Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 10 de junho de 2018

Hermann Hesse - Reflexão ‎

Os versos iniciais desta “reflexão” muito se parecem com linhas preambulares de alguns poemas de Goethe e Hölderlin: há neles certo humanismo inspirado por preceitos religiosos, ou melhor, por máximas da sabedoria dos cristãos paulinos, e – muito especulativamente de minha parte – da doutrina mística e filosófica do taoísmo.

É o sagrado que perpassa as ideias e sugestões de Hesse, para quem a natureza parece-se a uma manifestação concreta de Deus, sua alma, o eterno que acolhe a história inteira da humanidade. E não só o lado mais luminoso de suas conquistas, senão também as vulnerabilidades, logros, indignidades – os “pecados”, como se costuma invocar.

J.A.R. – H.C.

Hermann Hesse
(1877-1962)

Besinnung

Göttlich ist und ewig der Geist.
Ihm entgegen, dessen wir Bild und Werkzeug sind,
Führt unser Weg; unsre innerste Sehnsucht ist:
Werden wie er, leuchten in seinem Licht!

Aber irden und sterblich sind wir geschaffen,
Träge lastet auf uns Kreaturen die Schwere.
Hold zwar und mütterlich warm umhegt uns Natur,
Säugt uns Erde, bettet uns Wiege und Grab;
Doch befriedet Natur uns nicht,
Ihren Mutterzauber durchstößt
Des unsterblichen Geistes Funke
Väterlich, macht zum Manne das Kind.
Löscht die Unschuld und wendet uns zu Kampf
und Gewissen.

So zwischen Mutter und Vater,
So zwischen Leib und Geist
Zögert der Schöpfung gebrechlichstes Kind.
Zitternde Seele Mensch, des Leidens fähig
Wie kein anderes Wesen, und fähig des Höchsten:
Gläubiger, hoffender Liebe.
Schwer ist sein Weg, Sünde und Tod seine Speise,
Oft verirrt er ins Finstre, oft wär ihm
Besser, niemals erschaffen zu sein.
Ewig aber strahlt über ihm seine Sehnsucht,
Seine Bestimmung: das Licht, der Geist.
Und wir fühlen: ihn, den Gefährdeten,
Liebt der Ewige mit besonderer Liebe.

Darum ist uns irrenden Brüdern
Liebe möglich noch in der Entzweiung,
Und nicht Richten und Haß,
Sondern geduldige Liebe,
Liebendes Dulden führt
Uns dem heiligen Ziele näher.

(1933)

Canção do Paraíso
(Graham Hancock: pintor inglês)

Reflexão

Divino e eterno é o Espírito.
A ele, de que somos imagem e instrumento,
leva o Caminho: nosso mais profundo anelo
é tornarmo-nos ele, em sua luz brilharmos.

Porém, terrestres e mortais que somos,
sobre nós – as criaturas – inerte cai o peso.
Em verdade propícia e maternal a Natureza cálida
cuida de nós, aleita-nos a terra, prepara-nos o berço
e a sepultura...
mas não nos apazigua
– paternalmente vara-lhe o materno encanto
a imorredoura centelha do Espírito:
paternalmente faz do filho um homem,
apaga a inocência e nos acorda para a luta e a consciência.

Assim entre mãe e pai,
assim entre corpo e Espírito,
vacila o filho mais frágil da Criação
– homem de alma tremente, afeito ao sofrimento
qual nenhum outro ser, e afeito ao mais sublime:
o mais crédulo e esperançoso amor.
Dureza é seu caminho, pecado e morte o seu alimento;
muitas vezes vagueia pela treva, muitas vezes seria para ele
melhor não ter sido criado nunca.
Mas eterno sobre ele fulgura o seu anelo,
seu propósito: a luz, o Espírito.
E sentimos que a ele, ao desgraçado,
ama o Eterno com especial amor.

Por isso, a nós, erradios irmãos,
cabe, talvez mesmo na desavença, o amor;
não julgamento e ódio,
mas paciente amor.
A aceitação amorosa nos leva
mais perto do sagrado objetivo.

(1933)

Referências:

Em Alemão

HESSE, Herman. Besinnung. In: __________. Die gedichte. 2. Auflage. Zürich, CH: Fretz & Wasmuth Verlag Ag. Zürich, 1942. s. 376-377.

Em Português

HESSE, Hermann. Reflexão. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, jan. 1976. p. 175-176.

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