhar da poetisa, a paisagem tropical do Rio assoma em sua magnitude, densidade e variedade: citam-se as folhas gigantes, samambaias monstruosas, flores com nenúfares imensos, sem que haja um centímetro quadrado carente de folhagem, tudo mesclado por cores que abarcam o amplo espectro da paleta.

Na tentativa de mostrar como poetas de vários idiomas e épocas descrevem coisas e lugares, movo-me entre muitas vidas, rostos e indumentárias, a cada vez identificando-me com um personagem; e salto no tempo e na geografia. Assim, quanta distância há entre a China e o Brasil (*), tal como era à época em que não tinha esse nome, quando os primeiros brancos desembarcaram em suas costas e ocorreu um enfrentamento entre a civilização católica romana e a natureza, com sua sensualidade demoníaca e inocente, bem assim com o povo de lá, “selvagens”, “filhos da natureza”. Ou talvez esse choque seja como o representamos – nós e Elizabeth Bishop, que, ademais, viveu muito tempo no Brasil e descreveu uma paisagem por ela muito bem conhecida (MILOSZ, 1998, p. 121).

J.A.R. – H.C.

Elizabeth Bishop
(1911-1979)

Brazil, January 1, 1502
… embroidered nature… tapestried landscape.
Landscape into Art, by Sir Kenneth Clark

Januaries, Nature greets our eyes
exactly as she must have greeted theirs:
every square inch filling in with foliage –
big leaves, little leaves, and giant leaves,
blue, blue-green, and olive,
with occasional lighter veins and edges,
or a satin under leaf turned over;
monster ferns
in silver-gray relief,
and flowers, too, like giant water lilies
up in the air – up, rather, in the leaves –
purple, yellow, two yellows, pink,
rust red and greenish white;
solid but airy; fresh as if just finished
and taken off the frame.

A blue-white sky, a simple web,
backing for feathery detail:
brief arcs, a pale-green broken wheel,
a few palms, swarthy, squat, but delicate;
and perching there in profile, beaks agape,
the big symbolic birds keep quiet,
each showing only half his puffed and padded,
pure-coloured or spotted breast.
Still in the foreground there is Sin:
five sooty dragons near some massy rocks.
The rocks are worked with lichens, gray moonbursts
splattered and overlapping,
threatened from underneath by moss
in lovely hell-green flames,
attacked above
by scaling-ladder vines, oblique and neat,
“one leaf yes and on leaf no” (in Portuguese).
The lizards scarcely breathe; all eyes
are on the smaller, female one, back-to,
her wicked tail straight up and over,
red as red-hot wire.

Just so the Christians, hard as nails,
tiny as nails, and glinting,
in creaking armor, came and found it all,
not unfamiliar:
no lovers’ walks, no bowers,
no cherries to be picked, no lute music,
but corresponding, nevertheless,
to an old dream of wealth and luxury
already out of style when they left home –
wealth, plus a brand-new pleasure.
Directly after Mass, humming perhaps
L’ Homme armé or some such tune,
they ripped away into the hanging fabric,
each out to catch an Indian for himself –
those maddening little women who kept calling,
calling to each other (or had the birds waked up?)
and retreating, always retreating, behind it.

Mata reduzida a carvão
(Félix-Émile Taunay: pintor francês)

Brasil, 1º de Janeiro de 1502

...natureza bordada... paisagem de tapeçaria.
Landscape into Art, Sir Kenneth Clark

Janeiros, a Natureza se revela
a nossos olhos como revelou-se aos deles:
inteiramente recoberta de folhagem –
folhas grandes, pequenas, gigantescas,
azuis, verde-azulado, verde-oliva,
aqui e ali um veio ou borda mais claros,
ou um dorso de folha acetinado;
samambaias monstruosas
em relevo cinza-prata,
e flores, também, como vitórias-régias imensas
no céu  – melhor, no meio das copas –
roxas, rosadas, dois tons de amarelo,
vermelho-ferrugem e branco esverdeado;
sólidas mas aéreas; frescas como se recém-pintadas
e retiradas das molduras.

Céu de um branco azulado, tela simples,
pano de fundo para plumas detalhadas:
arcos breves, roda incompleta, verde-claro,
palmeiras escuras, atarracadas, mas sutis;
e, pousadas, em perfil, bicos vem abertos,
as grandes aves simbólicas se calam,
cada uma exibindo meio peito apenas,
intumescido e acolchoado, liso ou com pintas.
Ainda em primeiro plano, o Pecado:
cinco dragões negros junto a umas pedras grandes.
São pedras ornadas de liquens, explosões lunares
cinzentas, superpostas uma à outra,
ameaçadas de baixo pelo musgo
em lindas chamas verde-inferno,
atacadas do alto
por trepadeiras como escadas, oblíquas, perfeitas,
“uma folha sim, outra não” (como se diz em português).
Os lagartos mal respiram: os olhos todos
se fixam no menor, a fêmea, de costas,
a cauda maliciosa levantada sobre o corpo,
vermelha como um fio em brasa.

E foi assim que os cristãos, duros e pequenos
como pregos de ferro, e reluzentes,
como armaduras a ranger, encontraram uma cena que já era
de certo modo familiar:
nem alamedas suaves, caramanchões,
cerejeiras carregadas nem alaúdes,
mas assim mesmo algo que lembrava
um sonho antigo de riqueza e luxo
já saindo de moda lá na Europa –
riqueza, e mais um prazer novinho em folha.
Logo depois da missa, talvez cantarolando
L’Homme armé ou outro tema assim,
enlouquecidos, rasgaram a tapeçaria
e cada um foi atrás de uma índia –
aquelas mulherezinhas irritantes
gritando uma pra outra (ou foram as aves que acordaram?)
e se embrenhando, se embrenhando no desenho.

Nota:

(*). Neste ponto, Czeslaw Milosz refere-se ao que se pode constatar na continuidade de sua obra, mencionada no campo de referências: o poema anterior ao de Bishop, transcrito na antologia, pertence ao poeta chinês Po Chü-i (Bai Juyi) (772-846), a saber, “Madly Singing in the Mountains” (“Cantando Loucamente nas Montanhas”) (MILOSZ, 1998, p. 120).

Referências:

BISHOP, Elizabeth. Brazil, january 1, 1502 / Brasil, 1º de janeiro de 1502. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. Edição bilíngue. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012. Em inglês: p. 222 e 224; em português: p. 223 e 225.

MILOSZ, Czeslaw (Ed.). A book of luminous things: an international anthology of poetry. 1st. ed. New York, NY: Houghton Mifflin Harcourt, 1998.

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