Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 3 de junho de 2018

Arménio Vieira e Silva - Tu Poema ‎

O poeta dirige-se ao próprio poema, para fazê-lo ir ao encontro dos pretensos destinatários do outro lado da fronteira – os poetas sociais e aqueles que têm a si próprios como tema, todos à busca de originalidade –, com o objetivo de lhes contar sobre os contratempos da geração que, deste lado, faz correr a pena em versos sem originalidade, num quotidiano desafortunado.

Contudo, posso crer que, em tais casos, o ato de escrever poemas é, mormente, um compromisso de resistência: o poeta desapega-se – e, com ele, também o leitor –, da passividade intolerável rumo à atividade criadora, empenhando-se na continuidade dessa linguagem capaz de converter o idílio na mais palpável realidade, tudo por amor à literatura!

J.A.R. – H.C.

Arménio Vieira e Silva
(n. 1941)

Tu Poema

vazio
inerte ...
segue um qualquer caminho
e conta aos outros
(do outro lado da fronteira)
a Esfinge-muralha
tapando as portas das casas
e o resto das coisas
que em silêncio padecemos.
Vai e diz-lhes
que a Vida
não é eventualmente estar-mordendo
esta manga-podre (casualmente
vindo ter à minha boca).
Vai e fala
à “Juventude inquieta
corajosamente procurando um caminho
intensamente vivendo os problemas do seu tempo”
e diz-lhes
como é a nossa juventude
diz-lhes como tu és
como eu sou
como nós somos...
Vai e fala aos poetas
(do outro lado do mundo)
aos poetas sociais
e aos poetas que falam de si
– todos buscando a originalidade para os seus poemas –
Vai e diz-lhes
como tu és nu e sem ti e sem ninguém
como eu sou inerte
e reduzido à miséria
das minhas vinte-e-quatro-horas
como nós somos
sem originalidade... (tu o sabes)
Vai e diz!

(Praia - Cabo Verde)

Perigo: construção à frente
(Katherine Linn Sage: pintora norte-americana)

Referência:

VIEIRA E SILVA, Arménio. Tu poema. In: ANDRADE, Garibaldino de; COSME, Leonel (Dir.). Mákua 1: antologia poética. Sá da Bandeira, AO: Publicações Imbondeiro; Gráfica da Huila Ltda., 1962. p. 24-25.

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