Milano rende tributo
ao gênio de Camões, afirmando que aquele que deseje imitar os seus versos,
primeiro deve imitar a intensidade de seu amor – um amor que, mais do que
experimentado na realidade, vivenciado fantasiosamente na imaginação e no pensamento
–, a sua capacidade para sentir e expressar as mais profundas paixões através
da poesia.
Esse “alto respirar”
prescinde de razões objetivas, sendo o motor primeiro da inspiração de que se
vale o vate maior da língua portuguesa para criar uma conjuntura própria, tão afeita
à arte das palavras, não simplesmente demonstrada pela perícia técnica, senão também
– e principalmente – pela capacidade de apreender e expressar o que há de mais
sublime nesse “fogo que arde sem se ver”.
J.A.R. – H.C.
Dante Milano
(1899-1991)
Homenagem a Camões
Através do imitado
sentimento,
Ao ler-te, quanta vez
tenho sentido
Como é muito maior o
amor vivido
Em ato não, mas só em
pensamento.
Então invento o que
amo e amo o que invento,
Em coisas sem razão
tão comovido
Que o ar me falta e o
respiro comprimido
Não sei se dá, não
sei se tira o alento.
Sabor de amor é esse
alto respirar,
Essa angústia em
suspiros mal dispersos.
Em amor, que
importância tem o ar,
O ar, cheio de
fantásticas ações!
Assim, aquele que
imitar teus versos,
Primeiro imite o teu
amor, Camões.
(Poema da série “Sonetos
e Fragmentos”)
Luís Vaz de Camões
(c. 1524-1580)
(Gravura de François Gérard)
Referência:
MILANO, Dante. Homenagem a Camões. In: __________. Poesias. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1948. p. 35.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário