Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Mário Faustino - Balada

Uma balada que bem poderia ter um designativo de elegia. Um poema selecionado, por José Nêumanne Pinto, entre os mais significativos da obra do poeta piauiense Mário Faustino, justificando as razões pelas quais o escolheu para compor a seleta lista dos cem melhores poetas brasileiros do século XX. Eis aí do que trata a postagem de hoje.

De fato, belo em sua dramaticidade. Afinal, um ato terminativo contra a própria vida jamais poderá ser considerado natural. Mas os contrafortes intransponíveis levantados pela própria mente, lança o suicida numa luta de difícil avaliação por quem não a está experimentando. Luta sem perspectivas de vitória, inglória. E um voo para a liberdade, ainda que tardia.

J.A.R. – H.C.

Mário Faustino
(1930-1962)

Balada

(Em memória de um poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!


Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.

O Suicida
(Édouard Manet: pintor francês)

Referência:

FAUSTINO, Mário. Balada. In: __________. O homem e sua hora e outros poemas. Pesquisa e organização de Maria Eugenia Boaventura. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 135-136. (Série ‘Companhia de Bolso’)

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