A voz poética, num
misto de chiste e desafio, descerra um acerbo comentário que se dirige ao parceiro
masculino, a quem censura por haver perseguido incondicionalmente os valores da
perfeição, racionalidade e eficiência impostos pelo progresso tecnológico, sem
ponderar sobre as externalidades que provocam sobre a sua autenticidade, a sua conexão
imediata à natureza e a sua própria humanidade.
Segundo a falante,
essa criatura estranha e artificial, quase alienígena, com limitadas
sensibilidade e intuição, apresenta certa desconexão entre a mente e o corpo,
entre o pensamento e a ação: se, por um lado, mantém relações fragmentadas,
utilitárias e desprovidas de profundidade emocional, por outro – como correlato
inevitável! –, suas intervenções no mundo, submetidas à fria lógica
quantitativa, ocorrem segundo parâmetros que desconsideram quaisquer ponderações
que digam respeito ao equilíbrio do meio ambiente.
Ou por outra: um ser
que, se funciona, está a anos-luz de qualquer programa que o leve a operar segundo
critérios de otimização para o mundo natural! (rs)
J.A.R. – H.C.
Margaret Atwood
(n. 1939)
He is a strange
biological phenomenon
Like eggs and snails
you have a shell
You are widespread
and bad for the
garden,
hard to eradicate
Scavenger, you feed
only on dead meat:
Your flesh by now
is pure protein,
smooth as gelatin
or the slick bellies
of leeches
You are sinuous and
without bones
Your tongue leaves
tiny scars
the ashy texture of
mildewed flowers
You thrive on smoke;
you have
no chlorophyll; you
move
from place to place
like a disease
Like mushrooms you
live in closets
and come out only at
night.
You want to go back
to where the sky was
inside us
animals ran through
us, our hands
blessed and killed
according to our
wisdom, death
made real blood come
out
But face it, we have
been
improved, our heads float
several inches above
our necks
moored to us by
rubber tubes and
filled with
clever bubbles,
our bodies
are populated with
billions
of soft pink numbers
multiplying and
analyzing
themselves,
perfecting
their own demands, no
trouble to anyone.
I love you by
sections and when you
work.
Do you want to be
illiterate?
This is the way it
is, get used to it.
Lesmas na faia
(Alisa Munro: artista
inglesa)
Ele é um estranho
fenômeno biológico
Como ovos e caracóis
você tem uma casca
Você é disperso
e mau para o jardim,
ruim de erradicar
Escaravelho, você se
alimenta
somente de carniça:
Sua carne a esta
altura
é pura proteína,
suave como gelatina
ou a barriga viscosa
das lesmas
Você é sinuoso e sem
ossos
Sua língua deixa
pequenas cicatrizes
a textura cinzenta de
flores mofadas
Você desabrocha na
fumaça; você não tem
nenhuma clorofila;
você se move
de um lugar a outro
como uma doença
Como os cogumelos
você vive em armários,
e só sai à noite.
Você quer voltar
para onde o céu
estava dentro de nós
animais corriam entre
nós, nossas mãos
abençoadas e matavam
de acordo com a nossa
sabedoria, a morte
fez o verdadeiro
sangue jorrar
Contudo encare, nós
temos
melhorado, nossa
cabeça flutua
vários centímetros
acima de nosso pescoço
ancorado em nós por
tubos de borracha e
cheio de
bolhas inteligentes,
nosso corpo
é povoado com bilhões
de números rosados
macios
multiplicando e
analisando
a si mesmo,
aperfeiçoando
suas próprias
necessidades, sem problemas para ninguém.
Eu amo você por
partes e quando você
funciona.
Você quer ser
analfabeto?
É assim que é,
acostume-se com isso.
Referência:
ATWOOD, Margaret. He
is a strange biological phenomenon / Ele é um estranho fenômeno biológico.
Tradução de Stephanie Borges. In: __________. Políticas de poder:
poemas. Introdução de Jan Zwicky. Tradução de Stephanie Borges. Edição
bilíngue: inglês x português. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2020. Em
inglês: p. 32 e 34; em português: p. 33 e 35.
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