Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 12 de junho de 2018

David Mourão-Ferreira - Ars Poetica ‎

Ao tentar interpretar este ensaio alusivo ao que seja a arte poética para o autor português, ficou-me a impressão de que Mourão vê a poesia como uma criação que se arrebata à natureza pelo poeta, uma espécie de Narciso a refletir nos versos a sua própria imagem, em relação incestuosa que traz a lume não só a expressividade do verbo, como também algo mais do que a simples pureza do rosto refletida no espelho d’água.

Veja-se que Mourão recorre à companhia da lendária figura de Orfeu, o talentoso médico e também poeta da mitologia grega, para dispô-lo na posse da mão esquerda dos que se lançam à arte do poema, levando-os, por intermédio da outra mão, a revolver o lodo presente no fundo poço – essa matéria orgânica que é a substância mesma do poema.

J.A.R. – H.C.

David Mourão-Ferreira
(1927-1996)

Ars Poetica

Roubado à natureza o dossier secreto
Patente a analogia entre o fundo do poço
o rosto de Narciso   o sangue do incesto
há-de tudo prender-se   aereamente solto
Que o verbo seja um espelho   Ao mesmo tempo um véu
Que não baste   no lago   a pureza do rosto
A lira é com certeza a mão esquerda de Orfeu
Mas é a mão direita a que revolve o lodo

Em: “Do Tempo ao Coração: 1962-1966”

Orfeu tocando a sua lira
(Benedetto Gennari I: pintor italiano)

Referência:

MOURÃO-FERREIRA, David. Ars poetica. In: __________. Obra poética. 2º Volume. Lisboa, PT: Livraria Bertrand, jan. 1980. p. 31.

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