Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Charles Reznikoff - Salve e Adeus

Dois ex-companheiros de escola encontram-se casualmente, depois de muitos anos, num burburinho urbano qualquer, presos a uma rotina estressante, e encetam uma conversa algo formal e forçada, marcada pela indiferença em relação ao que o outro lhe descreve como experiência de vida ao longo dos anos de distanciamento – o que ilustra, num plano mais universal, a superficialidade de grande parte das relações que mantemos com os pares.

 

Embora ambos se reconheçam de vista, nenhum dos dois se lembra do nome do outro, sugerindo o estado de fragilidade atual do vínculo que, antes, mantiveram de modo mais próximo: o tempo passa e muitos são levados a outras paragens, quando então outros relacionamentos são encetados, apagando paulatinamente da lembrança os momentos marcantes dos mais antigos.

 

Tal é o efeito do desvanecimento da memória sobre a nossa capacidade de recuperar eventos e informações específicas, tornando-os vagos e inconsistentes: quem nunca passou pela experiência descrita no poema, ficando constrangido por não se lembrar do nome de conhecida pessoa à nossa frente?!

 

J.A.R. – H.C.

 

Charles Reznikoff

(1894-1976)

 

Hail and Farewell

 

Waiting to cross the avenue,

I saw a man who had been in school with me:

we had been friendly

and now knew each other at once.

“Hot, isn’t it,” I said,

as if we had met only yesterday. “It hit ninety-five.”

“O no”, he answered. “I’m not ninety-five yet!”

Then he smiled a little sadly and said,

“You know, I’m so tired,

I thought for a moment that you were talking about my age.”

 

We walked on together and he asked me what I was doing.

But, of course, he did not care.

Then, politely, I asked him about himself

and he, too, answered briefly.

At the stairs down to the subway station, he said,

“I know I ought to be ashamed of myself

but I’ve forgotten your name.”

“Don’t be ashamed,” I answered,

“I’ve forgotten yours, too.”

With that we both smiled wryly,

gave our names and parted.

 

In: “By the Well of Living and Seeing” (1969)

 

Encontro casual

(Kenneth Hayes Miller: pintor norte-americano)

 

Salve e Adeus

 

Enquanto esperava para atravessar a avenida,

vi um homem que havia estado na escola comigo:

tínhamos sido companheiros

e nessa ocasião nos reconhecemos de imediato.

“Que calor, não?”, disse-lhe,

como se tivéssemos nos conhecido ontem. “Chegou aos

noventa e cinco”. (*)

“Oh, não”, respondeu, “ainda não cheguei aos noventa

e cinco!”

Depois sorriu um pouco tristemente e me disse,

“Sabe, estou tão cansado que,

por um momento, pensei que se referia à minha idade”.

 

Caminhamos juntos e ele me perguntou o que estava fazendo.

Mas, como é óbvio, não lhe interessava.

Depois, educadamente, fiz-lhe perguntas sobre a sua vida

e ele, também, respondeu-me brevemente.

Nas escadas de acesso à estação de metrô, disse-me,

“Envergonho-me em ter que confessá-lo,

mas me esqueci do seu nome.”

“Não tenha vergonha, respondi-lhe,

“também me esqueci do seu”.

Com isso, ambos sorrimos sardonicamente,

declinamos nossos nomes e nos despedimos.

 

Em: “Junto ao Poço do Viver e do Ver” (1969)

 

Nota:

 

(*). O falante, obviamente, faz alusão à temperatura de 95 graus Fahrenheit, o equivalente a 35 graus Celsius.

 

Referência:

 

REZNIKOFF, Charles. Hail and farewell. In: __________. The poems of Charles Reznikoff: 1918-1975. Edited by Seamus Cooney. 1st ed. Boston, MA: Black Sparrow Press, 2005. p. 259.

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