Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 28 de outubro de 2018

João Guimarães Rosa - Gargalhada

De um livro de poemas anterior a suas grandes obras – como “Sagarana” (1946) ou “Grande Sertão: Veredas” (1956) –, nomeadamente “Magma”, de 1936, este poema já permitia antever a capacidade criativa de Rosa, tratando o tema da separação como uma “tortura predestinada”, razão de se ter rido internamente de toda a cena, ainda que já com os olhos a lagrimar.

É o efeito a contrário senso daquela composição dos anos 90, interpretada pela cantora Tetê Espíndola, de autoria do esposo Arnaldo Black e de Carlos Rennó, a afirmar que ela e o amado juntaram-se por um amor que “estava escrito nas estrelas”, um “caso do acaso bem marcado em cartas de tarô”.

Diferenças entre as hipóteses?: a separação predestinada de Rosa pertence à noite dos tempos, quando a inexperiência dos Deuses ainda não havia criado o mundo. Então o que terá ocorrido? Quando se tornaram experientes, os Deuses criaram o mundo e deixaram, sem querer, a predestinação correndo solta? Ou os Deuses, mesmo na inexperiência, criaram o mundo e, de forma deliberada, deixaram a “tortura predestinada” virar um atropelo nos pensamentos e sentimentos dos amantes, permitindo-nos concluir, se verdadeira tal hipótese, que os Deuses seriam sádicos?! Mas percebamos no que deu: o escritor-poeta se ri disso tudo. Seria ele algo masoquista?! (rs)

J.A.R. – H.C.

João Guimarães Rosa
(1908-1967)

Gargalhada

Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos.
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...

A Separação
(Edvard Munch: pintor norueguês)

Referência:

ROSA, João Guimarães. Gargalhada. In: __________. Magma. Desenhos de Poty. 2. reimpressão. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1997. p. 91.

sábado, 27 de outubro de 2018

#EleNão: Mais algumas máximas de um tosco candidato a Presidente da República na Câmara de Deputados

13.8.2003 – BOLSONARO: DEFENSOR DA PENA DE MORTE, DA LAQUEADURA E DA VASECTOMIA PARA OS POBRES PARA NÃO GERAREM FILHOS
(Aqui, nas pág. 37962)

O SR. JAIR BOLSONARO (PTB -AJ. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, desde que a política de direitos humanos chegou ao País a violência só aumentou e passou a ocupar grandes espaços nos jornais. A marginalidade tem estado cada vez mais à vontade, tendo em vista os neoadvogados para defendê-Ia.
Quero dizer aos companheiros da Bahia – há pouco ouvi um Parlamentar criticar os grupos de extermínio que enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro.
Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu Estado só as pessoas inocentes são dizimadas. Na Bahia, pelas informações que tenho – lógico que são grupos ilegais -, a marginalidade tem decrescido.
Meus parabéns!
Outra questão que quero enfatizar é que o País não pode discutir a diminuição da fome, da miséria e da violência se não discutirmos antes uma rígida política de controle da natalidade. Chega de vaselina, de baboseira, de falar em educação, em saúde, porque esta não é a nossa realidade primeira. Não vamos atingir nossos objetivos se não atacarmos o descontrole da natalidade.
Agora há pouco uma Parlamentar do PT estava dizendo que um jovem, numa escola dessas de recuperação, agradeceu porque não mais cheirava e agora já sabia escrever o seu nome.
Ora, Sr. Presidente, demagogia barata igual a essa é uma vergonha para o Parlamentar! Não é porque uma pessoa sabe ler e escrever que está livre da marginalidade. Temos de adotar urgentemente, sim, contra tudo e contra todos os defensores de direitos humanos, uma rígida política de controle da natalidade.
Chega de não darmos meios para evitar que casais coloquem no mundo mais crianças que não terão a mínima condição de cidadania no futuro.
Tenho uma proposta modesta: a liberação da laqueadura e da vasectomia para todos os maiores de 18 anos.
Espero ter o apoio dos meus pares. Talvez seja verdadeiramente o primeiro passo para o fim da miséria e da violência em nosso País.
16.9.2011 – BOLSONARO: HOMOFÓBICO, MACHISTA E RACISTA
(Aqui, entre as págs. 4 e 13)

Dirigindo-se à Senadora da República Marinor Brito:
“Ela agrediu! Ela bateu em mim. E eu sou homofóbico? Ela é heterofóbica. Não pode ver um heterossexual na frente dela que alopra! Já que está difícil ter macho por aí, eu estou me apresentando como macho e ela aloprou. Não pode ver um heterossexual na frente. Ela deu azar duas vezes: uma que sou casado e outra que ela não me interessa. É muito ruim, não me interessa”.

Em questionamento da cantora Preta Gil:
“– Se o seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”
A resposta do Deputado Jair Bolsonaro foi:
“Ó Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. E meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.
Verifica-se na resposta do Deputado ora representado uma correlação direta entre a mulher negra e promiscuidade. Esta correlação, por si, despida de quaisquer relativizações hermenêuticas, revela a prática do crime de racismo.
11.12.2014 – BOLSONARO: O POTENCIAL ESTUPRADOR
(Aqui, entre as págs. 44 e 45)

O SR. PRESIDENTE (Amauri Teixeira) – Concedo a palavra ao Deputado Domingos Dutra.
O SR. DOMINGOS DUTRA (SD-MA. Pela ordem. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, venho a esta tribuna manifestar a minha solidariedade à companheira Maria do Rosário diante da boçalidade que o Bolsonaro proferiu ontem desta tribuna, diante da covardia desse Parlamentar que reincide nas agressividades às autoridades desta tribuna.
Quero manifestar minha solidariedade lendo um artigo de Ricardo Noblat produzido hoje nos seguintes termos: “Bolsonaro, que se diz capaz de estuprar, ofende uma Deputada e merece ser cassado”.
“O que falta para que os partidos entrem no Conselho de Ética da Câmara com um pedido de abertura de processo para cassar o mandato e os direitos políticos de Bolsonaro?
O Deputado Jair Bolsonaro não é apenas um falastrão como querem seus amigos. Nem apenas um bronco como reconhecem alguns dos seus colegas. É um sujeito indecente, obsceno e, com frequência, indecoroso.
Admiradores e desafetos dele na Câmara costumam fazer de conta que não ouvem seus insultos. Procedem assim alegando que confrontar Bolsonaro é fazer o seu jogo. Ele ganha votos quando se torna pivô de polêmicas.
Só que há limite para tudo. E Bolsonaro, na tarde de ontem, ultrapassou todos os limites. Se ainda houver um mínimo de vergonha na Câmara, será instalado um processo no Conselho de Ética para cassar o mandato de Bolsonaro.
Menos do que isso será compactuar com ele.
A Deputada Maria do Rosário, ex-Ministra dos Direitos Humanos, foi gravemente ofendida por Bolsonaro.
Mas não somente ela, também todas as pessoas de bom senso que tomaram conhecimento do episódio.”
Vou pular uma frase e seguir mais um pouco no artigo que considero muito importante do articulista Ricardo Noblat.
Em 2003, sem que nada tenha lhe acontecido, Bolsonaro disse a mesma frase e, e seguida, empurrou Maria do Rosário, chamando-a de vagabunda.
A reação da deputada foi enérgica, mas por si só não esgota a questão.
– Não me dirigi a esse senhor – disse Maria do Rosário –, tenho o direito de trabalhar. Peço à Mesa Diretora da Câmara que o mantenha distante e que ele não use meu nome. Não aceitarei. Talvez em alguns locais de tortura, (sic) essas palavras são (sic) típicas de quem fala em tortura.
No exercício do mandato, os Parlamentares são imunes a processos. É o que determina a lei. Mas nem por isso eles podem cometer desatinos que configurem, por exemplo, a quebra do decoro parlamentar.
Luiz Estevão de Oliveira, o primeiro Senador cassado da História do Congresso brasileiro, não perdeu o mandato porque embolsou dinheiro público destinado à construção do Fórum Trabalhista da cidade de São Paulo. Perdeu porque mentiu a seus pares. Isso é quebra de decoro. (...)
Por mais horror que isso represente, Bolsonaro pode, sim, defender o uso da tortura como método para extrair confissões. Já o fez. Pode, sim, defender uma ditadura militar (...).”

Demetrius Capetanakis - Abel

A história fratricida de Caim e Abel, lavrada nas páginas bíblicas do Gênesis, contada pela perspectiva deste último: tal é o enredo deste poema, concebido por Capetanakis, poeta de origem grega, radicado em Londres, onde veio a falecer, depois de ali permanecer por pouco mais de meia década.

Abel não culpa a natureza malévola do irmão pelo ocorrido, senão a ambiguidade das coisas, dando margem a que nossas vidas apresentem significação nas imediações da morte, bem assim o amor muito perto esteja do ódio. Conclui o poeta: “Sou o meu irmão a abrir o portão”, pelo que infiro tratar-se do portão que dá acesso ao outro lado da existência.

J.A.R. – H.C.

Demetrius Capetanakis
(1912-1944)

Abel

 

My brother Cain, the wounded, liked to sit

Brushing my shoulder, by the staring water

Of life, or death, in cinemas half-lit

By scenes of peace that always turned to slaughter.

 

He liked to talk to me. His eager voice

Whispered the puzzle of his bleeding thirst,

Or prayed me not to make my final choice

Unless we had a chat about it first.

 

And then he chose the final pain for me.

I do not blame his nature: he’s my brother;

Nor what you call the times: our love was free,

Would be the same at any time; but rather

 

The ageless ambiguity of things,

Which makes our life mean death, our love be hate.

My blood that streams across the bedroom sings

“I am my brother opening the gate.”


Caim e Abel
(Orazio Riminaldi: pintor italiano)

Abel

 

Meu irmão Caim, o repulso, costumava sentar-se

Roçando-me o ombro, olhando fixamente a água

Da vida ou da morte, em cines meio iluminados

Por cenas de paz que logo viravam massacre.

 

Ele gostava de falar comigo. Sua ansiosa voz

Sussurrava o enigma de sua sede sangrenta,

Ou implorava-me que não fizesse a opção final

Antes que primeiro conversássemos a respeito.

 

E logo escolheu o desfecho doloroso para mim.

Não culpo a natureza dele, pois éramos irmãos;

Nem as contingências: livre era o nosso amor,

Seria o mesmo em qualquer situação. Mas, antes,

 

A eterna ambiguidade das coisas, que dá causa

A que nossa vida denote morte, e o amor, ódio.

Meu sangue que se espalha pelo quarto canta:

“Eu sou o meu irmão que escancara o portão!”


Referência:

CAPETANAKIS, Demetrius. Abel. In: RODMAN, Selden (Ed.). An new anthology of modern poetry. New York, NY: Random House Inc., 1946. p. 418. (“The Modern Library”)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

#EleNão: Avaaz – Mais fake news (notícias falsas) da campanha de Bolsonaro


1. As urnas eletrônicas NÃO foram fraudadas!

No dia da eleição, um homem filmou uma urna eletrônica dizendo que ela estava fraudada, e mostrava automaticamente Haddad quando se pressionava o número 1. O governo, a Justiça e os meios de comunicação de todos os lados políticos mostraram que o vídeo foi manipulado. Veja você mesmoVejaUOLTSEG1Valor Econômico.




2. Haddad NÃO distribuiu “kit gay” para crianças nas escolas

Nem uma única escola JAMAIS recebeu um chamado "kit gay" porque eles não existem! O que foi chamado de “kit gay” foi um conjunto de materiais destinados a ensinar as crianças sobre a homofobia, criado quando Haddad era Ministro da Educação. Não se tratava de tornar as crianças gays, mas de combater a violência contra crianças gays. Aqui está parte do materialVeja você mesmoG1Valor EconômicoHuffpost.


 

3. Revistas VEJA e Época NÃO receberam R$ 600 milhões para difamar Bolsonaro

Tudo começou no YouTube, com a deputada federal eleita Joice Hasselmann espalhando descaradamente uma mentira de que VEJA levou dinheiro para assediar Bolsonaro. Hasselmann nunca provou isso, nem mostrou quaisquer documentos apoiando sua alegação. No final, foi apenas uma teoria da conspiração. Veja você mesmoO AntagonistaThe Intercept BrasilEl País.



 

4. Haddad NÃO convidou Jean Wyllys para ser Ministro da Educação

Alguém criou uma versão falsa do site G1, da Globo para espalhar essa história que se tornou viral! Nunca houve nenhum registro em lugar algum de Haddad dizendo isso, nenhuma citação, nenhum vídeo, nada. Veja você mesmoG1FolhaEstadãoValor EconômicoO GloboPiauíUOL.



 

5. Feministas e grupos anti-Bolsonaro NÃO defecaram OU fizeram sexo dentro de igrejas evangélicas

Todas as imagens usadas nessas histórias estão amplamente fora de contexto. A imagem de mulheres protestando seminuas em frente a uma igreja - algo a que muitos de nós poderíamos realmente nos opor - aconteceu em 2013 e não tem nada a ver com Bolsonaro. E, veja só, as imagens usadas de pessoas fazendo sexo dentro da igreja sequer são do Brasil, mas da Noruega! Veja você mesmoAos FatosÉpocaBoatos.org.



 

6. Haddad e Manuela NÃO estavam conspirando contra o exército e Bolsonaro – e nunca existiu um áudio secreto!

Uma mensagem de áudio editada se tornou viral no WhatsApp dizendo que existia uma “chamada telefônica secreta” entre os candidatos do PT. O aúdio verdadeiro era, na REALIDADE, uma entrevista que Haddad deu em conjunto para o UOL, Folha e SBT, e Manuela sequer estava lá. A mulher na gravação? A entrevistadora! Veja você mesmo, leia as notícias e, melhor ainda, assista o vídeo real aquiEstadão; G1.



7. Haddad NÃO escreveu um livro encorajando incesto e pedofilia!

O escritor Olavo de Carvalho publicou em suas redes sociais que Haddad encorajava sexo entre pais e filhos em um livro seu, "Em defesa do socialismo: por ocasião dos 150 anos do manifesto" (1998). Comprova, um grupo de 23 veículos de mídia, leu o livro e disse: "Não há citações sobre incesto ou relações que rompam dogmas do relacionamento familiar tradicional na obra." Veja você mesmoProjeto ComprovaG1Poder 360Folha de S. Paulo.

#EleNão: 11 razões (da Dilma) para não votar nele e mais 2 para completar o 13

Para os que pretendem trocar um PHD por um ex-militar expulso das forças armadas, que passou quase 30 (trinta) anos falando asneiras na Câmara de Deputados – aliás, como as muitas mentiras que a sua campanha tem propalado até aqui, enganando pessoas incautas, muitas delas humildes e de poucos recursos, que com ele nada têm a ganhar –, transcrevo abaixo ótimas razões para esquecê-lo e trocá-lo no próximo domingo para que possamos manter em pé a nossa democracia já tão assediada com os eventos políticos ocorridos nos últimos três anos.

J.A.R. – H.C.

 

01. Bolsonaro declarou que vai prender ou expulsar do país quem fizer oposição ao seu governo. Chegou a anunciar que fará o candidato adversário – Fernando Haddad – “apodrecer na cadeia”. Também disse que, se for presidente, tratará os movimentos sociais que lutam por terra e moradia como grupos terroristas.

02. Apoiou abertamente a volta da ditadura militar, a tortura e o assassinato de opositores. São suas estas declarações “Eu sou favorável à tortura, tu sabe (sic) disso”, e “o erro da ditadura foi torturar e não matar” – como se assassinatos políticos não tivessem acontecido naquele período.

03. Silenciou quando seu filho, detentor de mandato parlamentar, disse há dois meses num vídeo que basta “um soldado e um cabo” para fechar o STF, caso o tribunal imponha alguma restrição à vitória do pai.

04. Aproveitou-se de centenas de milhões de mensagens via whatsapp com fake news e ataques difamatórios contra os adversários, em serviço ilegal pago por empresários que o apoiam.

05. Acumulou uma longa lista de atos de machismo e afronta às mulheres, ao manifestar-se a favor de salários maiores para os homens (“porque as mulheres engravidam”), votando contra os direitos trabalhistas às empregadas domésticas e, no momento mais chocante de sua agressividade chula, dizendo a uma parlamentar: “não te estupro porque você não merece”.

06. Defendeu a esterilização forçada das mulheres pobres, para que não tenham mais filhos.

07. Adotou uma retórica preconceituosa contra pobres, nordestinos e brasileiros que precisam de apoio do Estado – para ele, gente protegida pelo “coitadismo”.

08. Xingou os eleitores que não votam nele, acusando-os de ir às urnas com “título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso”.

09. Estimulou, com sua intolerância, uma parte de seus seguidores e cometer todo o tipo de violência contra homens, mulheres, idosos, negros e LGBTs. Muita gente tem sido agredida e há mortes registradas, como Moá do Catendê, em Salvador, e o garçom de um bar, em Porto Alegre.

10. Foi condenado por racismo ao afirmar, em palestra, que conheceu “um quilombola que pesava sete arrobas e que não serve nem para procriar”.

11. Tornou-se, na prática, uma continuidade de Temer, o presidente mais impopular da história, embora engane o eleitor se dizendo o candidato contra o sistema.

12. O discurso dele é um convite ao conflito permanente dentro da sociedade brasileira, que se verá afastada de um convívio civilizado, com respeito às diferenças, já que será o embate do “nós” contra todos os que não pensem como “eles”, num sectarismo que somente quem conhece o fascismo poderá valorar melhor.

13. O que dirá uma pessoa sensata sobre o poder de interlocução de um candidato que não se dispôs a debater propostas com o seu adversário – certamente porque não as tem, em absoluto, dado o vazio que preenche a sua massa cefálica –, simplesmente agredindo de forma gratuita as pessoas que apresentam pontos de vista que, felizmente, não se parecem com os seus, sempre a revelar absoluta pobreza de espírito!

Série “A” 2018 – Fim da 30ª Rodada – Projeções do Modelo Esotérico-Matemático (MEM)

Apresento aqui as projeções do MEM, faltando apenas 8 (oito) rodadas para o fim: o Palmeiras, agora, aparece como o principal candidato ao título, com 76 pontos, seguindo pelo Flamengo – cujo desempenho melhorou nas últimas 5 (cinco) rodadas –, com 73.

Ao final dos quadros de probabilidades, calculadas por sites especializados, inseri um último comparativo, no qual se apresentam projeções de pontos ao final do certame, para três distintas hipóteses, a saber:

Hipótese I: a considerar que os times terão resultados – vitória, empate e derrota – semelhantes aos que obtiveram contra os mesmos 8 (oito) adversários que enfrentarão doravante;

Hipótese II: a considerar que os times manterão as médias de pontos obtidos jogando dentro e fora de casa, em todo o campeonato, até o presente momento;

Hipótese III: a considerar que os times manterão as médias de pontos obtidos jogando dentro e fora de casa, nas últimas 10 (dez) rodadas.

Nota-se que, a julgar por tais conjecturas, o Palmeiras chegará ao título, assim como o projetam as métricas do MEM.

Na parte de baixo, no denominado Z4, uma certeza – o Paraná – e uma quase certeza (rs) – o Sport.

Veremos o que nos esperam as próximas rodadas...

J.A.R. – H.C.

Fontes:


Thomas Hardy - Acaso

Tema que repetidas vezes retorna na ficção e na poesia de Hardy, a aparente aleatoriedade do acaso, capaz de nos colocar sob a alçada da fortuna ou do infortúnio, deixa transparecer, a seu ver, a ausência de um plano divino para os homens, não se podendo acreditar em um deus benevolente ou malévolo, de quem seríamos como que meras briguelas autômatas.

Vemos, então, a contingência e a imprevisibilidade a braços dados com o tempo, para ensejar genuínos problemas, capazes de acarretar má sorte e tribulações, às quais Hardy se submete em resignada amargura, reconhecendo-as imerecidas, do que se infere que contemplava a vida como uma jornada sob o signo da dor e do sofrimento, sem que se possa conhecer das razões que presidem os fatos.

J.A.R. – H.C.


Thomas Hardy
(1840-1928)

Hap

 

If but some vengeful god would call to me

From up the sky, and laugh: “Thou suffering thing,

Know that thy sorrow is my ecstasy,

That thy love’s loss is my hate’s profiting!”

 

Then would I bear it, clench myself, and die,

Steeled by the sense of ire unmerited;

Half-eased in that a Powerfuller than I

Had willed and meted me the tears I shed.

 

But not so. How arrives it joy lies slain,

And why unblooms the best hope ever sown?

– Crass Casualty obstructs the sun and rain,

And dicing Time for gladness casts a moan...

These purblind Doomsters had as readily strown

Blisses about my pilgrimage as pain.

 

(1866)

 

In: “Wessex poems and other verses”


Concerto em companhia de uma quiromante
(Valentin de Boulogne: pintor francês)

Acaso

 

Se ao menos do alto me chamasse um deus

De ódio, e risse: “Ó homem coisa-dor,

Teu sofrimento é o júbilo dos céus,

Teu deve-amor é o meu haver-rancor”,

 

Eu me conformaria, indo ao extremo

De não dobrar-me, réu de juiz verdugo,

Mas orgulhoso que um poder supremo

Me obrigasse a gemer sob o seu jugo.

 

Mas não. Mal nata, a Alegria já é Morte,

E num ofego a Esperança se afoga;

Brinca de sol e chuva o tempo, e joga

Dados trocados com meu crepe a Sorte.

 

Tais juízes viciados são bem loucos:

Condenam-me a viver, mas pouco, e aos poucos.

 

(1866)

 

Em: “Poemas de Wessex e outros versos”


Referências:

Em Inglês

HARDY, Thomas. Hap. In: __________. The collected poems of Thomas Hardy. Introduction, bibliography and glossary by Michael Irwin. Ware, EN: Wordsworth Editions, 2002. p. 7. (“Wordsworth Poetry Library”)

Em Português

HARDY, Thomas. Acaso. Tradução de Décio Pignatari. In: PIGNATARI, Décio. Poesia, pois é, poesia: 1950-1975 & Poetc.: 1976-1986. São Paulo, SP: Brasiliense, 1986. p. 248.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Eduardo White - Não faz mal

Que poder de associação entre a poesia – vista aqui como um pássaro que, por óbvio, alça voos em qualquer altura – e o poema que a encerra nas palavras! Diz-nos o poeta moçambicano que não é justo encerrar um pássaro onde ele não possa voar, do que se deduz que o poema tem que ser capaz de, também, acompanhar os adejos da poesia.

E quando, numa atmosfera mágica, diáfana, poema e poesia conjugam-se em ritmo e melodia, para contemplar em imagens e metáforas outras tantas dimensões da realidade, então temos o supremo da “ars poetica”, a refletir toda a profundidade anímico-espiritual do ser humano.

J.A.R. – H.C.

Eduardo White
(1963-2014)

Não faz mal

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso conosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.

Meninas com pássaro e gaiola
(James Sant: pintor inglês)

Referência:

WHITE, Eduardo. Não faz mal. In: DÁSKALOS, Maria Alexandre; APA, Livia; BARBEITOS, Arlindo (Orgs.). Poesia africana de língua portuguesa: antologia. Rio de Janeiro, RJ: Lacerda Editores, 2003. p. 244.