Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 7 de abril de 2018

Antero de Quental - Evolução

Quem ao ler este poema de Quental não teria percebido, como este comentador, a clara conexão temática com outro poema, de mesmo título, já aqui postado, de autoria do escritor e diplomata brasileiro Múcio Teixeira?! E fiquei a perguntar-me se Múcio não sofrera a influência direta do vate lusitano, haja vista que o seu poema é datado de 1909, momento em que Antero já havia falecido.

Do reino mineral ao animal, e de animal a homem – passo mais adiantado da evolução –, enquanto criatura dotada de livre-arbítrio e de ponderações éticas e consequencialistas, sabendo discernir, em sua liberdade de ação, entre os frutos do bem e do mal. Alguma alusão bíblica nessa narrativa?! (rs)

J.A.R. – H.C.

Antero de Quental
(1842-1891)

Evolução

(A Santos Valente)

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo...

Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Aviação: evolução das formas
sob limitações aerodinâmicas
(Arshile Gorky: pintor armênio-americano)

Elucidário:

Urze – designação dada a várias plantas arbustivas da família das ericáceas;
Giesta – designação dada a várias plantas arbustivas da família das fabáceas;
Paul – pântano, terreno alagado com água estagnada;
Glauco – esverdeado;
Pascigo – pasto.

Referência:

QUENTAL, Antero. Evolução. In: __________. Sonetos. Selecção e apresentação de Ana Maria Almeida Martins. 1. ed. Lisboa, PT: Editorial Presença, dez. 1996. p. 61. (“Centro de Estudos Anterianos”)

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