Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 4 de junho de 2018

François Coppée - Junho ‎

Estamos agora em junho e o poeta alude ao fato de que, na natureza – e o homem não deixa de tomar parte nela –, é durante este ensejo que os pássaros fazem ninhos e buscam parceiro(a)s para gerar rebentos: é a vida que providencia os próprios meios para que ela perdure no tempo.

No que tange ao projeto de Coppée, regressa ele à notícia de que sua amada já partira há alguns meses e o seu bosquejo ficou incompleto, motivo pelo qual o compara à um ninho que o tufão arrebatou, atirando à terra os ovos que eram fruto e promessa de continuidade.

J.A.R. – H.C.

François Coppée
(1842-1908)

Juin

Dans cette vie ou nous ne sommes
Que pour un temps si tôt fini,
L’instinct des oiseaux et des hommes
Sera toujours de faire un nid;

Et d’un peu de paille ou d’argile
Tous veulent se construire, un jour,
Un humble toit, chaud et fragile,
Pour la famille et pour l’amour.

Par les yeux d’une fille d’Ève
Mon coeur profondément touché
Avait fait aussi ce doux rêve
D'un bonheur étroit et caché.

Rempli de joie et de courage,
A fonder mon nid je songeais;
Mais un furieux vent d’orage
Vient d'emporter tous mes projets;

Et sur mon chemin solitaire
Je vois, triste et le front courbé,
Tous mes espoirs brisés à terre
Comme les oeufs d’un nid tombé.

Junho Glorioso
(Gill Bustamante: pintora inglesa)

Junho

No curso ligeiro e breve
Desta vida, o passarinho
E o homem sempre o instinto teve (*)
De fabricar o seu ninho.

Um pouco de argila ou palha
Buscam e fazem o teto,
Que, humilde e quente agasalha
Sua prole e seu afeto.

Por um olhar feminino
Tocada, sonhou minh’alma
No amor, embalar-se no hino
Da ventura ignota e calma.

De fabricar, jubiloso,
Meu ninho tive o desejo,
Mas um tufão impetuoso
Varreu-me o tênue bosquejo.

Sobre meu triste caminho
Meus sonhos vejo tombados,
Como os ovos que de um ninho
Caem por terra quebrados.

(10 de maio de 1881)

Nota:

(*). Percebe-se que a regência do verbo neste verso, s.m.j., resultou falha, no momento em que a ideia do original foi reescrita em português, quando o correto seria “No curso ligeiro e breve desta vida, o passarinho e o homem sempre o instinto tiveram de fabricar o seu ninho”, mantido o hipérbato, a despeito da intenção explícita dos tradutores em forjar rima com o primeiro verso da estrofe.

Note-se que a tradução literal do original em francês conjuga o verbo na terceira pessoa do singular, pois se reporta à palavra “instinto”, assim: “Nesta vida em que apenas estamos por um tempo tão prontamente findo, o instinto dos pássaros e dos homens sempre será fazer um ninho”.

Por conseguinte, talvez os poetas brasileiros chegassem a um resultado menos duvidoso se redigissem da seguinte maneira a versão: “No curso ligeiro e breve desta vida, do passarinho e do homem sempre o instinto teve de fabricar-lhes o ninho”.

Referência:

COPPÉE, François. Juin / Junho. Tradução de Raimundo Correia e Valentim Magalhães. In: ‎‎__________. Poesias completas de Raimundo Correia. Vol. II. Organização, prefácio e notas de Múcio Leão. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, ‎‎1948. Em francês: p. 452; em português: p. 377.

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