Num mundo que, mais lenta
ou rapidamente, muda de forma irreversível, tudo contribui para a desconexão
entre o humano e o divino, tanto mais que, com o acirramento do processo de
secularização, enredamo-nos num quotidiano estressante, no qual a beleza do entorno
e os momentos particularmente inspirados não logram despertar verdadeiras epifanias
ou disposição para agir – quer por não nos sobrar suficiente energia, quer por simples
falta de vontade. Tornamo-nos, assim, observadores passivos, apáticos, sem
apetite para vislumbrar significados ou propósitos em nossas existências.
E isso vale, em particular, para os poetas, agora um pouco desorientados nessa galáxia de desencantos, ainda que desilusões, desditas e adversidades sejam uma constante ao longo da história. Não é sem razão que a poesia, entre impasses e tribulações, segue sendo um meio de resistência contra o vazio, um recurso a empregar onde quer que haja beleza e sentidos por desvelar!
J.A.R. – H.C.
Mark Strand
(1934-2014)
The History of Poetry
Our masters are gone
and if they returned
Who among us would
hear them, who would know
The bodily sound of heaven
or the heavenly sound
Of the body, endless
and vanishing, that tuned
Our days before the
wheeling stars
Were stripped of
power? The answer is
None of us here. And
what does it mean if we see
The moon-glazed
mountains and the town with its silent doors
And water towers, and
feel like raising our voices
Just a little, or
sometimes during late autumn
When the evening
flowers a moment over the western range
And we imagine angels
rushing down the air’s cold steps
To wish us well, if
we have lost our will,
And do nothing but
doze, half hearing the sighs
Of this or that
breeze drift aimlessly over the failed farms
And wasted gardens?
These days when we waken,
Everything shines
with the same blue light
That filled our sleep
moments before,
So we do nothing but
count the trees, the clouds,
The few birds left;
then we decide that we shouldn’t
Be hard on ourselves,
that the past was no better
Than now, for hasn’t
the enemy always existed,
And wasn’t the church
of the world always in ruins?
In: “The Continuous
Life” (1990)
Uma manhã ensolarada
(Augusto Wall
Callcott: pintor inglês)
A História da Poesia
Nossos mestres se
foram e, se regressassem,
Quem de nós os escutaria,
quem reconheceria
o corpóreo som do céu
ou o celeste som
Do corpo, interminável
e evanescente, que dava sintonia
Aos nossos dias antes
que as estrelas orbitantes
Fossem destituídas de
poder? A resposta é:
Nenhum dos aqui
presentes. E qual o significado a deduzir
Se vemos as montanhas
sob um lustro lunar e o povoado
com as suas
silenciosas vias de acesso
E elevatórias de água,
e sentirmos vontade de levantar um pouco
A voz? Ou se, vez por
outra, durante o fim do outono,
Quando a noite se
expande por um momento sobre a serrania
a oeste
E imaginamos anjos em
descida pelos frios degraus do firmamento
Para nos desejar o
melhor, tivermos perdido a vontade
E não fizermos mais
do que dormitar, um tanto a ouvir os suspiros
De uma ou outra brisa
vagueando sem rumo sobre as quintas falidas
E os devastados jardins?
Hoje em dia, quando acordamos,
Tudo brilha com a
mesma luz azul
Que nos cumulou o
sono momentos antes.
Por isso não fazemos
mais do que contar as árvores, as nuvens,
Os poucos pássaros
que restam; depois decidimos que não há razão
Para sermos duros
conosco mesmos, que o passado não foi melhor
Do que agora; afinal,
porventura, o inimigo não existiu
desde sempre
E há muito o templo
do mundo não se encontra em ruínas?
Em: “A Vida Contínua”
(1990)
Referência:
STRAND, Mark. The
history of poetry. In: __________. New selected poems. New York, NY:
Alfred A. Knopf, 2007. p. 182.
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