O sujeito lírico dá-nos
conta do profundo vínculo que tem com uma castanheira, que não é apenas uma árvore,
senão também um reflexo de sua experiência de vida, de seus sentimentos, bem assim
de sua própria identidade: a castanheira assinala as estações, traduzindo-se na
forma pela qual chegam-lhe aos olhos os testemunhos dos ciclos da natureza, das
transformações havidas e da efêmera beleza que a tudo transpassa.
Do mesmo modo
encerrada nos versos, difunde-se a ideia da poesia como uma expressão da vida,
ou por outra, um refinado arranjo onde se plasmam alguns dos sentidos atribuíveis
aos elementos das estações que se sucedem, em especial as flores da castanheira,
as quais, como se versos fossem, seriam oriundas de uma força vital e anímica
no âmbito de cada ser.
J.A.R. – H.C.
Helder Macedo
(n. 1935)
Eu sabia por ela as
estações
Eu sabia por ela as
estações
os esquilos os corvos
as gaivotas.
Chegada a primavera
abria os nós
em flores
precipitadas e carnudas
de longas redondezas
tacteantes
que batiam no vidro
da janela.
Não dava fruto a
minha castanheira
e na verdade não era
sequer minha
ou só seria porque
nos olhámos
cada manhã por mais
de trinta anos.
Mas dava flores e
esquilos e gaivotas
verão outono corvos
primavera
sem contabilidades
biológicas
doutras fertilidades
transmissíveis.
Dava flores como se
desse versos
sem precisar por isso
de escrevê-los
como os amantes se
amam num só corpo
sem ver onde um
começa e o outro acaba
aberta toda em lábios
vaginais
com uterinos longos
falos brancos.
Também este ano
floriu no tempo certo.
Mas o inverno chegou
em plenas maias.
Disseram que a raiz
rachou ao meio
que o centro do seu
tronco estava oco
não percebiam como
tinha flores.
Cortaram membro a
membro a minha árvore
ficou só a raiz e o
seu vazio
e sobre o campo em
volta a neve quente
das suas flores
perplexas
impossíveis.
Jovem olhando pela
janela
(Johann Georg Meyer:
pintor alemão)
Referência:
MACEDO, Helder. Eu
sabia por ela as estações. In: __________. Viagem de inverno e outros poemas.
Rio de Janeiro, RJ: Record, 2000. p. 59.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário