Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Mark Strand - A História da Poesia

Num mundo que, mais lenta ou rapidamente, muda de forma irreversível, tudo contribui para a desconexão entre o humano e o divino, tanto mais que, com o acirramento do processo de secularização, enredamo-nos num quotidiano estressante, no qual a beleza do entorno e os momentos particularmente inspirados não logram despertar verdadeiras epifanias ou disposição para agir – quer por não nos sobrar suficiente energia, quer por simples falta de vontade. Tornamo-nos, assim, observadores passivos, apáticos, sem apetite para vislumbrar significados ou propósitos em nossas existências.

 

E isso vale, em particular, para os poetas, agora um pouco desorientados nessa galáxia de desencantos, ainda que desilusões, desditas e adversidades sejam uma constante ao longo da história. Não é sem razão que a poesia, entre impasses e tribulações, segue sendo um meio de resistência contra o vazio, um recurso a empregar onde quer que haja beleza e sentidos por desvelar!

 

J.A.R. – H.C.

 

Mark Strand

(1934-2014)

 

The History of Poetry

 

Our masters are gone and if they returned

Who among us would hear them, who would know

The bodily sound of heaven or the heavenly sound

Of the body, endless and vanishing, that tuned

Our days before the wheeling stars

Were stripped of power? The answer is

None of us here. And what does it mean if we see

The moon-glazed mountains and the town with its silent doors

And water towers, and feel like raising our voices

Just a little, or sometimes during late autumn

When the evening flowers a moment over the western range

And we imagine angels rushing down the air’s cold steps

To wish us well, if we have lost our will,

And do nothing but doze, half hearing the sighs

Of this or that breeze drift aimlessly over the failed farms

And wasted gardens? These days when we waken,

Everything shines with the same blue light

That filled our sleep moments before,

So we do nothing but count the trees, the clouds,

The few birds left; then we decide that we shouldn’t

Be hard on ourselves, that the past was no better

Than now, for hasn’t the enemy always existed,

And wasn’t the church of the world always in ruins?

 

In: “The Continuous Life” (1990)

 

Uma manhã ensolarada

(Augusto Wall Callcott: pintor inglês)

 

A História da Poesia

 

Nossos mestres se foram e, se regressassem,

Quem de nós os escutaria, quem reconheceria

o corpóreo som do céu ou o celeste som

Do corpo, interminável e evanescente, que dava sintonia

Aos nossos dias antes que as estrelas orbitantes

Fossem destituídas de poder? A resposta é:

Nenhum dos aqui presentes. E qual o significado a deduzir

Se vemos as montanhas sob um lustro lunar e o povoado

com as suas silenciosas vias de acesso

E elevatórias de água, e sentirmos vontade de levantar um pouco

A voz? Ou se, vez por outra, durante o fim do outono,

Quando a noite se expande por um momento sobre a serrania

a oeste

E imaginamos anjos em descida pelos frios degraus do firmamento

Para nos desejar o melhor, tivermos perdido a vontade

E não fizermos mais do que dormitar, um tanto a ouvir os suspiros

De uma ou outra brisa vagueando sem rumo sobre as quintas falidas

E os devastados jardins? Hoje em dia, quando acordamos,

Tudo brilha com a mesma luz azul

Que nos cumulou o sono momentos antes.

Por isso não fazemos mais do que contar as árvores, as nuvens,

Os poucos pássaros que restam; depois decidimos que não há razão

Para sermos duros conosco mesmos, que o passado não foi melhor

Do que agora; afinal, porventura, o inimigo não existiu

desde sempre

E há muito o templo do mundo não se encontra em ruínas?

 

Em: “A Vida Contínua” (1990)

 

Referência:

 

STRAND, Mark. The history of poetry. In: __________. New selected poems. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2007. p. 182.

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