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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Antonio Machado - XVI: E não é verdade, dor, eu te conheço

O poeta espanhol transmite ao leitor uma sensação de solidão e alienação existencial, expressando uma dor que não é apenas física, senão emocional, sob cujo efeito desorientador, nada obstante, entre incompreendido e marginalizado, parte em busca tenaz por algo transcendente – transcreva-se melhor –, “por Deus entre as névoas”.

 

As metáforas empregadas por Machado são bem expressivas – um barco perdido no mar, sem rumo nem esperança, idem a criança e o cão desgarrados –, e se conectam com êxito ao simbolismo das névoas como alegoria para o incerto, o obscuro e o desconhecido, verdadeiros obstáculos à obtenção de uma resposta definitiva às grandes indagações da existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Antonio Machado

(1875-1939)

 

XVI

 

Y no es verdad, dolor, yo te conozco,

tú eres nostalgia de la vida buena

y soledad de corazón sombrío,

de barco sin naufragio y sin estrella.

 

Como perro olvidado que no tiene

huella ni olfato y yerra

por los caminos, sin camino, como

el niño que en la noche de una fiesta

 

se pierde entre el gentío

y el aire polvoriento y las candelas

chispeantes, atónito, y asombra

su corazón de música y de pena,

 

así voy yo, borracho melancólico,

guitarrista lunático, poeta,

y pobre hombre en sueños,

siempre buscando a Dios entre la niebla.

 

En: “Galerías” (1907)

 

Melancolia

(Odilon Redon: pintor francês)

 

XVI

 

E não é verdade, dor, eu te conheço,

és a nostalgia da boa vida

e a solidão de um coração sombrio,

de um barco sem naufrágio e sem estrela.

 

Como um cão esquecido que não tem

nem rasto nem olfato e vagueia

pelas trilhas, sem direção; como

a criança que na noite de uma festa

 

se perde no meio da multidão

e do ar poeirento e das velas

cintilantes, atônita, e assombra

o seu coração com música e tristeza;

 

assim vou eu, bêbado melancólico,

guitarrista lunático, poeta,

e pobre homem em sonhos,

sempre à procura de Deus entre as névoas.

 

Em: “Galerias” (1907)

 

Referência:

 

MACHADO, Antonio. XVI: Y no es verdad, dolor, yo te conosco. In: __________. Soledades. Galerías. Otros poemas. Madrid, ES: Librería de Pueyo, 1907. p. 148.

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