O poeta espanhol transmite
ao leitor uma sensação de solidão e alienação existencial, expressando uma dor
que não é apenas física, senão emocional, sob cujo efeito desorientador, nada
obstante, entre incompreendido e marginalizado, parte em busca tenaz por algo transcendente
– transcreva-se melhor –, “por Deus entre as névoas”.
As metáforas
empregadas por Machado são bem expressivas – um barco perdido no mar, sem rumo
nem esperança, idem a criança e o cão desgarrados –, e se conectam com êxito ao
simbolismo das névoas como alegoria para o incerto, o obscuro e o desconhecido,
verdadeiros obstáculos à obtenção de uma resposta definitiva às grandes indagações
da existência.
J.A.R. – H.C.
Antonio Machado
(1875-1939)
XVI
Y no es verdad,
dolor, yo te conozco,
tú eres nostalgia de
la vida buena
y soledad de corazón sombrío,
de barco sin
naufragio y sin estrella.
Como perro olvidado
que no tiene
huella ni olfato y
yerra
por los caminos, sin
camino, como
el niño que en la
noche de una fiesta
se pierde entre el
gentío
y el aire polvoriento
y las candelas
chispeantes, atónito,
y asombra
su corazón de música
y de pena,
así voy yo, borracho
melancólico,
guitarrista lunático,
poeta,
y pobre hombre en
sueños,
siempre buscando a
Dios entre la niebla.
En: “Galerías” (1907)
Melancolia
(Odilon Redon: pintor
francês)
XVI
E não é verdade, dor,
eu te conheço,
és a nostalgia da boa
vida
e a solidão de um
coração sombrio,
de um barco sem
naufrágio e sem estrela.
Como um cão esquecido
que não tem
nem rasto nem olfato
e vagueia
pelas trilhas, sem direção;
como
a criança que na noite
de uma festa
se perde no meio da
multidão
e do ar poeirento e
das velas
cintilantes, atônita,
e assombra
o seu coração com
música e tristeza;
assim vou eu, bêbado
melancólico,
guitarrista lunático,
poeta,
e pobre homem em
sonhos,
sempre à procura de
Deus entre as névoas.
Em: “Galerias” (1907)
Referência:
MACHADO, Antonio. XVI: Y no es verdad, dolor, yo te conosco. In: __________. Soledades. Galerías. Otros poemas. Madrid, ES: Librería de Pueyo, 1907. p. 148.
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