Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 21 de junho de 2016

Stéphane Mallarmé - O túmulo de Charles Baudelaire

Mallarmé presta aqui um tributo enigmático – para não dizer obscuro – a seu conterrâneo Baudelaire, da mesma forma que o dispensou ao escritor e poeta norte-americano Allan Poe, neste outro soneto.

Suas alusões se tornam meio ambíguas em razão de que não há pontuação – à exceção, é claro, do ponto final – para conceder recurso sintático ao poema, o que muito contribuiria para a sua correta interpretação pelo leitor.

O relevo que Mallarmé confere às imagens do túmulo, sob o duplo auspício de Anubis e da prostituta, parece evocar a fragrância sedutora e mortal das “flores do mal”, verdadeiros rubis que emergem dos humores do lodo.

J.A.R. – H.C.

Stéphane Mallarmé
(1842-1898)

Le tombeau de Charles Baudelaire

Le temple enseveli divulgue par la bouche
Sépulcrale d’égout bavant boue et rubis
Abominablement quelque idole Anubis
Tout le museau flambé comme un aboi farouche

Ou que le gaz récent torde la mèche louche
Essuyeuse on le sait des opprobres subis
Il allume hagard un immortel pubis
Dont le vol selon le réverbère découche

Quel feuillage séché dans les cités sans soir
Votif pourra bénir comme elle se rasseoir
Contre le marbre vainement de Baudelaire

Au voile qui la ceint absente avec frissons
Celle son Ombre même un poison tutélaire
Toujours à respirer si nous en périssons.

Representação de Anubis

O túmulo de Charles Baudelaire

O templo tumular divulga em sepulcral
Boca de esgoto as gotas de lodo e rubis
Abominavelmente algum ídolo Anubis(*)
Todo o focinho a arder como um uivo brutal

Ou que o gás novo aviva a mecha trivial
Submissa a opróbrios sabe-se uma meretriz
Ele acende selvagem um imortal púbis
Cujo voo entre lâmpadas é sensual

Que louros a secar em vilas sem poente
Votivos vão benzer como ela põe-se ausente
Inútil frente ao mármore de Baudelaire

No véu que vibra e a ela ausente a envolver
Aquela a Sombra dele um vírus protetor
Por sempre a respirarmos até no estertor.

Túmulo de Baudelaire
(Cemitério de Montparnasse: Paris)

Nota do Tradutor:

(*) Anubis: antigo deus egípcio, com o corpo de homem e cabeça de chacal. Era quem presidia os sepulcros.

Referência:

MALLARMÉ, Stéphane. Le tombeau de Charles Baudelaire / O túmulo de Charles Baudelaire. Tradução de José Lino Grünewald. In: __________. Stéphane Mallarmé: poemas. Tradução e notas de José Lino Grünewald. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2015. Em francês: p. 34; em português: p. 35. (Coleção “Saraiva de bolso”)

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