Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Hermann Hesse - O Poeta

Este poema, homônimo a um outro de Hesse que aqui já postamos, configura um autorretrato do poeta, ao falar dos momentos e das circunstâncias em que a poesia lhe aflora.

Ao perscrutá-lo, muito o associei a passagens de Nietzsche, em especial do clássico “Assim Falou Zaratustra”, quando replica vezes sem conta a sua máxima, vale dizer, “Só louco, só poeta”. Apenas Hesse agregou uma terceira classe ao grupo dos que veem os estados do mundo de um modo diferenciado: as crianças, a quem a deusa também “emprestou seu véu”.

J.A.R. – H.C.

Hermann Hesse
(1877-1962)

O Poeta

À noite, eu muitas vezes não consigo dormir:
a vida dói.
Fico então a brincar com as palavras,
com as boas e as más,
com as gordas e as magras,
e vou nadando pelo espelho do mar delas.
Longínquas ilhas surgem com azuis palmeiras,
da praia sopra um vento perfumado,
na praia um menino cata conchinhas de várias cores,
banha-se em verde cristal uma mulher cor de neve.
Como no mar arrepiam-se as cores,
em minha alma flutuam sonhos-versos:
gotejam de prazer, enrijecem de luto,
bailam, correm, dispersam-se perdidos,
enrolam-se em palavras conformados com essa vestimenta,
interminavelmente vão trocando de som, forma e semblante,
parecem antiquíssimos e contudo cheios de inconsistência,
A maioria das pessoas não entende:
dão por loucura os sonhos e me dão por perdido
– e assim me veem mercadores, jornalistas, professores.
Crianças e mulheres muitas, de outro lado,
sabem de tudo e me amam como eu a elas,
pois também elas estão vendo o caos dos aspectos do mundo
e a elas também a deusa emprestou seu véu.

O Poeta Pobre
(Carl Spitzweg: pintor alemão)

Referência:

HESSE, Hermann. O poeta. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1976. p. 142.

Nenhum comentário:

Postar um comentário