Dois ex-companheiros de
escola encontram-se casualmente, depois de muitos anos, num burburinho urbano
qualquer, presos a uma rotina estressante, e encetam uma conversa algo formal e
forçada, marcada pela indiferença em relação ao que o outro lhe descreve como experiência
de vida ao longo dos anos de distanciamento – o que ilustra, num plano mais
universal, a superficialidade de grande parte das relações que mantemos com os
pares.
Embora ambos se
reconheçam de vista, nenhum dos dois se lembra do nome do outro, sugerindo o
estado de fragilidade atual do vínculo que, antes, mantiveram de modo mais
próximo: o tempo passa e muitos são levados a outras paragens, quando então
outros relacionamentos são encetados, apagando paulatinamente da lembrança os
momentos marcantes dos mais antigos.
Tal é o efeito do
desvanecimento da memória sobre a nossa capacidade de recuperar eventos e
informações específicas, tornando-os vagos e inconsistentes: quem nunca passou pela
experiência descrita no poema, ficando constrangido por não se lembrar do nome
de conhecida pessoa à nossa frente?!
J.A.R. – H.C.
Charles Reznikoff
(1894-1976)
Hail and Farewell
Waiting to cross the
avenue,
I saw a man who had
been in school with me:
we had been friendly
and now knew each other
at once.
“Hot, isn’t it,” I
said,
as if we had met only
yesterday. “It hit ninety-five.”
“O no”, he answered. “I’m
not ninety-five yet!”
Then he smiled a
little sadly and said,
“You know, I’m so
tired,
I thought for a
moment that you were talking about my age.”
We walked on together
and he asked me what I was doing.
But, of course, he
did not care.
Then, politely, I
asked him about himself
and he, too, answered
briefly.
At the stairs down to
the subway station, he said,
“I know I ought to be
ashamed of myself
but I’ve forgotten
your name.”
“Don’t be ashamed,” I
answered,
“I’ve forgotten yours,
too.”
With that we both
smiled wryly,
gave our names and
parted.
In: “By the Well of
Living and Seeing” (1969)
Encontro casual
(Kenneth Hayes Miller:
pintor norte-americano)
Salve e Adeus
Enquanto esperava
para atravessar a avenida,
vi um homem que havia
estado na escola comigo:
tínhamos sido
companheiros
e nessa ocasião nos
reconhecemos de imediato.
“Que calor, não?”, disse-lhe,
como se tivéssemos
nos conhecido ontem. “Chegou aos
noventa e cinco”. (*)
“Oh, não”, respondeu,
“ainda não cheguei aos noventa
e cinco!”
Depois sorriu um
pouco tristemente e me disse,
“Sabe, estou tão
cansado que,
por um momento,
pensei que se referia à minha idade”.
Caminhamos juntos e ele
me perguntou o que estava fazendo.
Mas, como é óbvio,
não lhe interessava.
Depois, educadamente,
fiz-lhe perguntas sobre a sua vida
e ele, também,
respondeu-me brevemente.
Nas escadas de acesso
à estação de metrô, disse-me,
“Envergonho-me em ter
que confessá-lo,
mas me esqueci do seu
nome.”
“Não tenha vergonha,
respondi-lhe,
“também me esqueci do
seu”.
Com isso, ambos
sorrimos sardonicamente,
declinamos nossos
nomes e nos despedimos.
Em: “Junto ao Poço do
Viver e do Ver” (1969)
Nota:
(*). O falante,
obviamente, faz alusão à temperatura de 95 graus Fahrenheit, o equivalente a 35
graus Celsius.
Referência:
REZNIKOFF, Charles. Hail and farewell. In: __________. The poems of Charles Reznikoff: 1918-1975. Edited by Seamus Cooney. 1st ed. Boston, MA: Black Sparrow Press, 2005. p. 259.
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