Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Margaret Atwood - Ele é um estranho fenômeno biológico

A voz poética, num misto de chiste e desafio, descerra um acerbo comentário que se dirige ao parceiro masculino, a quem censura por haver perseguido incondicionalmente os valores da perfeição, racionalidade e eficiência impostos pelo progresso tecnológico, sem ponderar sobre as externalidades que provocam sobre a sua autenticidade, a sua conexão imediata à natureza e a sua própria humanidade.

 

Segundo a falante, essa criatura estranha e artificial, quase alienígena, com limitadas sensibilidade e intuição, apresenta certa desconexão entre a mente e o corpo, entre o pensamento e a ação: se, por um lado, mantém relações fragmentadas, utilitárias e desprovidas de profundidade emocional, por outro – como correlato inevitável! –, suas intervenções no mundo, submetidas à fria lógica quantitativa, ocorrem segundo parâmetros que desconsideram quaisquer ponderações que digam respeito ao equilíbrio do meio ambiente.

 

Ou por outra: um ser que, se funciona, está a anos-luz de qualquer programa que o leve a operar segundo critérios de otimização para o mundo natural! (rs)

 

J.A.R. – H.C.

 

Margaret Atwood

(n. 1939)

 

He is a strange biological phenomenon

 

Like eggs and snails you have a shell

 

You are widespread

and bad for the garden,

hard to eradicate

 

Scavenger, you feed

only on dead meat:

 

Your flesh by now

is pure protein,

smooth as gelatin

or the slick bellies of leeches

 

You are sinuous and without bones

Your tongue leaves tiny scars

the ashy texture of mildewed flowers

 

You thrive on smoke; you have

no chlorophyll; you move

from place to place like a disease

 

Like mushrooms you live in closets

and come out only at night.

 

You want to go back

to where the sky was inside us

 

animals ran through us, our hands

blessed and killed according to our

wisdom, death

made real blood come out

 

But face it, we have been

improved, our heads float

several inches above our necks

moored to us by

rubber tubes and filled with

clever bubbles,

 

our bodies

are populated with billions

of soft pink numbers

multiplying and analyzing

themselves, perfecting

their own demands, no trouble to anyone.

 

I love you by

sections and when you work.

 

Do you want to be illiterate?

This is the way it is, get used to it.

 

Lesmas na faia

(Alisa Munro: artista inglesa)

 

Ele é um estranho fenômeno biológico

 

Como ovos e caracóis você tem uma casca

 

Você é disperso

e mau para o jardim,

ruim de erradicar

 

Escaravelho, você se alimenta

somente de carniça:

 

Sua carne a esta altura

é pura proteína,

suave como gelatina

ou a barriga viscosa das lesmas

 

Você é sinuoso e sem ossos

Sua língua deixa pequenas cicatrizes

a textura cinzenta de flores mofadas

 

Você desabrocha na fumaça; você não tem

nenhuma clorofila; você se move

de um lugar a outro como uma doença

 

Como os cogumelos você vive em armários,

e só sai à noite.

 

Você quer voltar

para onde o céu estava dentro de nós

 

animais corriam entre nós, nossas mãos

abençoadas e matavam de acordo com a nossa

sabedoria, a morte

fez o verdadeiro sangue jorrar

 

Contudo encare, nós temos

melhorado, nossa cabeça flutua

vários centímetros acima de nosso pescoço

ancorado em nós por

tubos de borracha e cheio de

bolhas inteligentes,

 

nosso corpo

é povoado com bilhões

de números rosados macios

multiplicando e analisando

a si mesmo, aperfeiçoando

suas próprias necessidades, sem problemas para ninguém.

 

Eu amo você por

partes e quando você funciona.

 

Você quer ser analfabeto?

É assim que é, acostume-se com isso.

 

Referência:

 

ATWOOD, Margaret. He is a strange biological phenomenon / Ele é um estranho fenômeno biológico. Tradução de Stephanie Borges. In: __________. Políticas de poder: poemas. Introdução de Jan Zwicky. Tradução de Stephanie Borges. Edição bilíngue: inglês x português. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2020. Em inglês: p. 32 e 34; em português: p. 33 e 35.

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